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Lula tem vitória econômica e política com retirada de tarifa

21 de novembro de 2025

Reversão de parte das tarifas impostas por Trump sinaliza trégua nas relações entre Brasília e Washington. Analistas apontam que resultado enfraquece bolsonarismo e pode fortalecer real ante o dólar.

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Trump e Lula, durante encontro em outubro de 2025
Trump e Lula, durante encontro em outubroFoto: Andrew Harnik/Getty Images

133 dias. Esse foi o tempo entre a carta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, endereçou ao Brasil anunciado tarifas adicionais de 40% sobre todos os produtos brasileiros que entravam no país e a retirada das mesmas sobre centenas de produtos do agropecuários, como café, frutas tropicais e carne bovina, entre outras – medida anunciada na quinta-feira (20/11).

A reversão das tarifas impostas por Donald Trump sinaliza uma trégua nas relações entre Brasília e Washington e é vista por analistas como uma vitória política do governo Lula sobre a extrema-direita. A medida também tem potencial de fortalecer o real e reaquecer as exportações brasileiras, especialmente de café e carne bovina, após quatro meses de tensão comercial entre os dois países.

"Esta é uma vitória impressionante da diplomacia brasileira onde o próprio Trump cita as conversas com o presidente Lula como o evento que vira a percepção da Casa Branca. O peso da diplomacia, somado ao esforço presidencial e do vice-presidente Geraldo Alckmin, praticamente sepultam as perspectivas políticas na questão tarifária", avalia o economista André Perfeito.

Vitória política

Na quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos anunciou a retirada da tarifa de importação de 40% sobre mais de 200 produtos brasileiros, entre eles café, frutas tropicais, cacau, carne bovina e sucos.

A medida resulta de uma conversa entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 6 de outubro, quando ambos concordaram em abrir negociações sobre barreiras comerciais impostas em julho, após longa troca de farpas. Nessa época,

Trump anunciou uma sobretaxa de 40% a produtos vendidos pelo Brasil. Posteriormente, a taxa foi acrescida com as chamadas "tarifas recíprocas" de 10% aplicadas globalmente sobre importações. 

Ao anunciar o tarifaço em julho, o presidente dos Estados Unidos justificou a medida citando um falso déficit com o Brasil, e também deixou claro que pretendia fazer pressão política sobre o país sul-americano, mencionando o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado quando este último ocupava a Presidência – em meio ao lobby do deputado Eduardo Bolsonaro e de influenciadores de extrema-direita como Paulo Figueiredo sobre membros do governo norte-americano para fustigar a relação e o comércio entre os dois países.

Inicialmente, a Casa Branca acabou anunciando uma lista com quase 700 exceções, como suco de laranja e produtos de aviação, que beneficiou 43% do valor das exportações brasileiras. Mas produtos como carne e café continuaram sobretaxados em 40% até esta semana. Essas tarifas entraram em vigor no dia 30 do mesmo mês e, desde então, começaram as negociações para construir acordos comerciais.

No entanto, mesmo com a retirada de várias tarifas de diversos produtos, 22% do total de exportações brasileiras para os EUA ainda continuam sendo taxadas. O governo brasileiro diz esperar zerar essas tarifas remanescentes em novas negociações.

De acordo com o professor de Relações Internacionais da FGV, Pedro Brites, a decisão do governo brasileiro de não ceder de imediato às pressões de Bolsonaro e Trump, adotando uma postura firme nas negociações e buscando tanto o diálogo direto quanto o apoio de canais indiretos, como empresários e setores econômicos afetados, acabou demonstrando eficácia e garantiu resultados positivos ao país.

Cafés do Brasil
O mercado americano responde sozinho por 17,1% de todo o café embarcado do BrasilFoto: Igor Do Vale/ZUMA Press Wire/picture alliance

"Então me parece que foi, sim, uma vitória do governo Lula, uma vitória do Itamaraty e, simbolicamente, eu acho que representa de fato uma derrota para atores como o Eduardo Bolsonaro, como Paulo Figueiredo, mas especialmente ao discurso mais amplo da direita", diz Pedro Brites, que cita o apoio inicial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em relação às tarifas.

Além disso, o governo Trump também pode ter sofrido pressão interna para um realinhamento de perspectiva em relação ao Brasil.

"A equipe e outros membros do governo estão sendo pressionados também, na minha visão, pelas estruturas do Estado norte-americano, dizendo o seguinte: não vale a pena, do ponto de vista estratégico e econômico, ter uma disputa com o Brasil. Então esse realinhamento primeiro é com o Brasil e é com o sistema internacional, porque o presidente Trump percebeu que num sistema internacional entrópico, com tendência ao conflito, não vale a pena ter uma disputa", afirma José Niemeyer, professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ.

Há ainda o elemento geopolítico, em que os Estados Unidos buscam desassociar o governo brasileiro a um possível alinhamento com a China.

Os laços entre as burocracias estatais e as sociedades civis são mais fortes com os EUA, mas vem crescendo também com a China. Do ponto de vista diplomático, há uma narrativa comum com a China no que se refere a temas como a promoção da liderança do "Sul Global" e "multipolaridade" como pilares para uma ordem internacional mais justa. Ao impor as tarifas, Trump colocava dificuldades nas relações bilaterais e incentivava a ampliação das relações entre o Brasil e outros países, incluindo a China”, diz Lívia Peres Milani, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

Impacto econômico deve ser positivo

Para além do impacto político, a isenção das tarifas também deve fomentar novamente as exportações do produto brasileiro ao mercado dos Estados Unidos. Um exemplo é o café. Na safra 2024-2025, as exportações brasileiras da commodity atingiram um marco histórico na safra com uma receita cambial recorde de US$ 14,7 bilhões, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).

O desempenho reforça o peso do café na pauta de exportações brasileiras e, sobretudo, a relevância dos Estados Unidos como principal destino: o mercado americano respondeu sozinho por 17,1% de todo o café embarcado, o equivalente a 3,31 milhões de sacas, à frente da Alemanha e da Itália.

"[A isenção] é uma excelente notícia e reforça a perspectiva de um setor externo mais robusto. Por exemplo, o café tinha perdido 50% das exportações para aquele país. Só disso ser normalizado, podemos pensar em algum boom das exportações", afirma André Perfeito.

Segundo Perfeito, o fim das tarifas extras aos produtos brasileiros pode valorizar o real ante o dólar. "Muito provavelmente o Real pode se apreciar na esteira dessa notícia e romper o patamar dos R$ 5,30", afirma.

Para além dos impactos macro, a decisão de Washington reforça a relevância do Brasil no cenário comercial internacional e consolida os efeitos da política de diversificação de mercados adotada nos últimos anos.

"Embora ainda seja cedo para estimar o ganho real dessas medidas, já que não tínhamos uma dimensão clara das perdas efetivas, o Brasil vinha adotando uma estratégia ampla de diversificação de mercados e de atração de novos parceiros. No fim das contas, isso acaba sendo um efeito duplamente positivo, porque o país continua abrindo mercados, buscando novos parceiros e gerando incentivos para diferentes setores, ao mesmo tempo em que manteve a relação com os Estados Unidos, mesmo que em bases diferentes das que tínhamos antes, mas ainda assim importantes para o acesso àquele mercado", diz Pedro Brites.

O sucesso em excesso, porém, pode criar problemas e é necessário atenção ao aumento nos preços internos que um excesso de exportações, com a volta das vendas aos Estados Unidos, poderá trazer. "Já havíamos superado o gargalo imposto pelas tarifas de Trump. Agora teremos que exportar ainda mais e uma maior demanda pode criar efeitos indesejados nos preços, o quanto é impossível prever ainda", completa Perfeito.