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Três pessoas caminham sobre mapa gigante de Berlim. Nas paredes também há mapas.
Visitantes podem caminhar sobre mapa de Berlim e explorar, com um tablet, locais usados pela Stasi em suas operaçõesFoto: Beatrice Berthel

Um retrato inédito da vasta estrutura da Stasi em Berlim

Gabriel Bonis de Berlim
3 de junho de 2019

Após anos de pesquisa, memorial compila mapa com milhares de endereços da polícia secreta da antiga Alemanha Oriental. Apartamentos conspiratórios, escritórios e prisões eram usados para manter cidadãos sob controle.

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Após um dia de trabalho em outubro de 1960, Heinz Brandt e um colega decidem ir a um bar em Charlottenburg. No então distrito de Berlim Ocidental, Brandt conhece Eva Walter de forma nada acidental: tanto a jovem quanto o colega são colaboradores informais da Stasi, a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental, ou República Democrática Alemã (RDA).

Estava em andamento um plano para capturar Brandt, um ex-funcionário do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), e repatriá-lo à Berlim Oriental. Em um ano e meio a Stasi atinge seu objetivo: Brandt é drogado no apartamento de Walter e levado ao centro de detenção de Hohenschönhausen, no lado comunista da cidade.

Mais de meio século depois, aquela mesma prisão, hoje o Memorial Berlin-Hohenschönhausen, inaugurou a exposição "". A mostra, que ficará aberta até 31 de março de 2020, traz histórias como as de Brandt e um mapa inédito dos milhares de endereços utilizados pela Stasi na atual capital da Alemanha unificada, fruto de uma pesquisa de dois anos e meio em mais de 10 mil páginas de arquivos oficiais.

"Somos os primeiros a fazer esse mapa. Nem mesmo os apartamentos oficiais haviam sido mapeados. Tivemos que achar os endereços de cada um deles. No lado ocidental, não conseguimos encontrar os endereços, porque a Stasi destruiu esses arquivos", explica Jochen Krüger, um dos três pesquisadores envolvidos no projeto.

O aparato de controle social da Stasi em Berlim contava com ao menos 4,2 mil locais, incluindo 3.459 apartamentos conspiratórios – onde colaboradores se encontravam com agentes – e residências, 285 escritórios oficiais, 18 oficinas, infraestrutura técnica e prisões, entre outros. Somente na rua Oderberger Straße,  havia 11 dos apartamentos conspiratórios.

"Sabíamos da estrutura da Stasi em Berlim e de seus escritórios, então tentamos encontrar esses locais. Mas foi difícil, porque não havia registros ou listas, e os endereços mudavam com frequência", conta Krüger.

"Havia uma lista de apartamentos conspiratórios, mas não sabíamos exatamente quando foram usados. Então, decidimos analisar os locais apenas no período entre 1988 e 1989. Checamos tudo em duas fontes, porque até mesmo os empregados da Stasi cometiam erros", completa.

Os documentos, fotos, vídeos e áudios permitiram ao Memorial Berlin-Hohenschönhausen construir um cenário multimídia no qual os visitantes caminham sobre o mapa de Berlim e exploram, com a ajuda de um tablet, os locais usados pela Stasi em suas operações.

Escutas telefônicas e roubo de tecnologia

A pesquisa do Memorial evidencia a ousada e assustadora onipresença da Stasi nos dois lados de Berlim. Antes da construção do Muro de Berlim, em 1961, abduções de dissidentes – como a de Brandt – na parte Ocidental da cidade eram comuns. Há registros de cerca de 400 casos.

Depois, as operações adotaram estratégias mais "amenas", como espionagem e recrutamento de informantes na política e administração de Berlim Ocidental. "A Stasi era bastante familiarizada com Berlim Ocidental, mas as suas atividades consideravam a forte presença de contraespionagem e polícia ocidentais. Por essa razão, se comportaram com extrema cautela", diz Jens Gieseke, especialista em Stasi do Centro para História Contemporânea, em Potsdam.

Pés, com sapatos, sobre o grande mapa interativo.
Aparato de controle social da Stasi em Berlim contava com ao menos 4,2 mil locaisFoto: Beatrice Berthel

Os dissidentes em Berlim Ocidental, contudo, não estavam longe do alcance da polícia secreta. "Eles queriam impedir qualquer tipo de oposição. A Stasi ia atrás de dissidentes mesmo após o muro. Tinha pessoas ao redor dos dissidentes e se infiltrava em seus grupos, além de realizar chantagens e os perturbar de qualquer forma", explica Jochen Staadt, da Universidade Livre de Berlim, também estudioso do tema.

A Stasi queria saber absolutamente tudo sobre Berlim Ocidental. "Eles tinham capacidade de escutar conversas telefônicas, se soubessem o número, e até gravavam chamadas entre a polícia daquela parte da cidade com autoridades da Alemanha Ocidental [República Federal da Alemanha]", afirma Staadt.

Segundo o Memorial Berlin-Hohenschönhausen, havia 25 estações de monitoramento em Berlim para gravar telefonemas no fim dos anos 1980. Entre 400 e 600 ligações eram capturadas por dia.

Um dos diversos objetivos das operações em Berlim Ocidental e na Alemanha Ocidental como um todo era obter informações sobre políticos, partidos e integrantes do governo que lidavam com assuntos ligados à Alemanha Oriental.

"Eles queriam saber com antecedência o que a Alemanha Ocidental estava planejando e fazendo, em especial para negociações entre os dois países", conta Staadt.

Outro ponto importante da intensa atuação em Berlim Ocidental era econômico: havia muitos espiões obtendo acesso a instituições de pesquisa industrial. "Eles coletavam informações e as aplicavam nas indústrias da Alemanha Oriental sem permissão. Eles economizaram muito dinheiro roubando tecnologia", afirma Staadt.

Acesso fácil

A polícia secreta da RDA infiltrou-se em todos os aspectos da vida privada de seus cidadãos, espionando-os, escutando seus telefonemas e lendo suas cartas. Mas poucos em Berlim Ocidental imaginavam que a Stasi também tivesse tanta facilidade para entrar nos setores controlados por Estados Unidos, França e Reino Unido.

Durante a Guerra Fria, uma empresa da Alemanha Oriental operava a movimentada estação Zoologischer Garten, em Berlim Ocidental. E a Stasi aproveitava para empregar agentes secretos nos balcões de venda de bilhetes de trem e escritório de reservas. Existia ali até um armário para uso de agentes e colaboradores.

Ao longo dos anos, a Stasi acumulou centenas de agentes secretos em posições de destaque na Alemanha Ocidental. "Günter Guillaume conseguiu acessar o gabinete do chanceler federal. Mas o mais importante foi Rainer Rupp, que trabalhou na sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Bruxelas. De lá, enviou centenas de documentos secretos para o leste", lembra Gieseke.

A forte presença da Stasi nos setores ocidentais da cidade também está relacionada a planos da liderança da Alemanha Oriental para tomar o controle de Berlim Ocidental por vias militares. Havia, inclusive, detalhes de locais a serem atacados primeiro, como pontes, estações de trem e aeroportos. "O último plano que encontramos foi de 1987", diz Staadt.

A Stasi ainda mantinha atualizada uma lista de líderes políticos, policiais, jornalistas e funcionários públicos que seriam detidos após a invasão. "Parte desse trabalho intenso em Berlim Ocidental baseava-se na ideia de que um dia eles a assumiriam. Tinham que saber tudo sobre as pessoas que poderiam ser seus adversários. Estavam preparados para quando tivessem a oportunidade de pegar o inimigo", completa Staadt.

Máquina de controle social massiva

O Ministério para Segurança Estatal, ou Stasi, foi criado pelo SED em 1950 sob orientação direta da polícia secreta da União Soviética. A entidade atuava como polícia interna, organização secreta, autoridade investigativa e agência de inteligência.

Como respondia apenas à liderança da SED, ajudou o partido a manter-se no poder com mão de ferro, reprimindo quaisquer ideias ou atitudes "subversivas". Para isso, se infiltrou em todos os aspectos da vida dos alemães orientais, amealhando uma estrutura de funcionários e colaboradores não oficiais gigantesca.

A Stasi chegou a manter os chamados "escritórios locais" em empresas importantes e universidades. Agiu com brutalidade, conduziu prisões arbitrárias, destruiu reputações, realizou chantagens em massa e estimulou traições entre familiares e amigos.

Quando foi dissolvida, em janeiro de 1990, contava com 91 mil empregados oficiais – cerca de 40 mil somente em Berlim. Os colaboradores não oficiais somavam 189 mil, ou seja, 1 para cada 90 cidadãos da Alemanha Oriental.