Youtuber russo explora os horrores dos ″gulags″ de Stalin | Notícias internacionais e análises | DW | 21.06.2019
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Mundo

Youtuber russo explora os horrores dos "gulags" de Stalin

Maioria dos russos aprova antigo regime do ditador soviético, e jovens nunca ouviram falar das mortes perpetradas no Grande Terror. Agora, filme de estrela do Youtube sobre legado da repressão stalinista quer mudar isso.

Manifestante participa de protesto de 1º de maio em Novosibirsk, na Rússia

Manifestante participa de manifestação no 1º de maio em Novosibirsk, na Rússia

"Eu não sei quanto a você, mas toda a minha vida eu tenho ouvido meus pais dizerem: 'tenha cuidado e não atraia atenção desnecessária, pois é perigoso. E, além disso, somos pessoas simples – nós não decidimos nada'. Meus pais são pessoas maravilhosas", diz Yury Dud em seu filme Kolyma: the home of our fear (Kolyma: o lar do nosso medo, em tradução livre).

"Mas eu queria entender: de onde vem o medo da geração mais velha? Por que eles estão convencidos de que atos de coragem, não importa quão pequenos sejam, estão fadados a serem punidos?", questiona o Youtuber de Moscou.

Essas perguntas são o ponto de partida do filme de duas horas e meia realizado por Dud, no qual ele investiga o "medo primordial" de autoridade dos russos – e como isso levou ao fatalismo político e à passividade social no país.

Dud vê as raízes deste medo no terror do stalinismo, o capítulo mais negro e não resolvido da história russa do século 20. Mais de 16 milhões de pessoas inocentes foram forçadas a trabalhar em condições desumanas em campos de trabalho onde estavam privadas de sua liberdade e saúde.

Estima-se que pelo menos 2 milhões de pessoas tenham sido mortas como prisioneiros políticos ou simplesmente por pertencerem a minorias étnicas. No entanto, esses números continuam incompletos e são pouco confiáveis, uma vez que muitos arquivos secretos ainda hoje se encontram indisponíveis para estudos.

Durante o governo de Stalin, de meados da década 1920 até sua morte, em 1953, grande parte do país ficou paralisado – especialmente após as mortes em massa associadas ao Grande Terror Stalinista no final da década de 1930.

E uma vez que a Rússia nunca lidou de forma crítica com o legado do ditador, Stalin continua sendo uma figura ambivalente até os dias de hoje – especialmente entre os russos mais velhos. O ditador está, por exemplo, associado a um genocídio interno, mas também à vitória na Segunda Guerra Mundial.

Mas Dud não pretende reeducar a geração dos seus pais. Pelo contrário, o seu grupo-alvo são os russos mais jovens. O projeto Kolyma foi criado como uma reação a uma pesquisa que descobriu que mais da metade dos cidadãos russos entre 18 e 24 anos nunca tinha ouvido falar da repressão feita por Stalin. Porém isso não causa nenhuma surpresa: os livros escolares e os meios de comunicação evitam este tema difícil. "Tomamos isso como um desafio", afirma Dud na introdução de seu filme.

Mas quem é este Youtuber de 32 anos que dediciu reabrir velhas feridas russas?

Com seu filme Kolyma, Dud diz que queria entender de onde vem o medo da geração mais velha

Com seu filme "Kolyma", Dud diz que queria entender de onde vem o medo da geração mais velha

De repórter esportivo a estrela do Youtuber

Dud é uma espécie de prodígio do mundo midiático russo. Já na casa dos 20 e poucos anos, o jovem esguio que não poderia seguir carreira no futebol por causa da asma ganhou fama como jornalista esportivo.

Mas Dud queria mais e se tornou um dos principais nomes do jornalismo digital russo. Seu programa de entrevistas, o vDud, está em curso desde 2017 no seu próprio canal no YouTube, que já conta com 5,6 milhões de assinantes.

O entrevistador cínico, inteligente e sempre bem preparado não poupa ninguém: do cineasta pró-Kremlin Nikita Mikhalkov ao político de oposição Alexei Navalny. A conversa é sempre um duelo para Dud, e seu resultado permanece indeciso até o último minuto.

Com Kolyma, Dud explora novamente um novo território. Sua investigação o leva a historiadores e pesquisadores locais, mas também aos descendentes das vítimas do terror.

Entre elas está Natalia, a filha de Sergei Korolev. O cientista e pioneiro espacial foi torturado e preso durante o Grande Terror, a campanha de repressão política na União Soviética de 1936 a 1938. Com precisão e força de tirar o fôlego, a agora idosa recorda no filme como sua família foi tratada e como ela sofreu sendo considerada a filha de um "traidor".

Dud também viaja a locais associados ao terror stalinista, percorrendo dois mil quilômetros com sua equipe da cidade de Magadan, no Oceano Pacífico, passando pela paisagem gelada de Yakutsk, ao longo do rio Kolyma e pela rodovia homônima construída por detentos dos gulags.

A rodovia Kolyma é conhecida também como Estrada dos Ossos, pois os restos mortais de milhares de pessoas que morreram durante sua construção foram enterrados sob a própria estrada. O nome Kolyma tornou-se, portanto, sinônimo do sistema de campos de concentração de Stalin. 

Com suas cenas de road movie, os momentos bem-humorados com os habitantes locais rompem com os episódios de terror. Por que alguém iria querer um picolé quando a temperatura ambiente está menos de 50ºC? "O gelo sai do freezer e está a apenas -15ºC. Por isso, ele me aquece", brinca um jovem protagonista que vive numa área extremamente fria.

"O medo é uma substância pegajosa: é muito difícil livrar-se dele", conta Efim Shifrin, em Kolyma. O renomado ator e comediante também é filho de uma vítima do terror no extremo leste da cidade portuária de Magadan, e revela no filme que sua vida inteira foi afetada por esse medo internalizado.

"Kolyma não é o nosso passado, mas nosso presente", diz Yury Dud no final do seu filme. "O medo é o principal inimigo da liberdade. A libertação só pode ser alcançada reconhecendo o passado e respeitando uns aos outros. "Esta é a única forma de tornar o nosso país apto para o futuro", frisa.

"Yury, esqueça as celebridades e encha a internet com obras históricas. É disso que precisamos agora", comenta um espectador, uma voz representativa entre as 15,1 milhões de pessoas que já assistiram ao filme Kolyma até meados de junho.

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