″A morte de Stalin″ ou: pode-se fazer piada de um ditador? | NRS-Import | DW | 31.03.2018
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Cinema

"A morte de Stalin" ou: pode-se fazer piada de um ditador?

Censurada na Rússia, sátira sobre os últimos dias do líder russo e a subsequente disputa de sucessão chega às salas da Alemanha. E reaviva o debate: é admissível rir hoje do stalinismo ou do nazismo?

Ator Jason Isaacs no papel do general rebaixado Jukov, em cena de A morte de Stalin

Ator Jason Isaacs no papel do general rebaixado Jukov, em cena de "A morte de Stalin"

A magnífica sequência de abertura de A morte de Stalin  já revela bem o terror da era stalinista: uma orquestra sinfônica dá um concerto de música clássica, Josef Stalin está concentrado, escutando com atenção, emocionado. Terminada a apresentação, ele chama o diretor da sala de concertos e quer uma gravação. Mas, oh não, ninguém lembrou de gravar o espetáculo em disco. E agora?

Às pressas, a direção da casa tenta convencer o público, que em parte já deixara o salão, a permanecer em seus lugares. O concerto tem que ser repetido, por completo, desde a primeira nota. E com a mesma acústica, o que só é possível se os assentos já vazios forem preenchidos com transeuntes. Maestro e pianista devem ser convencidos a executar um concerto sinfônico inteiro pela segunda vez – agora gravando.

Só assim está garantido que Stalin receberá um registro sonoro autêntico o mais rápido possível. Senão... sim, caso contrário, o que aconteceria?

Leia também: Opinião: Rússia não deve temer debate sobre Stalin

Stalin jaz no chão, à morte. Em volta, seu círculo de seguidores se indaga sobre o futuro

Stalin jaz no chão, à morte. Em volta, seu círculo de seguidores se indaga sobre o futuro

Não se provoca um ditador

Estamos no ano de 1953. A ditadura Stalin faz vítimas diariamente. Quem não anda cem por cento na linha é preso, sequestrado, assassinado. Isso, ninguém quer arriscar, nem mesmo os perplexps espectadores e músicos na sala de concertos. Não se provoca um ditador.

A morte de Stalin  é uma maldosa sátira política sobre um dos mais brutais reinos de terror do século 20. Um filme baseado em fatos historicamente comprovados, que os apresenta de forma apenas levemente alterada, entrelaçando, assim, de maneira genial, história e comédia, documentário e grotesco.

Por trás do filme, além de autores, produtores e um elenco fantástico, está o cineasta escocês Armando Iannucci. "Quanto mais se descobre sobre esses acontecimentos reais, mais eles se parecem uma farsa", comenta o especialista em sátiras políticas, responsável, entre outras, pela série Veep, premiada com vários Emmys, que retrata o dia a dia de um vice-presidente dos Estados Unidos.

Lavrenti Beria (Simon Russel Beale, esq.) é o homem mais poderoso da Rússia em 1953, enquanto Georgi Malenkov (Jeffrey Tambor) não passa de uma marionete

Lavrenti Beria (Simon Russel Beale, esq.) é o homem mais poderoso da Rússia em 1953, enquanto Georgi Malenkov (Jeffrey Tambor) não passa de uma marionete

uanto mais real, mais engraçado

Como conta o próprio diretor, ele visou mais do que uma comédia-pastelão com piadas inconsequentes. "Acho que em comédia vale a regra: quanto mais acontecimentos autênticos e detalhes você insere, mais cômico é." E mais ainda o público vai se perguntar se a coisa realmente aconteceu, e concluir que a resposta é: "Sim, isso pode realmente ter acontecido. Dessa forma, os espectadores ganham acesso à história."

Assistir ao vídeo 02:30

Museu Gulag, em Moscou, relembra vítimas do regime de Stalin

Após a sequência introdutória, A morte de Stalin  enfoca, sobretudo, as horas e dias seguintes ao derrame de Stalin, no início de março de 1953. Quem assumirá o poder após sua morte? Como lidar com o legado stalinista? O Kremlin será dominado pelos belicistas ou pelos pacifistas – e o que acontecerá então com quem ficar na oposição?

Iannucci, que baseou seu filme em uma HQ francesa, reúne na telona o círculo interno de poder do Kremlin: Nikita Kruchov, que no final vencerá a disputa; Lavrenti Beria, temido chefe de inteligência; Georgi Malenkov, secretário do Comitê Central; Viatcheslav Molotov, confidente íntimo do ditador e posterior ministro do Exterior.

E, por fim, o general Georgi Jukov, que em 1945 aceitara a rendição incondicional da Alemanha nazista, mas foi rebaixado pouco antes da morte de Stalin. Além disso, há a filha do ditador e o filho dela. Todos lutam pela melhor posição após o aguardado falecimento.

Rupert Friend (c.) no papel de Vassili, o filho beberrão de Stalin, tendo à direita Steve Buscemi como Nikita Kruchov

Rupert Friend (c.) no papel de Vassili, o filho beberrão de Stalin, tendo à direita Steve Buscemi como Nikita Kruchov

Entre comédia e tragédia

Apesar de todo o cenário grotesco e da comicidade absurda, A morte de Stalin  não omite o que realmente estava em jogo quando Stalin estava morrendo. "Eu queria que o público fosse lembrado que as ações e decisões dessas personagens tiveram efeitos devastadores para o povo", diz o diretor.

Iannucci sabia que ele e sua equipe tinham que ser muito respeitosos com os fatos: O fato de que "milhões de pessoas foram mortas ou desapareceram" não podia ser contornado, "nem comunicado em forma de piada": "O espectador tem que estar ciente desse fato a cada momento do filme."

E o que este nos conta hoje sobre esses eventos de décadas atrás? "A morte de Stalin  pode se passar há mais de 60 anos, mas oferece algumas lições esclarecedoras sobre o panorama político atual", assegura Armando Iannucci.

Ele teve as primeiras conversas sobre o projeto três anos atrás, "quando ninguém esperava o Brexit ou Trump". Na época, ele buscava especificamente um tema "que tivesse a ver com ditadura, autoritarismo e como um país pode ser aterrorizado por uma pessoa, mesmo que não seja sequer carismática, simplesmente porque ela sabe explorar conceitos como pensamento grupal".

O que a proibição diz sobre a Rússia de hoje?

Cartazes de Smert Stalina já haviam sido distribuídos pela Rússia

Cartazes de "Smert Stalina" já haviam sido distribuídos pela Rússia

Teria sido também essa a razão por que A morte de Stalin foi proibida na Rússia em janeiro, pouco antes do lançamento nas salas de exibição? No site do Ministério da Cultura russo, o filme foi acusado de ser um escárnio e uma abominação, uma conspiração do Ocidente para desestabilizar a Rússia. Antes disso, vários membros da Duma já haviam tachado a produção de inadmissível, exigindo sua proibição.

Um ditador que tem as vidas de milhões de pessoas na consciência, é responsável por milhões de deportações e construiu toda uma rede de gulags pelo país, não pode ser ridicularizado? O que isso diz sobre os censores da Rússia de hoje?

Assistir ao vídeo 03:50

Rir de Hitler é uma boa ideia?

Fazer piada com ditadores, sobretudo com meios cinematográficos, pode se provar um empreendimento artístico espinhoso, por diversas razões. Não há muito por que crer que a atual proibição de A morte de Stalin na Rússia se deva ao respeito pelas vítimas. Pelo menos não foi essa a explicação que se ouviu de Moscou.

Mas o público alemão deve lembrar que, não faz muito tempo, tampouco se podia fazer no país um filme simplesmente cômico e boboca sobre Adolf Hitler, Joseph Goebbels e companhia, por várias razões. Rir de Hitler certamente foi (e é) algo sobre que se pode discutir muito.

Produções como Minha quase verdadeira história, de Dani Levy (2007), ou Ele está de volta, de David Wnendt (2015), são ainda bem recentes. Atualmente a Alemanha já se mostra disposta a permitir tais ousadias cinematográficas e humorísticas e a analisá-las. A Rússia, ao que parece, ainda não está pronta. Os argumentos pró e contra tais filmes podem ser variados, mas também faria bem ao público alemão manter um pouco a humildade nesse debate.

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