Guineenses em Moçambique condenam "assalto ao poder"
5 de dezembro de 2025
Zé Rachid está a mais de 6.600 quilómetros de Bissau, mas acompanha atentamente a crise no seu país-natal, sobretudo desde o golpe militar, a 26 de novembro, na véspera da divulgação dos resultados das eleições legislativas e presidenciais.
"É uma situação degradante, porque fez-se as eleições, o povo participou massivamente e houve um vencedor, que todos nós sabemos que foi o Dr. [Fernando Dias] da oposição", comenta.
É por isso que Zé Rachid questiona a designação de "golpe" – porque não houve um golpe contra o Presidente Umaro Sissoco Embaló, afirma este cidadão.
"Como é que se pode dar um golpe de Estado a uma pessoa que já não é Presidente e perdeu as eleições; alguém que diz que está preso, mas abandonou o país." Quando muito, seria um golpe contra o vencedor das eleições presidenciais, acrescenta.
As detenções de opositores ao Presidente cessante Umaro Sissoco Embaló, além das perseguições, assaltos a residências e sedes dos partidos políticos e atual candidato preocupam muitos guineenses. Zé Rachid diz que isso tem de acabar.
"Dirijo as minhas palavras à junta militar: Apelo a que liberte esses presos políticos e todos os outros. O que eles fizeram é um rapto, porque não houve mandados de captura, e as famílias dessas pessoas estão a sofrer por isso, porque eles não fizeram parte de eleições, só apoiam um candidato", apelou.
Esse é o caso do líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira.
Vinganças e ajustes de contas
Outro cidadão guineense, que preferiu não ser identificado, vive em Moçambique há mais de 30 anos e afirma que a situação atual no seu país está ligada a vinganças e ajustes de contas, resultantes de divisões que surgiram logo após a independência, há mais de cinco décadas.
"Isso não vai acabar enquanto o povo e a liderança guineense não se sentarem e fizerem o trabalho de base, para a reconciliação. Os jovens de hoje não viveram aquele problema de 1973 e 1994, mas estão a pagar pelo que aconteceu no passado", disse à DW.
Esta semana, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) da Guiné-Bissau disse que não consegue divulgar os resultados do escrutínio de 23 de novembro, porque homens armados invadiram o seu edifício e confiscaram atas e equipamento informático.
Mas Zé Rachid acredita que há condições para concluir o processo eleitoral: "Isso tudo são coisas que nós não podemos acreditar, porque as atas estão em todo o lado, distribuídas em todas as instituições que acompanharam as eleições. Todos os concorrentes, e mesmo eu aqui [em Moçambique] tenho as atas."
O próprio chefe da missão de observação eleitoral da União Africana (UA), o antigo Presidente moçambicano Filipe Nyusi, afirmou que as eleições decorreram bem e que já há um vencedor. Agora, falta apenas que a CNE divulgue os resultados.
Em declarações à Rádio Moçambique, Nyusi sublinhou que não há motivos para atrasos após um processo eleitoral considerado pacífico e transparente. "Não se pode evitar. Por que se evita? Porque se aceitou que houvesse eleições lá? Porque até à última hora, quando se fechou a urna e se selou depois de terminar, não havia esse problema. Então, existem resultados. Tem de se publicar", frisou.