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O filme "Good bye, Lenin" estoura nas bilheterias de toda a AlemanhaFoto: AP

"Good bye, Lenin" e a nostalgia da RDA

Assis Mendonça
7 de março de 2003

A Alemanha acorre em peso aos cinemas para ver a tragicomédia "Good bye, Lenin", que revive a extinta RDA. A película navega na onda da "Ostalgie" – a melancólica nostalgia do Leste ("Ost") alemão.

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Ninguém pode explicar muito bem a razão do sucesso de "Good bye, Lenin", o filme que estreou há cerca de um mês no Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) e tornou-se quase imediatamente um objeto de culto entre os espectadores alemães. Até o próprio diretor Wolfgang Becker mostra-se surpreso com a reação do seu público: "Pode até ter se tornado um objeto de culto, mas esta não era a intenção do filme."

A modéstia do cineasta está numa crassa contradição com o recorde de bilheteria: quase dois milhões de alemães assistiram ao seu filme nas últimas duas semanas. A película encanta e comove os corações germânicos, seja no antigo lado oriental do país, seja na parte ocidental, independente de idade, sexo e status social. Pela primeira vez desde a reunificação do país, uma obra de arte logrou o que já era considerado como quase impossível: derrubar o muro invisível dentro das cabeças de alemães ocidentais e orientais.

Apartamento socialista

A ação de quase toda a película está situada no outono setentrional de 1989, em pleno processo de dissolução da antiga RDA, a Alemanha comunista. Quando se dirigia para os festejos do 40º aniversário da Alemanha Oriental, a socialista convicta Christiane Kerner vê seu filho Alex ser espancado pelos soldados que reprimem uma manifestação política. Ela sofre um enfarte cardíaco e cai em coma profundo. Não toma conhecimento de todas as atribulações políticas que levaram à derrubada do muro de Berlim e ao fim do regime comunista na RDA.

Depois de oito meses, Christiane desperta do estado de coma. Ela vive agora num país capitalista, mas não pode inteirar-se disto. Pois os médicos temem que o choque poderia ser fatal para ela. Alex decide ocultar a verdade. Leva a mãe doente para a casa. Isolando-a do mundo externo, ele praticamente recria a Alemanha Oriental dentro do próprio apartamento, usando todo tipo de artimanhas.

O fim do dualismo

A tragicomédia "Good bye, Lenin" veio reforçar uma tendência que já se nota, há algum tempo, na sociedade alemã: a nostalgia do Leste alemão. Mais odiada que amada pelos alemães enquanto existiu, a Alemanha Oriental significou ditadura e privações econômicas para os cidadãos do Leste e simbolizou a "ameaça comunista" para a maior parte dos alemães ocidentais.

Mais de uma década após a derrocada da ditadura e da ameaça vermelha, a Alemanha unificada vive hoje uma crise de desemprego e de identidade. Deixaram de existir as imagens claras do mundo dualista da guerra fria. O inimigo soviético foi substituído por uma Rússia, quase dócil e amiga. E tornaram-se tensas as relações com o antigo aliado americano. Um solo fértil para a nostalgia de tempos passados – como os da RDA – em que o dia-a-dia tinha um caráter provinciano e pacato, apesar da mão-de-ferro da ditadura.

"Ostalgie" em todas as partes

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Trabant, o carro da RDAFoto: AP

A chamada "Ostalgie" (um neologismo alemão criado a partir das palavras Ost – leste – e Nostalgie – nostalgia) apresenta facetas curiosas. A primeira delas é o fato de que se disseminou não apenas no antigo lado oriental da Alemanha, mas em parte até mesmo entre os alemães ocidentais que nunca viveram sob o regime comunista alemão e sempre rejeitavam antes tudo o que se relacionasse com a RDA.

Agora, os produtos da antiga Alemanha comunista estão sendo recriados e comercializados, por exemplo, na Baviera e em Baden-Württemberg, os Estados que são considerados os mais bem sucedidos modelos do capitalismo alemão. Os pepinos em conserva da RDA (Spreewald Gurken) são oferecidos com a mesma embalagem antiquada com que se apresentavam nas prateleiras quase vazias dos supermercados de Berlim Oriental, na década de 80.

Trabant e parque temático

Em Berlim, o empresário Rico Heinzig foi tomado de surpresa pelo inusitado êxito de seu empreendimento: ele oferece aos turistas um passeio de Trabant – o pequeno automóvel, que era um dos símbolos da Alemanha Oriental – pelas ruas da capital alemã. O número de interessados aumentou tanto que Heinzig terá de buscar novos Trabant (o carro já deixou, há muito, de ser fabricado) para atender à inesperada demanda.

Mas o que realmente está fazendo furor é o projeto anunciado por um grupo de investidores da parte ocidental da Alemanha: a criação em Köpenick, um bairro de Berlim, de um parque temático sobre a Alemanha Oriental. Uma área de 10 mil metros quadrados será transformada numa RDA reconstruída, bastante fiel à imagem do antigo Estado comunista alemão. Com os mesmos guardas de fronteira mal humorados, com o câmbio compulsório de divisas para os turistas, carros Trabant pelas ruas e a venda exclusiva de produtos alemães orientais. Mesmo que, para isto, tenham de ser "recriados" os produtos de consumo da extinta RDA.