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Estado de DireitoUganda

Uganda: Opositor Bobi Wine volta a ser detido

Cristina Krippahl
30 de dezembro de 2020

A duas semanas das eleições gerais, o principal adversário do Presidente Yoweri Museveni, o músico e parlamentar Bobi Wine, voltou a ser detido nesta quarta-feira (30/12). Analistas receiam um aumento da violência.

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Afrika | Kenia Uganda Proteste  Bobi Wine Opposition
Foto: AP Photo/picture alliance

Não há ainda pormenores sobre as circunstâncias em torno da nova detenção do líder da oposição ugandesa Robert Kyagulanyi Ssentamu, mais conhecido pelo seu nome artístico Bobi Wine, no centro do país. Uma detenção prévia no início de dezembro desencadeou uma onda de protestos no país, que custou a vida a, pelo menos, 50 pessoas e deixou mais de 200 feridas. 

Perante este cenário aumenta o medo de violência no país, que vai às urnas no dia 14 de janeiro. Fred Muhumuza, analista político na Escola de Economia da Universidade Makerere do Uganda, defende que é possível prevenir a violência, mas "não vejo vontade das diferentes partes para evitá-la. Os debates necessários não acontecem”.

O porta-voz do Governo ugandês, Ofwono Opondo, garantiu "que a eleição será tranquila". Mas os ugandeses não parecem confiar na promessa.

Susan Okedi, moradora da capital, Kampala, disse à DW que planeia deixar a cidade e voltar para a sua aldeia até ao fim das eleições.

"Toda a gente está a pensar em deixar a cidade e as suas casas. As pessoas estão com muito medo", afirmou.

Uganda Festnahme Robert Kyagulanyi aka Bobi Wine
Bobi Wine durante a detenção no início de dezembroFoto: REUTERS

Nos arredores de Kampala, a repressão aumenta cada vez mais. No sábado, as autoridades eleitorais proibiram eventos de campanha em certas áreas urbanas próximas da capital, argumentando com a necessidade de controlar a propagação do coronavírus.

Críticos vêem essa decisão como uma manobra para impedir a campanha da oposição nas áreas onde o partido no poder, o Movimento de Resistência Nacional (NRM), não é popular.

Covid-19 é pretexto para reprimir a oposição

O premiado advogado e defensor dos direitos humanos Nicholas Opiyo está convicto de que "a pandemia de Covid-19 está a ser usada como uma desculpa para a restrição dos direitos e liberdades fundamentais". Opiyo falou com a DW poucos dias antes de ele próprio voltar a ser detido pela polícia do regime de Yoweri Museveni, que, entretanto, o libertou nesta quarta-feira (30/12) son caução.

Em abril de 2019, o Presidente de 76 anos conseguiu que o Tribunal Constitucional do Uganda abolisse o limite de idade para a presidência, o que lhe permitiu nova candidatura.

Uganda Festnahme Robert Kyagulanyi aka Bobi Wine
A repressão da oposição é violentaFoto: Abubaker Lubowa/REUTERS

Reeleição de Museveni à vista?

Sondagens indicam a provável reeleição de Museveni. O Presidente goza de amplo apoio nas áreas rurais, especialmente entre a geração mais velha, que o associa à estabilidade que trouxe ao país após as sangrentas convulsões antes de 1986. Museveni também investiu fortemente na infra-estruturas do país, e a sua luta contra a pandemia da Covid-19 é vista como um sucesso.

Resta saber porque reage então, de forma tão feroz contra o opositor Bobi Wine? O analista da Chatham House, uma "think thank” baseada em Londres, Alex Vines acredita que o político, que vê a sua maioria em declínio, não está acostumado a uma concorrência tão apertada.

"Acho que Museveni vencerá as eleições. Mas vai tornar-se ainda mais repressivo. Pelo menos, se quiser reivindicar uma vitória oficial”, considera ao Vines, para quem "desta vez, suspeito que ainda poderá dizer que esta eleição foi mais ou menos a vontade do povo ugandês".

Com 38 anos, Bobo Wine representa a geração jovem. Ao reivindicar mais democracia em melhores perspetivas económicas, tornou.se no porta-voz de um grupo etário que cada vez mais rejeita o antigo regime do Presidente quase octagenário que se prepara para se manter no poder até o fim da vida.

Yoweri Museveni
Yoweri Museveni está no poder há 36 anos Foto: picture-alliance/dpa/A. Novoderezhkin

O papel da comunidade internacional

A comunidade internacional tem sido particularmente discreta em relação à repressão e violência no Uganda.

A União Europeia anunciou que não enviaria observadores eleitorais, mas justificou a decisão com a pandemia da Covid-19, a falta de um convite por parte de Kampala e a escassez de reformas necessárias no Uganda nos últimos 15 anos. Mas para o Ocidente, a prioridade parece ser manter a estabilidade na região especialmente tendo em conta a crise na vizinha República Democrática do Congo e a fragilidade do processo de paz no Sul do Sudão.

Os vizinhos da Região dos Grandes Lagos estão a acompanhar de muito perto os acontecimentos no Uganda. O analista Fred Muhumuza, considera que, também para eles, a estabilidade é a prioridade absoluta.

"Não temos boas relações com o Ruanda. que pode muito bem ter interesse em ver Museveni sair da cena", disse Muhumuza.

Mas o governo de Kigali sob o Presidente Paul Kagame  "sabe que o que provavelmente resultaria de uma mudança no poder. Por isso a ansiedade de ver Museveni partir é muito condicionada", acrescentou Muhumuza.

Desde a independência em 1964, o Uganda nunca viveu uma transição pacífica do poder.