″May colocou políticos pró-Brexit para negociar saída da UE″ | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 14.07.2016
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Mundo

"May colocou políticos pró-Brexit para negociar saída da UE"

Premiê britânica cumpre promessa de delegar negociações com a União Europeia aos partidários da saída, afirma especialista. "Resta esperar para ver como as pessoas vão reagir a Boris Johnson."

Theresa May e Boris Johnson (esq.): agora premiê e ministro do Exterior

Theresa May e Boris Johnson (esq.): agora premiê e ministro do Exterior

Com a nomeação de seu gabinete, a primeira-ministra britânica, Theresa May, abriu perspectivas para as negociações sobre a retirada do Reino Unido da União Europeia (UE) – mas também surpreendeu com a escolha do político pró-Brexit Boris Johnson para ser ministro do Exterior e, portanto, futuro interlocutor da UE.

A DW entrevistou o especialista Gerhard Dannemann sobre as mudanças das relações entre o país insular e o bloco europeu. O jurista alemão é professor de direito, economia e política do Reino Unido, além de dirigir o Centro de Estudos Britânicos da Universidade Humboldt, em Berlim.

DW: Que impacto a escolha dos novos ministros britânicos terá nas relações entre o Reino Unido e a União Europeia?

Gerhard Dannemann: Theresa May colocou vários partidários do Brexit nos postos mais importantes, que definem a relação do Reino Unido com a União Europeia e também com o resto do mundo. Há David Davis como ministro especificamente encarregado do Brexit, Liam Fox para renegociar os acordos comerciais internacionais, e finalmente Boris Johnson como ministro do Exterior.

Gerhard Dannemann dirige Centro de Estudos Britânicos da Universidade Humboldt, Berlim

Gerhard Dannemann dirige Centro de Estudos Britânicos da Universidade Humboldt, em Berlim

Foi uma promessa de May – que era contra a saída britânica da UE – colocar políticos pró-Brexit para liderar as negociações. Assim, eles têm uma posição forte no gabinete, ocupam postos-chave.

O tema Brexit tem prioridade na agenda da primeira-ministra?

Com certeza, embora ela tenha distribuído de imediato os clássicos postos-chave – o Ministério do Interior, o Tesouro [Exchequer] como Ministério das Finanças, o do Exterior e o da Defesa. Em seguida vêm os ministérios suplementares, criados especialmente para o Brexit.

O cisma entre os pró e contra Brexit no novo governo continuará atravessando a política britânica?

May tentou abordar esse cisma ao anunciar, como política dos Tories, algo que, na verdade poderia integrar o programa eleitoral do Partido Trabalhista: mais atenção aos interesses dos assalariados, introdução da co-determinação administrativa nas empresas – algo até agora totalmente impensável no Reino Unido. Ela quer um controle mais forte dos salários dos líderes empresariais e maior tributação dos lucros obtidos pelas empresas na Inglaterra, mas declarados no estrangeiro.

Desse modo, quer trazer para o seu lado a população mais pobre, que votou em peso pelo Brexit. Ela quer, obviamente, também evitar que essas pessoas passem de vez para o Ukip [Partido da Independência do Reino Unido, populista de direita], que lucrou muito com a dissidência do eleitorado conservador. Eu também veria isso como um preço que os pró-Brexit – em geral, da ala economicamente conservadora – devem pagar para realmente ter a saída da UE.

O que se sabe das metas políticas de Boris Johnson, além do engajamento dele pelo desligamento britânico da UE?

Sabe-se muito sobre Boris Johnson. Um comentarista disse certa vez que se deveria fazer uma lista dos países que ele ainda não ofendeu: ela certamente seria mais curta do que a dos países e políticos que ele já ofendeu.

Johnson é um homem das palavras ágeis, pronto a enfrentar muito atrito por – o que ele considera – uma boa piada. Foi assim que ele já entrou em muita enrascada. Mas não sei o que esperar dele em termos de política externa, em linhas gerais.

Um homem como Johnson, que queria ser premiê, vai ficar satisfeito com o posto de chefe da diplomacia?

Nas circunstâncias dadas, era o melhor que ele podia conseguir. Para mim está em aberto se ele ainda tem ambições ao cargo de primeiro-ministro. Caso tente novamente, provavelmente vai ouvir que fracassou na última tentativa.

É de se esperar que o instigador da saída da UE vá ficar metendo o bedelho no trabalho do ministro do Brexit propriamente dito, David Davis?

David Davis é um político muito sério, digno de confiança e que saberá executar essa tarefa de forma sistemática e persistente. Na questão do Brexit, ele tem primazia sobre Johnson, pois essa função foi agora desmembrada do Ministério do Exterior – assim como o comércio internacional, que fica meio entre a política externa e a economia. O que sobrou foi o torso de um Ministério do Exterior. Claro que é possível haver tensões, sobretudo se as responsabilidades não forem claramente delimitadas entre si.

O que os demais Estados-membros da UE esperam da interação com esses representantes britânicos?

Resta esperar para ver como as pessoas vão reagir a Boris Johnson. Ele é o ministro do Exterior, é claro que vão falar com ele. Ele também tem humor e sabe rir de si mesmo, uma habilidade que certamente vai ajudá-lo.

Davis é bom por ser confiável, dá para avaliá-lo bem. Ele vai decerto negociar com dureza, mas isso já era de se esperar. Acho que vai dar para se arranjar bem com ele. Liam Fox é mais difícil de julgar. Ele já foi ministro da Defesa, mas por relativamente pouco tempo. Até agora, não havia se destacado no comércio internacional.

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