1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

EUA: Captura de Maduro envia sinal de aviso a Teerão

Elina Farhardi
7 de janeiro de 2026

A captura de Nicolás Maduro é seguida de perto em Teerão. O Irão teme uma ação militar dos EUA no Médio Oriente, enquanto os protestos nacionais pressionam cada vez mais o regime.

https://p.dw.com/p/56TUp
Homens iranianos lêem jornais na rua, enquanto eclodem protestos devido ao colapso da economia, em Teerão, a 5 de janeiro de 2026
Teerão acompanha de perto a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados UnidosFoto: Majid Asgaripour/WANA/REUTERS

O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, que culminou com a detenção de Nicolás Maduro e da sua esposa, ativaram os alarmes da liderança iraniana.

Teerão é um dos aliados mais próximos de Maduro, que se manteve no poder em 2024 após uma fraude eleitoral massiva e não é reconhecido nem pela Alemanha nem pela União Europeia como presidente legítimo da Venezuela. 

Depois da sua captura no sábado (02.01), Maduro compareceu na segunda-feira perante um tribunal em Nova Iorque, onde é acusado de narcoterrorismo.

Com esta intervenção surpreendente, o Presidente norte-americano Donald Trump demonstrou que a sua administração está disposta a recorrer a medidas militares para derrubar um regime inimigo, em violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional, enviando um sinal claro de aviso a outros países autoritários.

O Irão exigiu a libertação imediata de Maduro: "O Presidente de um país e a sua esposa foram sequestrados", declarou, na segunda-feira, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano. "Não há motivo para orgulho. É um ato ilegal", concluiu.

Unidos por um inimigo comum

As relações entre o Irão e a Venezuela dificilmente se explicam pelos padrões tradicionais da política externa. A Venezuela situa-se nas Caraíbas e tem uma população maioritariamente católica, enquanto o Irão está no Golfo Pérsico e é predominantemente muçulmano. O comércio bilateral é modesto e não existem voos diretos entre Caracas e Teerão.

Nicolás Maduro (à esquerda) e Ali Khamenei (à direita)
Irão e a Venezuela unidos por um inimigo comum: Os Estados UnidosFoto: Iranian Presidency/ZUMA Wire/IMAGO

O que os une é um inimigo comum: os Estados Unidos. Partilham também a resistência às sanções internacionais e a capacidade de sobreviver numa ordem mundial dominada por Washington. Nas últimas três décadas, esta combinação de simpatia política e retórica antiamericana evoluiu para uma rede complexa de cooperação que abrange petróleo, finanças, indústria e segurança.

Esses laços permanecem inalterados, garantiu o porta-voz iraniano: "As nossas relações com todos os países, incluindo a Venezuela, baseiam-se no respeito mútuo. E assim continuará." O Governo em Teerão mantém o contacto com as autoridades venezuelanas, acrescentou.

Temor de interferência americana

Os acontecimentos políticos na Venezuela surgem num momento sensível para o Irão. Há mais de uma semana que o país é palco de protestos, motivados pela subida dos preços e o colapso económico, com os manifestantes a exigir mudanças sociais, económicas e políticas, aumentando a pressão sobre a liderança iraniana.

Protestos no Irão
Protestos anti-regime no Irão começaram há mais de uma semanaFoto: UGC

O Presidente norte-americano, Donald Trump, não hesitou em lançar avisos ao Irão, ameaçando inclusive intervir militarmente caso manifestantes pacíficos sejam mortos.

A bordo do Air Force One, no regresso a Washington no domingo, Trump referiu que os EUA estão a acompanhar de perto as manifestações. "Se começarem a matar pessoas como fizeram no passado, penso que serão atingidos com muita força pelos Estados Unidos", ameaçou.

Não foram divulgados detalhes sobre as medidas que os EUA poderão considerar. Em junho, a Força Aérea norte-americana atacou instalações nucleares iranianas no contexto da guerra israelo-iraniana para destruir as capacidades nucleares do país.

"O que recebo agora do Irão são reações ambivalentes", comentou Omid Nouripour, vice-presidente do Parlamento alemão, nascido em Teerão e emigrado para a Alemanha aos 12 anos, em declarações à DW. "Muitos querem mudança de regime. Mas as intervenções dos últimos anos, e agora também na Venezuela, mostram que Trump não tem plano para o dia seguinte. Por isso sou muito cauteloso."

Reação de Teerão

A mensagem chegou a Teerão, afirma Damon Golriz, analista de política internacional e investigador no Instituto de Geopolítica em Haia. A liderança iraniana sabe que pode tornar-se alvo militar dos EUA.

Golriz vê a detenção de Maduro como parte de uma mudança de rumo de Trump. No ano passado, o Presidente norte-americano mostrou-se relutante em apoiar os planos israelitas para atacar o líder supremo Ali Khamenei e outros dirigentes militares iranianos. 

Venezuela: "Líderes africanos podem ficar tranquilos"

"Os EUA devem cuidar dos seus soldados", advertiu Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, na rede X esta semana. Os EUA têm até 45 mil soldados estacionados em vários países do Médio Oriente, incluindo Iraque, Síria e Qatar.

Em junho, o Irão atacou a maior base militar norte-americana no Médio Oriente, situada no Qatar, em retaliação pelo bombardeamento das suas instalações nucleares. Não houve feridos. Segundo Trump, os EUA foram avisados previamente pelo Irão.

Impacto psicológico

A queda de Maduro tem implicações para a segurança e o aparelho militar iraniano, sublinha Golriz. No Irão, já decorre a busca por um sucessor de Ali Khamenei. Ao contrário da Venezuela, o país não tem uma oposição significativa dentro da sua estrutura de poder altamente personalizada.

O ataque dos EUA à Venezuela também teve um impacto psicológico em Teerão, afirma Reza Talebi, jornalista iraniano exilado na Turquia. Os decisores iranianos enfrentam uma questão crucial: "Se os EUA conseguiram realizar um golpe destes no hemisfério ocidental, porque não haveriam de fazer o mesmo noutros lugares?"

Talebi considera que isso pode alterar os cálculos estratégicos do Irão nas suas relações com os EUA e Israel. No último fim de semana, Israel lançou um forte aviso a Teerão, com o líder da oposição e ex-primeiro-ministro Yair Lapid a lembrar que é preciso acompanhar de perto os acontecimentos em Caracas.

Por outro lado, a intensificação das ameaças externas pode dar ao governo iraniano um pretexto para reprimir ainda mais os protestos em curso. Talebi alerta que a esperança numa intervenção militar dos EUA ou num "salvador externo" pode enfraquecer a vontade da sociedade civil iraniana de protestar, mas acrescenta: "A ideia de que a pressão da administração Trump visa sobretudo apoiar o povo iraniano é ingénua e superficial."

Guaidó: Regime de Nicolás Maduro "não tem futuro"