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ConflitosSudão

Guerra civil no Sudão: "Genocídio" à vista de todos

Simone Schlindwein
1 de maio de 2026

Especialistas estimam que a milícia RSF possa ter massacrado cerca de 70 mil pessoas na cidade de Al-Fashir em outubro passado. Investigador da ONU afirma que as atrocidades apresentam características de um genocídio.

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Al-Fashir, Darfur
Foto: AFP

Hassaina — como a mulher sudanesa de 45 anos prefere ser chamada por razões de segurança — está profundamente marcada, tanto mental como fisicamente.

Já passaram cerca de seis meses desde que ela e os quatro filhos sobreviveram ao massacre na sua cidade natal de Al-Fashir, na conturbada região de Darfur, no Sudão. Desde então, fugiram para o Uganda, onde vivem agora como refugiados. O trauma é profundo: “Vi um genocídio com os meus próprios olhos e vivi-o na primeira pessoa”, conta Hassaina à DW, entre lágrimas.

A guerra assola o Sudão há três anos. Organizações estimam que centenas de milhares de pessoas tenham morrido nos combates ou em consequência da guerra. A violência atingiu o auge em outubro passado: a milícia Forças de Apoio Rápido (RSF), que combate contra o exército governamental e milícias aliadas, capturou Al-Fashir, a maior cidade da região de Darfur, após um longo cerco, e levou a cabo um massacre contra a população civil. Foram dias que mudaram completamente a vida de Hassaina.

“As atrocidades apresentam características de genocídio”, conclui o investigador-chefe da ONU, Mohamed Chande Othman, numa entrevista à DW. Em fevereiro, após cerca de três meses de investigação, apresentou um relatório de 30 páginas ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, e submeteu-o também ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia.

Baseou a sua conclusão em três constatações principais. “A primeira é a ocorrência de assassinatos em massa. Em segundo lugar, há danos físicos através de tortura e de uma violência de género horrenda, extremamente traumática, como comprovam as provas que temos. E o terceiro elemento é a fome prolongada, provocada pela negação de acesso humanitário e pela destruição de instalações médicas.”

Refugiada sudanesa no Uganda
Muitos deslocados internos do Sudão, como Hassaina, relataram atrocidadesFoto: Simone Schlindwein

O cerco a Al-Fashir

A RSF tinha anteriormente sitiado Al-Fashir durante mais de 18 meses. Cortaram a internet e as redes telefónicas. Nem um feijão, nem um grão de arroz, nem uma gota de combustível passava pelos bloqueios rodoviários. E ninguém conseguia escapar. A razão do cerco: Al-Fashir acolhia o quartel-general da 6.ª Divisão do exército, contra a qual a RSF combate.

No início da guerra, os soldados ainda conseguiram defender a cidade. Depois, a RSF cortou as suas linhas de abastecimento. A população foi declarada inimiga. Quando as unidades do exército finalmente se renderam, os cerca de 250.000 habitantes que restavam ficaram indefesos, à mercê da RSF.

Hassaina e a sua família estavam entre eles. Quando a RSF começou a bombardear a cidade com artilharia e drones na noite de 25 para 26 de outubro de 2025, Hassaina fugiu com os seus filhos adolescentes. Perdeu de vista o marido, que tinha ido organizar ajuda para um sobrinho ferido. Mas os combatentes da RSF tinham previamente utilizado escavadoras para abrir uma vala com 30 km de extensão em redor da cidade. Atrás dela, ergueram um muro de terra — um obstáculo intransponível, relata Hassaina: “No caos, caí na vala e fiquei soterrada sob terra e cadáveres. Vi tantas pessoas mortas à minha volta.”

Em troca de um resgate pago por um familiar na Austrália, Hassaina e os seus filhos recuperaram finalmente a liberdade e, após vários percalços, conseguiram chegar a um campo de refugiados no Uganda.

O grupo paramilitar documentou extensivamente os seus crimes. Após o apagão total em Al-Fashir, os combatentes usaram a internet, que tinham restabelecido, para publicar vídeos das suas atrocidades no seu canal do Telegram. Esses vídeos mostram de perto os crimes da milícia: imagens aéreas exibem veículos todo-o-terreno a circular pela cidade. A vala é visível — tal como milhares de pessoas a fugir pela paisagem relvada e a serem travadas por essa vala: uma armadilha mortal.

Num vídeo, vê-se o general da RSF, Abu Lulu — claramente reconhecível pelos seus caracóis desalinhados, conforme confirmado por vários meios de comunicação e centros de investigação — a disparar sobre todos os que ainda estavam vivos na vala. Outro vídeo do mesmo dia, filmado no hospital de Al-Fashir, mostra combatentes a percorrer o edifício parcialmente bombardeado e a executar todos os que ainda estavam vivos nas suas camas ou agachados no chão — crimes de guerra e crimes contra a humanidade captados em câmara.

Imagens de satélite mostram como trincheiras foram cavadas ao redor de Al-Fashir
Imagens de satélite mostram como trincheiras foram cavadas ao redor de Al-FashirFoto: Vantor/AFP

Relatos de violações em massa

Segundo estimativas da Organização Internacional para as Migrações (OIM), apenas cerca de 100.000 pessoas conseguiram fugir aos ataques no dia da ofensiva. Algumas, como Hassaina e os seus filhos, chegaram ao campo de deslocados de Tawila, a 70 km a sudoeste, onde foi fornecida comida.

Bob Kitchen, do Comité Internacional de Resgate, uma das poucas organizações de ajuda presentes, também trabalhava lá. A dimensão da brutalidade infligida a estas pessoas perturbou-o profundamente.

“Quase todos com quem falámos tinham sido violados”, disse à DW. Desde bebés até avós. “Tratava-se predominantemente de violações em grupo. Tivemos mulheres muito idosas, de 72, 75 anos, violadas à frente das suas famílias. Portanto, há claramente um elemento de punição envolvido.”

O que aconteceu em Al-Fashir durante o cerco passou em grande parte despercebido ao resto do mundo. Houve apenas relatos esporádicos nos meios de comunicação. Uma equipa de cientistas forenses da prestigiada Escola de Saúde Pública de Yale, nos Estados Unidos, acompanhou esses acontecimentos em tempo real através de imagens de satélite. Na sua análise mais recente, a equipa conseguiu provar que a RSF já tinha destruído os campos e aldeias agrícolas nas redondezas que alimentavam a cidade antes do ataque.

A partir do espaço, os peritos forenses também conseguiram identificar corpos e manchas de sangue nas ruas poeirentas durante os dias de outubro em que a RSF capturou a cidade. Contaram cerca de 150 montes de cadáveres e inúmeras valas comuns, segundo Nathaniel Raymond, da Universidade de Yale. A sua equipa está a trabalhar para calcular o número de mortos com base em estimativas: “Isso deixou-nos com cerca de 70.000 pessoas presumivelmente mortas ou desaparecidas”, disse à DW.

Após o cerco de Al-Fashir, em grande parte ignorado, os massacres abertamente exibidos de outubro provocaram um clamor internacional. Crescem os apelos a investigações. Aos olhos de Hassaina, a comunidade internacional tornou-se cúmplice. “A comunidade internacional falhou connosco. Deveria ter intervindo durante o cerco para evitar que a situação piorasse”, afirma entre lágrimas. “Mas nada aconteceu”, lamenta.

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