Etiópia suspende correspondentes da DW
27 de outubro de 2025
A Etiópia tem registado um aumento nas detenções de jornalistas nos últimos meses. Agora, o Serviço em Amárico da Deutsche Welle (DW), que transmite para o país desde 1965, foi informado, no dia 23 de outubro, de que a Autoridade de Media da Etiópia (EMA) decidiu "suspender temporariamente" nove correspondentes da DW baseados na capital, Adis Abeba, e em várias cidades regionais.
A carta enviada pela EMA não apresenta acusações concretas, mas acusa de forma genérica a DW de violar proclamações sobre os media e de divulgar reportagens desequilibradas e que agravam conflitos, alegadamente "sem fontes confiáveis".
Em comunicado, a DW condenou a suspensão dos seus trabalhadores na Etiópia e pediu ao Governo que "torne disponíveis com urgência" as transcrições das reportagens consideradas incompatíveis com a ética profissional. A diretora-geral da DW, Barbara Massing, expressou preocupação com as restrições impostas ao trabalho jornalístico na Etiópia.
"Após a interrupção dos serviços em língua local da Voz da América, a Deutsche Welle oferece o programa em amárico mais amplamente acessado de um meio de comunicação internacional no país. Milhões de etíopes continuam a depender de nós para ter acesso a informações independentes", disse.
Em resposta à suspensão dos jornalistas da DW, Angela Quintal, coordenadora do programa para a África do Committee to Protect Journalists (Comitê para a Proteção dos Jornalistas), afirmou que a suspensão descarada dos jornalistas da Deutsche Welle "é um ato ultrajante de censura e intimidação", disse.
"As autoridades etíopes estão a instrumentalizar as leis dos media para silenciar o jornalismo independente e controlar a narrativa. O Governo deve levantar imediatamente a suspensão, parar de assediar jornalistas e respeitar o direito do público à informação", afirmou.
Acusações
No passado, as autoridades etíopes já haviam acusado repetidamente a DW de divulgação de informações falsas, especialmente após as eleições de 2005, marcadas por episódios de violência. Uma comissão de inquérito criada para investigar as alegações não encontrou provas de manipulação de informação.
Durante o Governo da Frente Democrática Revolucionária Popular do Povo Etíope, observadores e a própria DW acusaram as autoridades do país de "bloquear” o sinal de rádio de ondas curtas do Serviço em Amárico da emissora.
Sadibou Marong, da organização de defesa da liberdade de imprensa Repórteres Sem Fronteiras (RSF), afirmou que a situação dos jornalistas - e até de civis ligados a eles - na Etiópia é "bastante terrível e problemática".
"Prender jornalistas arbitrariamente e mantê-los incomunicáveis mostra até onde as autoridades etíopes estão dispostas a ir na repressão contra a imprensa", disse Marong à DW.
Angela Quintal, do CPJ, acrescentou que "as leis dos media e antiterrorismo continuam a ser usadas como armas contra jornalistas; os cortes de internet servem para silenciar a cobertura, e as prisões arbitrárias tornaram-se rotina", disse.
Jornalistas têm sido acusados de promover terrorismo, discurso de ódio, disseminar informações falsas ou conspirar contra o Estado ao cobrir conflitos. Em 2023, 15 canais de televisão estrangeiros foram suspensos, segundo a RSF. O Governo também tem introduzido gradualmente taxas que dificultam a radiodifusão no país.
Etiópia, gigante africano
A Etiópia, gigante da África Oriental com cerca de 130 milhões de habitantes, ocupa a 145ª posição entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2025 da RSF, que aponta que "a autocensura é generalizada".
O país também tem uma reputação de prender jornalistas. De acordo com o CPJ, 30 profissionais foram encarcerados desde 2018. Isso apesar do otimismo inicial gerado pela chegada ao poder do primeiro-ministro Abiy Ahmed, naquele mesmo ano, quando se esperava que ele reformasse os media antes rigidamente controlados.
O Governo chegou a facilitar a obtenção de licenças de radiodifusão, descriminalizou a difamação e criou medidas para proteger fontes jornalísticas. Também permitiu maior liberdade e participação de líderes de meios de comunicação privados.
Mas mesmo assim, as autoridades etíopes foram acusadas de contornar as leis de liberdade de expressão - especialmente após a eclosão da guerra civil entre o Governo e as forças tigrínias em 2020.
Uma emenda à lei nacional dos media, aprovada em abril de 2025, gerou novas críticas de grupos de direitos humanos. A mudança aumentou o controle do Governo sobre a Autoridade dos Media da Etiópia, órgão regulador responsável por aplicar sanções a veículos que violem a ética jornalística - incluindo a revogação de licenças de operação.
Personalidades no exterior
Em meados de agosto, o Ethiopia Observer noticiou que uma delegação etíope em visita à França - da qual fazia parte o primeiro-ministro - pediu ao Governo francês assistência para a "extradição" de dois jornalistas etíopes residentes no país, acusados de serem críticos do Governo.
Angela Quintal, do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, disse à DW que Abebe Bayu e Yayesew Shimelis foram "submetidos a detenções repetidas na Etiópia antes do exílio".
"Essa repressão transnacional evidencia o alcance excessivo do Governo para além de suas fronteiras, numa tentativa de silenciar vozes dissidentes - em clara violação das obrigações internacionais da Etiópia em matéria de direitos humanos", acrescentou.
Há relatos de esforços semelhantes para atingir vozes críticas em outros países da União Europeia, bem como na África do Sul, no Quênia e em Uganda.
"Em países mais seguros, esses profissionais têm a possibilidade de se reinventar. A diáspora etíope é um grupo muito grande e, na maioria das vezes, mantém sua independência e suas liberdades", disse.
"Existe a possibilidade de que influenciem outros etíopes a partir do exterior", explicou Sadibou Marong, da Repórteres Sem Fronteiras, sobre como as autoridades têm justificado o rastreamento de profissionais dos media etíopes em outros países", acrescentou.
"É algo que temos observado recentemente - e é uma tendência extremamente preocupante", concluiu.
Eleições de 2026
A Etiópia caminha para uma eleição geral marcada para junho de 2026, e organizações de vigilância dos media temem que os poucos avanços em liberdade de imprensa sejam revertidos à medida que o Governo de Adis Abeba tenta controlar a narrativa pública.
"Vozes dissidentes continuam a ser monitoradas, e há também vigilância sobre jornalistas que entram na Etiópia. Essa tendência não vai parar", afirmou Sadibou Marong, da Repórteres Sem Fronteiras. "Há um movimento geral de controle da narrativa, uma tentativa de ocupar o espaço cívico e midiático com a própria versão do Governo."