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Lula desdenha do Ocidente democrático

Alexander Busch | Kolumnist
Alexander Busch
22 de fevereiro de 2024

Com falas sobre Israel e silêncio sobre Navalny, Lula deixou claro que quer distância do Ocidente democrático. Para se projetar como líder do Sul Global, ele escolhe bajular ditadores influentes, escreve Alexander Busch.

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Lula
Foto: Adriano Machado/REUTERS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro no fim de semana, com duas declarações espontâneas e um silêncio aquiescente diante das perguntas de jornalistas, onde ele atualmente situa o Brasil (e a si mesmo) politicamente no mundo.

Primeiro ele comparou os ataques de Israel à Gaza com o Holocausto sob Hitler.  Depois, recusou-se a fazer qualquer comentário sobre a morte do líder opositor russo Alexei Navalny, sob o argumento de que a causa da morte ainda não havia sido oficialmente determinada. A prisão da dissidente, ativista de direitos humanos e advogada Rocío San Miguel na Venezuela também não lhe foi digna de comentário.

Tudo isso não é novidade. Lula nunca escondeu sua simpatia aberta pelo ditador russo Vladimir Putin e sua aversão ao presidente ucraniano Volodimir Zelenski. Ele defende o ditador venezuelano Nicolás Maduro como se este fosse um democrata. Também não é segredo que Lula, como esquerdista, vê Israel de forma crítica.

Mas com a cínica comparação com o Holocausto e a defesa do regime assassino de Putin contra opositores, Lula, mais uma vez, aumentou consideravelmente as divisões com o Ocidente.

Lula quer distância do Ocidente democrático – no que é seguido por grande parte do Partido dos Trabalhadores e da esquerda brasileira. Para isso, ensaia uma aliança com regimes como Rússia, China e ditaduras no Oriente Médio. Governos autoritários da América Latina, como Venezuela, Cuba e Nicarágua, já podem contar de qualquer maneira com a solidariedade dele.

Assim, Lula dá as costas a um princípio fundamental da política externa brasileira, a uma ordem mundial multipolar e baseada em regras. Ele ignora os pilares democráticos da Constituição brasileira e do Ocidente, afirma Rubens Ricupero, o principal especialista em política externa brasileira.

Lula aceita implicitamente o direito do mais forte no mundo. O ataque à Ucrânia, a ameaça latente da China de anexar Taiwan, os ataques de milícias apoiadas pelo Irã a Israel e ao Ocidente – o presidente do Brasil aceita tudo isso abertamente. Ao tomar partido em conflitos, mostra que também desistiu da tradicional política brasileira de não intervenção.

Quem supõe que Lula tenha passado por uma mudança ideológica não leva em conta que ele sempre foi um político pragmático. Ele sempre esteve disposto a adaptar suas convicções quando lhe pareceu útil para chegar ao poder ou exercê-lo.

Do ponto de vista geopolítico, as ditaduras unidas de Rússia, Irã e China estão claramente ganhando neste momento no tabuleiro internacional. Elas pressionam a Europa e os Estados Unidos como nunca antes.

Ao voltar-se para os ditadores, Lula reage ao ganho de poder internacional desses regimes, porque quer se apresentar como líder do Sul Global. Para isso, ele aumenta a distância em relação ao Ocidente – e bajula aqueles que mandam cada vez mais na geopolítica.

Mas a ascensão política de Lula – de líder sindical que desafiou uma ditadura até a eleição como presidente décadas depois – só foi possível em uma democracia. Dificilmente aquele sindicalista teria sobrevivido a regimes como os da China ou Rússia. Ele, porém, parece ter se esquecido disso.

Isso é decepcionante para muitos, especialmente para os atuais opositores dos regimes em Caracas, Moscou ou Pequim, diante dos quais Lula não está disposto a mostrar a mesma solidariedade que outrora recebeu.

A vitória de Lula alimentou muitas esperanças, principalmente na Europa, após os anos sombrios para a democracia sob o presidente Jair Bolsonaro.

Lula desaponta essas expectativas com sua política externa. A Alemanha e outros governos europeus devem ser mais cautelosos no futuro, se quiserem contar com ele como "aliado de primeira hora". Porque Lula é cada vez menos isso.

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Há mais de 30 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul. Ele trabalha para o Handelsblatt e o jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.

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Tropiconomia

Há mais de 25 anos, Alexander Busch é correspondente de América do Sul para jornais de língua alemã. Ele estudou economia e política e escreve, de Salvador, sobre o papel no Brasil na economia mundial.