Ex-guarda da SS se diz envergonhado por massacre nazista | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 13.11.2018
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Alemanha

Ex-guarda da SS se diz envergonhado por massacre nazista

Acusado de cumplicidade em assassinatos sistemáticos ocorridos em campo de concentração, Johann R., de 94 anos, diz que não sabia das atrocidades cometidas. "Nunca fui um nazista", diz.

Não sou um nazista, nunca fui e jamais serei, afirmou Johann R. em declaração lida por seu advogado

"Não sou um nazista, nunca fui e jamais serei", afirmou Johann R. em declaração lida por seu advogado

Um ex-guarda da SS de um campo de concentração afirmou nesta terça-feira (13/11) durante julgamento que se sente envergonhado de ter integrado a tropa de elite das Forças Armadas nazistas, mas afirmou que não tinha conhecimento das atrocidades que ocorreram no local.

Johann R., de 94 anos, é acusado de cumplicidade nas centenas de assassinatos ocorridos no campo de concentração de Stutthof, próximo a Danzig (atual cidade polonesa de Gdánsk). Seu nome completo não pode ser divulgado devido à legislação alemã de proteção da privacidade.

Em um raro testemunho de um dos últimos casos desse tipo, Johann R. afirmou em declaração lida por seu advogado que foi forçado a servir na SS e que jamais teria sido um nazista.

"Estou, é claro, envergonhado de ter feito parte da SS, mas até hoje não sei se teria coragem de tomar outra atitude", afirmou em tribunal na cidade de Münster, no oeste da Alemanha. 

Ele disse que foi forçado a se alistar porque temia represálias contra sua família caso se recusasse a servir. "Quando vi os presos, eu soube que a SS estava errada, mas não tive a escolha de agir de outro modo", disse. "Posso apenas dizer que não sou um nazista, nunca fui e jamais serei."

"Eu não sabia nada sobre os assassinatos sistemáticos, eu não sabia nada sobre as câmaras de gás ou sobre os crematórios", insistiu o ex-guarda, afirmado ainda que gostaria de ter deixado o local.

O promotor Andreas Brendel contestou as afirmações, dizendo que haveria alguns meios para que guardas deixassem de servir no campo de concentração. "Acreditamos que os guardas sabiam muito mais do que isso que ouvimos hoje".

Brendel é responsável pela acusação de crimes de guerra nazistas no Ministério Público do Estado da Renânia do Norte-Vestfália. Ele chefia a acusação contra o ex-guarda oriundo do distrito de Borken, que teria trabalhado em Stutthof de junho de 1942 a setembro de 1944.

Ao menos 27 mil detentos de Stutthof morreram até o fim da Segunda Guerra Mundial. As vítimas foram mortas em câmaras de gás, assassinadas com tiros na nuca ou envenenadas com injeções de gasolina ou fenol aplicadas diretamente no coração. Muitos morreram de frio, de exaustão devido aos trabalhos forçados ou falta de assistência médica.

Johann R. está sendo julgado num tribunal juvenil porque, na época dos crimes de que é acusado, ele tinha menos de 21 anos. De acordo com a promotoria, como guarda da SS ele "necessariamente tinha consciência" de que as pessoas detidas em Stutthof morriam de forma brutal – e teria ajudado a tornar possíveis os cruéis assassinatos por trabalhar lá, embora não haja evidências ligando o acusado a um crime específico no campo de concentração.

Se condenado, o ex-guarda poderá receber pena de até 15 anos de prisão. Em razão da idade avançada e da possibilidade de uma apelação por parte da defesa, é pouco provável que ele passe algum tempo atrás das grades. Ele é um arquiteto paisagista aposentado, divorciado e pai de três filhos.

Precedente jurídico pode pesar contra o acusado

A promotoria argumenta que apenas trabalhar num campo de concentração ou de extermínio já basta para que haja responsabilidade penal pelos assassinatos. O raciocínio segue o precedente jurídico usado contra o ucraniano John Demjanjuk em 2011. Demjanjuk foi condenado em Munique por ter servido como guarda do campo de extermínio de Sobibor.

Em 2015, a condenação do chamado "contador de Auschwitz", Oskar Gröning, usou o mesmo argumento. Sua defesa chegou a entrar com um recurso para evitar que ele cumprisse a pena devido à idade avançada (94 anos) e ao frágil estado de saúde, mas o pedido foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional de Karlsruhe, consolidando o precedente. O ex-guarda de Auschwitz Reinhold Hanning também foi condenado seguindo essa argumentação. Os três condenados já morreram.

O caso envolvendo o guarda de Stutthof será o primeiro em que a acusação usará a argumentação contra um ex-guarda de campo de concentração e não de um campo de extermínio. Porém, o promotor Brendel disse que as provas são equivalentes ao caso de Gröning, que atuou principalmente fora da área de Auschwitz onde os assassinatos em massa aconteciam. "Muitas mortes também aconteciam nos campos de concentração", diz Brendel.

Processos como o de Stutthof também são uma corrida contra o tempo. "Nenhum dos nossos suspeitos tem menos de 91 anos", afirma Jens Rommel, diretor da Central de Esclarecimento de Crimes Nazistas em Ludwigsburg, que encaminha cerca de 30 processos por ano às procuradorias. As chances de encontrar suspeitos ainda vivos ou capazes de enfrentar processos são cada vez menores, diz Rommel. Por isso, as procuradorias precisam arquivar cada vez mais casos, que não chegam a se tornar processos criminais.

Os casos mais recentes encaminhados para processo envolveram funcionários de Auschwitz e também pessoas acusadas de trabalhar nos campos de Stutthof, Buchenwald, Ravensbrück e Mauthausen. Os procuradores-gerais também investigam crimes cometidos nos campos de concentração de Mittelbau, Flossenbürg e Gross-Rosen.

Stutthof foi construído em 1939 e utilizado para várias finalidades. Inicialmente era o principal ponto de coleta para poloneses judeus e não-judeus da cidade de Danzig. A partir de 1940, foi usado como um chamado "campo de trabalho educativo", para onde trabalhadores forçados – especialmente cidadãos poloneses e soviéticos que haviam fugido de seus opressores nazistas – eram enviados para cumprirem suas sentenças, morrendo no local.

Outros detentos incluíam criminosos condenados, prisioneiros políticos, homossexuais e testemunhas de Jeová.

A partir de meados de 1944, dezenas de milhares de judeus evacuados de guetos pelos nazistas nos países bálticos, assim como de Auschwitz, que estava superlotado, e milhares de civis poloneses expulsos durante a brutal opressão do Levante de Varsóvia foram enviados a Stutthof.

RC/afp/ap/dpa/epd

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