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Moçambique-Ruanda: Como fica a relação após saída de Nyusi?

Nádia Issufo
23 de fevereiro de 2024

Analista acredita que Ruanda pode estar a "relaxar" na segurança para justificar continuidade em Cabo Delgado e assumir mais protagonismo. O que será da relação entre os dois países sem os amigos Nyusi e Kagame juntos?

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Foto de arquivo (2022): Forças ruandesas vigiam projeto da Total em Afungi, Cabo Delgado
Foto de arquivo (2022): Forças ruandesas vigiam projeto da Total em Afungi, Cabo DelgadoFoto: Camille Laffont/AFP/Getty Images

Como será feita a passagem do dossiê Moçambique-Ruanda? É uma das questões que se levantam em ano de eleições presidenciais em Moçambique.

Em outubro, Filipe Nyusi deixará a Presidência moçambicana e o próximo chefe de Estado não pode cortar a cooperação de segurança "de forma abrupta", correndo o risco de "dar um tiro no pé", afirma o investigador Calton Cadeado.

Em entrevista à DW, o analista cogita que o Ruanda pode estar a relaxar para justificar a sua continuidade em Cabo Delgado e chamar para si mais protagonismo.

Calton Cadeado considera ainda que o Estado moçambicano falhou na questão da defesa e segurança e, por isso, terá dificuldades para se libertar da dependência estrangeira.

DW África: O que se espera do Ruanda no final do mandato do atual chefe de Estado moçambicano?

Calton Cadeado (CD): Eu só tenho uma teoria da conspiração em relação ao Ruanda e uma preocupação. O Presidente [Filipe] Nyusi está de saída e ele tem uma relação muito pessoal, de proximidade, com o Presidente ruandês. Como fica essa relação entre Ruanda e Moçambique com o próximo [Presidente] que vier, sem ter Nyusi e [Paul] Kagame juntos? Como é que o novo Presidente vai encarar isto? O Presidente Nyusi vai passar a informação para a continuidade ou haverá rutura com o Ruanda? Hoje, o Ruanda tem um espaço privilegiado na segurança de Moçambique e até nos projetos económicos - sabe-se que há empresas [ruandesas] que estão aí presentes. Para garantir a sua presença aqui, o que é que o Ruanda pode ou não fazer?

Filipe Nyusi e Paul Kagame
Filipe Nyusi e Paul Kagame

DW África: Está a querer dizer que o Ruanda pode querer pensar primeiro nos seus interesses...

CD: Isso levanta suspeitas de que o Ruanda pode estar a relaxar um pouco nesta situação da segurança, mas também sabemos da saída das forças da SAMIM [a Missão Militar da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral]. Há um certo relaxamento e isso pode provocar um agravamento [da insegurança] e o Ruanda chamar para si mais protagonismo.

DW África: Esse risco de vácuo, que é também percebido pelos insurgentes, pode jogar a seu favor?

CD: Exato.

DW África: Como colmatar essa situação?

CD: Com o robustecimento das Forças Armadas de Moçambique.

DW África: Mas isso não se faz imediatamente, é algo construído ao longo do tempo.

CD: Aí temos de dizer que falhámos como Estado moçambicano. Estamos há seis anos nesta luta contra o terrorismo e já devíamos ter robustecido esta capacidade. Não se justifica. Temos o conhecimento, isso é verdade, treino, tecnologia e tudo mais, mas falo de um robustecimento em termos de meios, ação, por exemplo com drones, helicópteros, que hoje já devíamos ter.

Calton Cadeado
Calton CadeadoFoto: Privat

DW África: Esses são os riscos da personificação dos dossiês do Estado, não é?

CD: Esse é um risco e nós às vezes temos a tendência de ver apenas o lado mau, mas há um lado bom na personificação dos processos. As relações de amizade e proximidade são muito boas na hora de fazer política. Se não tivesse havido esse relacionamento entre Nyusi e Kagame, provavelmente não teríamos conseguido os ganhos que conseguimos até agora. Isso foi facilitado pelo grau de aproximação entre eles.

DW África: E também pelo grau linguístico...

CD: Exato. E a cultura, e por aí em diante.

DW África: A cooperação militar Moçambique-Ruanda deverá continuar nos mesmos moldes com uma nova Presidência?

CD: O próximo que vier não pode cortar isso de forma abrupta se não tiver uma alternativa. Será um tiro no próprio pé.

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