José Eduardo dos Santos prepara defesa contra acusações de corrupção | Angola | DW | 13.04.2021

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Angola

José Eduardo dos Santos prepara defesa contra acusações de corrupção

Ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos quer provar inocência em tribunal e esclarecer as "zonas cinzentas" dos escândalos de corrupção, nomeadamente na Sonangol, no qual o seu nome surge como alegado cérebro. 

José Eduardo dos Santos está a preparar a sua defesa contra todas as acusações de envolvimento em atos de corrupção de que tem sido alvo em Angola, segundo revelou recentemente o semanário português Expresso, que cita uma fonte do seu gabinete.

O nome do ex-Presidente de Angola aparece numa lista de acusações, entre as quais de envolvimento da Suninvest, empresa ligada à Fundação José Eduardo dos Santos (FESA), no negócio que culminou com a apropriação alegadamente ilícita de terrenos nas encostas do Miramar, em Luanda, e com a construção, na mesma área, do Hotel Intercontinental, inaugurado no ano passado.

O semanário Expresso revela, numa das suas recentes edições, que na mesma lista consta a parceria estabelecida entre a petrolífera estatal angolana Sonangol e o grupo chinês China International Fund (CIF) liderado pelo empresário sino-britânico Sampa Pa, detido em Pequim por suspeitas de desvios de avultados recursos chineses em vários negócios em Angola.

Depois das suspeitas de corrupção detetadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de Angola, José Eduardo dos Santos fez saber que vai provar a sua inocência em tribunal perante as acusações de que é alvo. 

Responsabilidades de altos quadros

O analista João Paulo Batalha, consultor em políticas anti-corrupção, disse à DW África que as explicações que o antigo Presidente de Angola tiver que dar sobre os negócios serão muito úteis para se confrontar as suspeitas ao longo de muitos anos envolvendo não só o seu nome, mas também outros altos quadros do Governo e do MPLA e ajudar o país a virar a página de décadas de corrupção.

João Paulo Batalha Transparência e Integridade

Analista João Paulo Batalha

"Podem ter também a utilidade, eventualmente indesejada pelos atuais membros do Governo, de revelar responsabilidades de muitos outros quadros do MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola, partido no poder em Angola] que continuam em posições de poder neste e noutros negócios", afirma.

De acordo com o Expresso, Eduardo dos Santos predispõe-se a prestar o seu depoimento por videoconferência na Embaixada de Angola em Espanha. Vai fazê-lo também para esclarecer as informações prestadas pelo ex-vice-Presidente, Manuel Vicente, ao atual chefe de Estado, João Lourenço, que o colocam como o principal responsável por algumas das maiores operações financeiras realizadas pela Sonangol, que terão lesado gravemente os interesses do Estado angolano.

Isabel dos Santos volta à carga no ataque ao Governo

O semanário dá conta, por outro lado, que o português Mário Leite Silva, antigo braço direito de Isabel dos Santos, está também contra o ex-vice-Presidente de Angola. Num extenso documento enviado à PGR de Angola e outras entidades em Portugal, Leite Silva "pôs a nu a engenharia financeira do envolvimento da Sonangol com a petrolífera americana Cobalt e a Nakasaki, liderada em simultâneo pelo próprio Manuel Vicente e integrada também pelos generais Hélder Vieira Dias, antigo chefe da Casa Militar, e Leopoldino Nascimento, homem de mão de Eduardo dos Santos".

Celso Filipe, diretor adjunto do Jornal de Negócios e autor do livro "Poder Angolano em Portugal", não crê que José Eduardo dos Santos seja responsabilizado pelos crimes de que é acusado. "A resposta pertence ao domínio da futurologia", afirma em declarações à DW África.

Assistir ao vídeo 04:27

João Lourenço quebra o silêncio e fala à DW sobre Isabel dos Santos

"É impossível dizer se isso irá acontecer ou o contrário, se nunca irá acontecer. Todavia, esta possibilidade pode ser analisada de outra forma e não surge do nada. Ela surge num momento em que Isabel dos Santos, a filha de José Eduardo dos Santos, voltou à carga no ataque ao Governo de Angola com a entrega de escutas no Tribunal Superior de Londres para provar uma teoria da conspiração contra ela. E, portanto, parece que esta possibilidade é quase uma resposta das autoridades angolanas à iniciativa de Isabel dos Santos", conclui.

O analista considera que esta possibilidade significa que muito provavelmente estarão esgotadas quaisquer hipóteses de entendimento entre a família dos Santos e o atual Governo angolano liderado por João Lourenço. "O que se configura é uma escalada do confronto entre a família dos Santos, protagonizada sobretudo por Isabel dos Santos, e João Lourenço."

"O desfecho desta contenda é incerto", considera Celso Filipe. No entanto, acrescenta: "o simples facto de João Lourenço estar no poder e gozar aparentemente cada vez mais simpatias internacionais coloca o atual Presidente de Angola numa posição de vantagem relativamente ao seu contentor."

MPLA quer mesmo destruir imagem de JES?

Mas "a ida de José Eduardo dos Santos a tribunal seria má para Angola", acredita Celso Filipe. "Seria um corte radical com a História e seria também o fim de uma imagem que o próprio MPLA foi construindo do anterior Presidente como o responsável pela reconciliação nacional".

Portugal Lissabon | Celso Filipe, Journalist aus Portugal

Celso Filipe, autor do livro "Poder Angolano em Portugal"

"Indo a tribunal, o MPLA destruiria essa imagem de reconciliador e de pacificador, de homem da paz, que em tempos não muito longínquos atribuiu a José Eduardo dos Santos", lembra o analista. Por isso, questiona: "Será mesmo que o MPLA quer destruir a imagem do seu antigo líder?"

Por seu lado, o fundador da Transparência e Integridade Portugal, João Paulo Batalha, defende o julgamento de José Eduardo dos Santos se se confirmarem os crimes de que é acusado. "Se houver, de facto, vontade da justiça angolana e abertura de José Eduardo dos Santos para pôr tudo em pratos limpos e revelar os contornos de vários destes negócios e de várias destas suspeitas isso pode até ser o início de um tempo novo para Angola", considera.

"Se de facto houver um consenso dos responsáveis políticos e dos responsáveis judiciais para enfrentar de uma vez a corrupção que se acumulou naquele país ao longo de tantos anos e resgatar muito do dinheiro roubado ao longo deste tempo e aplicá-lo no desenvolvimento do país", conclui Batalha.

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