Fim da ajuda britânica: "Não se prepararam, a fatura chegou"
25 de março de 2026
O Governo britânico anunciou recentemente que vai reduzir a ajuda externa a Moçambique. A prioridade será agora ajudar países afetados por guerras e conflitos, como a Ucrânia, o Sudão e o Líbano.
Em entrevista à DW, o diretor executivo do Centro de Integridade Pública (CIP) afirma que Moçambique não se preparou para o fim previsível das ajudas num mundo em constante mudança.
Segundo Edson Cortês, os cortes vão afetar não apenas grupos vulneráveis, como também a classe média e a classe política que, a seu ver, irão sentir "os efeitos da sua inércia e da sua incompetência", sobretudo por "terem arrastado o país para um modelo de desenvolvimento insustentável". E a "fatura" chegou agora...
DW África: Esta redução da ajuda externa britânica ocorre num momento de múltiplas fragilidades internas. Como fazer face a estes cortes no imediato?
Edson Cortês (EC): Em algum momento, aqueles que ajudaram durante décadas Moçambique iriam parar de ajudar. Cabia a Moçambique, ao Estado de Moçambique e ao Governo de Moçambique prepararem-se para este momento.
Significaria fiscalizar melhor os seus recursos naturais, de modo a tirar dividendos que possibilitassem ao Estado arrecadar receitas suficientes para viabilizar o Estado moçambicano. E o que eu vejo, estando em Moçambique, é que isso não aconteceu, porque o Estado moçambicano, principalmente aqueles que estavam à frente do Estado moçambicano, dormiram relaxados [pensando] que a ajuda seria para sempre. Não prepararam-se para este dia, este da chegada do momento em que a ajuda fosse cortada, e, com isso, temos um Estado com instituições fracas, incapazes, incompetentes e estruturalmente controlado pela corrupção sistêmica, que não permite arrecadar receitas suficientes para a viabilização do Estado, num cenário em que a ajuda ao desenvolvimento não existe.
DW África: Moçambique depende há décadas de doadores bilaterais. E este corte vem expôr uma fragilidade estrutural. O que é que, na sua opinião, falhou nesta estratégia nacional de diversificação de financiamento?
EC: Problema é que os líderes no poder em Moçambique ficaram convencidos de que seriam sempre os meninos bonitos dos doadores. O mundo mudou, mudou rapidamente. O anúncio do Reino Unido antecede o anúncio da Suécia, do Canadá, dos Estados Unidos e dos outros doadores. O mundo está num mar de incertezas, e estes países também têm os seus assuntos internos, para não falar da extrema-direita, que está a tomar conta de muitos países da União Europeia, que são tradicionais doadores de Moçambique.
Então, hoje em dia, é cada um vire-se. Isso é o que o mundo virou. Mas o Estado moçambicano devia estar preparado, mas não. Ficou relaxado porque tinha dinheiro dos doadores. Em nenhum momento quis preparar os moçambicanos para estarem preparados para fiscalizar toda a cadeia de valor do setor extrativo. Hoje, há multinacionais a explorar os recursos de Moçambique, mas não têm capacidade de explorar.
DW África: E estes cortes vão afetar sobretudo grupos vulneráveis de programas concretos. Correm o risco de paralisar agora com este corte das ajudas britânicas?
EC: Vai afetar os grupos mais vulneráveis e não só. Também vai afetar a classe média e a classe política desse país, que é a classe média alta, estas parceiras de cooperação, as suas empresas seguradas, as suas empresas de rent-a-car, as escolas que os moçambicanos que se consideravam classe média e os expatriados frequentavam, tudo o resto no setor de serviços vai colapsar, porque o dinheiro da ajuda já não entra. Se colapsa, eles também vão sentir os efeitos da sua inércia e da sua incompetência política e, acima de tudo, o facto de terem arrastado o país para um modelo de desenvolvimento que todos nós, há mais de 25 anos, 30 anos, temos estado a dizer que não tem sustentabilidade. Agora está na hora de termos a fatura.
DW África: Não acha que isto é o fim deste tipo de ajuda ao desenvolvimento?
EC: Provavelmente estamos a assistir à mudança de paradigma.