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Ucrânia reagrupa forças no front antes da chegada do inverno

Frank Hofmann | Anna Pshemyska | Mykola Berdnyk
27 de outubro de 2023

Mesmo sem a "virada" esperada por alguns aliados, tropas ucranianas estão em melhor posição que antes da contraofensiva. Kiev aposta em flexibilidade e se prepara para a estação fria do ano.

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Soldado com capacete visto por trás, olhando para bote chegando no rio
Soldado ucraniano vê colega chegar de barco: temporada de lama complicará avanços no frontFoto: Alex Babenko/AP/dpa/picture alliance

Os combates pela cidade de Avdiivka, no leste da Ucrânia, são provavelmente tão ferozes quanto aqueles pela cidade de Bakhmut, mais ao norte. Os acontecimentos imediatos da guerra não podem ser verificados de forma independente. Em alguns dias, a Ucrânia chega a relatar a morte de entre 800 a mil soldados russos, mas esconde as suas próprias perdas.

No entanto, o enorme volume de equipamento militar destruído pelos defensores ucranianos dá uma ideia de quão violentos são os ataques da Rússia, enquanto o mundo mal presta atenção a esta guerra.

Observadores independentes avaliam vídeos para esse fim. O especialista em defesa suíço Marcus Keupp escreve sobre isso no X (antigo Twitter): "Parece que a Rússia está dando tudo de si e tentando avançar" antes do início da temporada de lama nos setores orientais da frente de batalha.

Com as chuvas de outono, o solo se transforma em um pântano quase intransponível em muitos lugares. A situação facilita a manutenção do que foi conquistado até então.

A Ucrânia está aproveitando esta oportunidade para "esgotar os recursos dos russos", afirma o especialista em segurança Christian Mölling, da Sociedade Alemã de Política Internacional (DGAP).

"Os comandantes russos estão conduzindo a ofensiva perto de Avdiivka no estilo soviético, sem levar em conta seu próprio material e tropas. Colunas inteiras de veículos blindados de transporte de pessoal, transporte de tropas e tanques de batalha russos já foram perdidas no fogo da artilharia ucraniana e em campos minados", acrescenta o especialista em Ucrânia e Rússia Nico Lange, da Conferência de Segurança de Munique. Ele ressalta ainda estar convencido de que "uma nova fase da guerra está apenas começando" na Ucrânia.

Moscou joga com o tempo

Esta nova fase pode parecer mais positiva para a Ucrânia do que muitos no Ocidente acreditam. "Ao atingir radares, defesas antiaéreas e navios russos no lado ocidental da Crimeia, a Ucrânia conseguiu, por conta própria, abrir caminho para que os navios transportando grãos pudessem sair de Odessa, expandindo suas opções operacionais", diz Lange.

Para Sabine Fischer, Moscou está sofrendo com o isolamento imposto pelo Ocidente e tem pouca escolha política a não ser tentar ganhar tempo. A especialista em Leste Europeu do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) escreveu em ensaio recente sobre a Rússia que sua "liderança política continua acreditando que pode exaurir militarmente a Ucrânia e minar o apoio internacional a Kiev".

"De fato, as entregas de armamento ao Exército ucraniano este ano trouxeram sucesso, embora o avanço esperado por muitas nações ocidentais através das linhas russas fortemente minadas no sul do país não se tenha concretizado", pondera Mölling. "Eu nunca parti do princípio de que a Ucrânia tenha definitivamente que atingir a sua meta máxima", ressalta o especialista, acrescentando que também nunca presumiu que a guerra fosse terminar este ano.

Christian Mölling
"A Ucrânia aproveita oportunidade para esgotar os recursos dos russos", diz Christian Mölling, da DGAPFoto: DGAP

"A Ucrânia tem conseguido fazer um uso inteligente do seu equipamento militar e dos seus recursos de munições", diz Lange.

Durante uma discussão sobre inteligência artificial (IA) na DW em Berlim, o chefe do Centro de Inovação Cibernética da Bundeswehr, Sven Weizenegger, revelou o que isto significa. Ele disse que a IA ajuda a Ucrânia a tomar melhores decisões de liderança, por exemplo, para reduzir "entre 80% e 90%" o uso de munições.

Além disso, os especialistas ressaltam que, em geral, os soldados ucranianos mostram ter mais "agilidade" na linha da frente do que os russos. Nos 18 meses desde o início da invasão em grande escala pela Rússia, a Ucrânia aprendeu a tirar partido da sua inferioridade no volume de equipamento militar.

Os militares ucranianos parecem estar reagindo com flexibilidade. "Enquanto Moscou envia soldados para a morte certa em Avdiivka, o Exército ucraniano interrompe a sua contraofensiva na frente sul, perto de Robotyne", afirma Lange. "A Ucrânia está fazendo uma pausa operacional neste setor da frente de batalha e está atualmente reagrupando tropas e recursos, também por cautela, levando em conta o atual bloqueio no orçamento dos EUA para mais ajuda da Ucrânia."

Preparação defensiva para o inverno

O inverno está chegando. Kiev aparentemente acredita que a Rússia – como fez há um ano – atacará cada vez mais a infraestrutura energética para que o povo da Ucrânia sofra com o frio. Mas Yurii Ihnat, porta-voz da Força Aérea Ucraniana, acredita que desta vez o cálculo funcionará a favor da Ucrânia.

"Sobretudo a Alemanha está aumentando a produção de munições tanto para armas antiaéreas como para sistemas de defesa aérea", diz Ihnat. O sistema antiaéreo alemão Gepard, em particular, tem tido muito sucesso na defesa contra ataques de drones russos. Durante muito tempo, a munição para este sistema esteve escassa.

De fato, o fabricante de equipamento bélico alemão Rheinmetall confirmou em nota que desde agosto a munição para o Gepard está sendo produzida exclusivamente para a Ucrânia em uma linha de produção recém-criada. A empresa, normalmente bastante discreta, deu a uma equipe de televisão alemã acesso exclusivo à sua área de produção.

Gepard
Soldados ucranianos em um Gepard. Berlim já enviou 40 desses tanques antiaéreos desenvolvidos nos anos 70Foto: Sergei Supinsky/AFP/Getty Images

"Falamos sobre quanta munição é necessária. Quanto é disparado em um dia? Para se ter uma ideia da nossa demanda", contou o embaixador ucraniano na Alemanha, Oleksii Makeiev, sobre as suas conversas com a Rheinmetall. "Mas também falamos sobre as tecnologias necessárias. Por exemplo, sobre como determinar a largura dos campos minados construídos pela Rússia. O que é necessário para tirar as minas. E o que também é importante: como o equipamento pode chegar até o campo de batalha."

Enfraquecimento da Rússia como estratégia

Os observadores concordam que este segundo inverno de guerra na Ucrânia também será difícil para o povo do país. Mas também ainda há esperança. Os pilotos ucranianos progrediram no treinamento em caças F-16 ocidentais.

Após o treinamento no simulador de voo, os pilotos seriam treinados em um caça real. Entretanto, espera-se que a Força Aérea Ucraniana tenha seu primeiro esquadrão de F-16 só em meados do primeiro semestre do próximo ano. "Isso significará uma mudança séria", diz Ihnat, ressaltando que isso obrigará a Rússia a afastar seus aviões e helicópteros para uma área mais distante do front. "Nem seria necessário entrar em uma batalha acirrada", enfatiza o porta-voz da Força Aérea Ucraniana.

"As premissas da guerra russa contra a Ucrânia não mudaram ", escreveu Fischer. "Para negociações promissoras, a Ucrânia deve ser significativamente fortalecida militarmente e a Rússia deve ser significativamente enfraquecida."