FRELIMO diz que morreu um ″parceiro estratégico para a paz″ | Moçambique | DW | 03.05.2018
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Moçambique

FRELIMO diz que morreu um "parceiro estratégico para a paz"

A FRELIMO, partido no poder em Moçambique, considerou o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, um parceiro estratégico para a paz e estabilidade, lamentando a morte do líder do principal partido da oposição.

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Encontro entre Filipe Nyusi e Afonso Dhlakama na Gorongosa em 2017

"Para nós, colheu-nos de surpresa e com muita dor, era um parceiro estratégico para a paz e estabilidade no país", afirmou o porta-voz da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Caifadine Manasse, em declarações ao canal privado STV.

Caifadine Manasse assinalou o empenho de Afonso Dhlakama no alcance com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, de um entendimento para uma proposta de revisão pontual da Constituição da República sobre o aprofundamento da descentralização do país.

"Tudo indicava que ele estava a percorrer um caminho para a paz", acrescentou Caifadine Manasse, pedindo serenidade e compromisso com a paz aos membros da RENAMO.

"A RENAMO vai-se reorganizar, eles têm interesse em ver esta paz", enfatizou.

"Uma grande tragédia nacional"

Mosambik Daviz Simango (DW/J. Beck)

Daviz Simango

O presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), Daviz Simango, classificou a morte de Afonso Dhlakama como "uma grande tragédia nacional". 

"Morre um homem que lutou por causas justas, que sabia o que queria" e que merece "todas as insígnias e direitos de um herói nacional", referiu o líder do terceiro maior partido moçambicano, com representação parlamentar, em declarações à televisão moçambicana STV.

Daviz Simango formou o MDM em 2009 depois de abandonar a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) liderada por Dhlakama.

O falecido líder da oposição moçambicana "tinha consciência clara de que precisava de entregar a sua vida para trazer aos moçambicanos a democracia que lhes foi negada aquando do Acordos de Lusaca", concluiu Simango.

Dhlakama foi "decisivo" para as mudanças em Moçambique

A União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), maior partido na oposição angolana, lamentou a morte de Afonso Dhlakama, presidente da RENAMO, considerando-o "fator decisivo para mudanças políticas importantes" em Moçambique. 

"Foi um homem que dedicou toda a sua vida para concretização de mudanças políticas importantes, ele foi o fator decisivo que trouxe à Moçambique o processo democrático", disse Alcides Sakala, porta-voz da UNITA.

Sublinhou que a morte de Dhlakama acontece numa altura em que decorre o "processo negocial e de aproximação entre a RENAMO e a FRELIMO para o alcance da estabilidade caminhava a bom ritmo".

Alcides Sakala Berlin (Cristiane Vieira Teixeira)

Alcides Sakala

Para Alcides Sakala, as ações de Afonso Dlhakama na liderança da RENAMO "tiveram reflexos positivos" sobretudo "na construção da democracia" naquele país africano.

"O líder da RENAMO era decidido"

O arcebispo da Beira, capital da província de Sofala, uma zona de forte influência da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), no centro de Moçambique, Claudio Zuanna, descreveu Afonso Dhlakama como uma pessoa decidida e que acreditava no que fazia. 

"O que guardo de algumas conversas que tivemos é de uma pessoa decidida, que acredita naquilo que faz, naquilo que diz, é aquilo que me vem na mente neste momento", afirmou Claudio Zuanna, em declarações ao canal privado STV.

Era "esperança para muitos moçambicanos"

O vice-reitor da Universidade Católica de Moçambique considerou que o líder da oposição, Afonso Dhlakama, representava "uma esperança para muitos moçambicanos" e fez votos de que as "expetativas para uma paz definitiva" não sejam defraudadas.A morte do líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) "é uma perda", disse o vice-reitor para a Pastoral e Extensão Universitária da Universidade Católica de Moçambique, Rafael Baciano Sapato.

O padre recordou Dhlakama como "um homem que sempre lutou pela unidade nacional" e cujo desaparecimento "vai fazer muita diferença no rumo" de Moçambique. 

Baciano Sapato descreveu o líder da RENAMO como um homem com "muito sentido de humor, muito humano" e para quem "a luta era uma vocação". A morte de Dhlakama, comentou, deixa "uma grande incógnita, apreensão e ansiedade".  

O vice-reitor da Católica recordou que o líder da oposição era o interlocutor do Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, nas negociações para a paz: "Era o galvanizador da RENAMO. Era a esperança de muitos moçambicanos", afirmou.

"Fazemos votos para que a RENAMO rapidamente encontre alguém capaz de continuar os seus ideais e que as nossas expectativas para uma paz definitiva não sejam defraudadas", sublinhou.

"Muitas incertezas" - Human Rights Watch

A responsável da organização Human Rights Watch para Moçambique considerou que a morte do líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), "deixa muitas incertezas" quanto ao processo de paz no país e na sucessão dentro do partido. 

Em declarações à agência Lusa por telefone, Zenaida Machado considerou lamentável que a morte de Dhlakama tenha acontecido num "momento muito delicado do processo de paz em Moçambique", cujo teor das negociações "não é conhecido".

"A maior parte do conteúdo das discussões entre ele [Dhlakama] e o Presidente [Filipe] Nyusi não são conhecidas, apesar de a sociedade civil e a comunidade internacional terem insistido que este tipo de negociações deve envolver mais pessoas, portanto são duas pessoas a discutirem e neste momento uma delas já não está para contar a sua versão dos factos", disse a responsável.

Mosambik Zenaida Machado (privat)

Zenaida Machado

Impunidade durante os conflitos armados

De acordo com Zenaida Machado, com esta morte "fica também por esclarecer e por investigar" a "impunidade durante os conflitos armados", denunciada por organizações de defesa dos direitos humanos.

"Apesar de terem sido relatados sérios abusos dos direitos humanos ainda ninguém, nem da parte do Governo, nem da parte da RENAMO, foi levado à justiça por estes crimes", disse.

Para a responsável da HRW em Moçambique, outra preocupação é não "existir um plano de sucessão muito claro dentro da RENAMO ou pelo menos um plano público ou conhecido dos moçambicanos", considerando que "fica uma incerteza no ambiente político de Moçambique".

"Fica-se sem saber quem, na RENAMO, poderá ter a capacidade de gerir o partido tal como o Dhlakama fazia, quem dentro da RENAMO terá a capacidade de gerir os homens armados que ainda estão nas matas e que todos nós sabemos que são fiéis ao seu líder", ou quem "tem capacidade para continuar as negociações do processo de paz com o Governo de Moçambique", acrescentou.

Zenaida Machado manifestou ainda a esperança que a morte do líder da oposição, que tinha ainda "muito para contribuir para a história de Moçambique e para o processo de negociação" de paz, não resulte no regresso aos confrontos.

"[Espero] que a RENAMO tenha um plano B pronto para a ausência de Dhlakama e que esse plano continue com aquilo que ele já tinha começado, que era negociar o plano de paz com o Presidente da República e que ponha fim ao sofrimento de milhões de moçambicanos, principalmente na zona centro do país", disse.

Corpo transferido na sexta-feira para Beira

O corpo deverá de Afonso Dhlakama deverá ser transferido na sexta-feira (04.05) para o Hospital Central da Beira.

Afonso Dhlakama, 65 anos, vivia refugiado na serra da Gorongosa, no centro do país, desde 2016, como havia feito noutras ocasiões, quando se reacendiam os confrontos entre a RENAMO e as forças de defesa e segurança de Moçambique.

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