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Tucanos em 2014
Apoiadores do PSDB em 2014, durante a última eleição em que o partido teve uma candidatura competitiva à PresidênciaFoto: picture-alliance/landov/Rahel Patrasso

PSDB volta a encolher e fica perto de virar partido nanico

4 de outubro de 2022

Sigla que governou Brasil duas vezes sofre novo derretimento nas urnas, perdendo até mesmo o governo de SP pela primeira vez em 28 anos e mostrando que a antiga centro-direita continua a ser engolida pelo bolsonarismo.

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Outrora um dos maiores partidos políticos do Brasil, o PSDB saiu do pleito de domingo (02/10) ainda menor, acentuando o processo de decadência da legenda que começou a ser explicitado em 2018.

Ao eleger apenas 13 deputados para a Câmara, o PSDB CAIU para zona do Congresso que concentra siglas de nicho, como o PSOL, ou sem tradição como o Podemos e que fica pouco acima da linha dos nanicos – as legendas com menos 11 deputados que não têm mais direito a receber recursos público e tempo de TV.

A situação só não é pior porque o partido formou uma federação com o Cidadania, o que vai garantir uma bancada de 18 deputados.

A votação total dos candidatos tucanos à Câmara Federal foi de apenas 3,2 milhões – contra 11 milhões em 2014.

O partido também não conseguiu eleger senadores no último domingo, e vai ver sua bancada na Casa cair de seis para quatro membros. Em contraste com seus tempos mais exitosos, o partido ainda fracassou em eleger governadores no primeiro turno.

Ainda tem quatro candidatos em disputas de segundo turno pelos governos do Rio Grande do Sul, Paraíba, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, mas todos passaram para a nova rodada em desvantagem, atrás de nomes do bolsonarismo ou da esquerda.

Derrotas históricas

A derrota mais significativa dos tucanos, porém, ocorreu no berço da legenda: o estado de São Paulo. Pela primeira vez em 28 anos o partido perdeu a disputa pelo Executivo paulista, não conseguindo nem chegar ao segundo turno do antigo "tucanistão”. Os resultados de domingo mostraram que o bolsonarismo continua a engolir a velha centro-direita do PSDB no estado.

Em vez de um tradicional duelo entre um petista e um tucano, a segunda rodada vai ser protagonizada por Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), um carioca que mudou seu domicílio eleitoral para São Paulo em janeiro e, com forte apoio do Planalto, conseguiu reunir 42,3% dos votos no primeiro turno. O candidato tucano, o atual governador Rodrigo Garcia, terminou em terceiro lugar, com 18,4%.

Rodrigo Garcia
O governador tucano Rodrigo Garcia, um novato no PSDB, não conseguiu chegar ao segundo turno da disputa pelo Executivo PaulistaFoto: Leandro Chemalle/TheNEWS2/ZUMA Press/picture alliance

No mesmo estado, os tucanos ainda sofreram outras derrotas simbólicas. Nome histórico da legenda e duas vezes candidato à Presidência, o ex-governador José Serra conseguiu apenas 88 mil votos na sua campanha para deputado federal, amargando a suplência. Os tucanos ainda viram sua bancada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) cair de 13 para 9 deputados.

Em Minas Gerais, estado que o PSDB governou três vezes, o candidato tucano ao governo local em 2022, Marcos Pestena, obteve apenas 0,56% dos votos – a pior marca dos tucanos em Minas desde a criação do partido e próxima de candidatos nanicos do PMB e PCB. Foi a primeira vez desde 1990 que um tucano não ficou entre os dois mais votados no estado. Assim como em São Paulo, os antigos votos do PSDB migraram para um político alinhado ao bolsonarismo, o atual governador Romeu Zema (Novo).

Candidato à Presidência pela sigla em 2014, Aécio Neves ainda conseguiu se reeleger por pouco deputado federal em Minas, mas perdeu 21 mil votos em relação ao pleito de 2018.

 Jose Serra
José Serra, ex-governador, ex-ministro e duas vezes candidato à Presidência. Tucano histórico não conseguiu se eleger deputadoFoto: Moreira Mariz/Agencia Senado

Declínio

No final de 1998, dez anos após a sua fundação, o PSDB vivia seu auge. Havia garantido a reeleição de um presidente da República em primeiro turno, vencido o governo de sete estados e eleito a segunda maior bancada da Câmara, com 99 deputados.

Nas quatro eleições seguintes, o partido ainda se mostrou capaz de colocar um candidato no segundo turno da disputa presidencial, além de se manter encastelado no governo de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, que havia sido conquistado pela primeira pelo PSDB em 1994, quando os tucanos substituíram o malufismo e o quercismo como as maiores forças do estado.

A fase turbulenta do PSDB teve início após a eleição de 2014, quando o partido ficou apenas 3,28 pontos atrás de Dilma Rousseff (PT) na disputa presidencial.

À época, o então líder da sigla, Aécio Neves apostou em uma estratégia de colocar o resultado do pleito em dúvida, pedindo uma auditoria das urnas e estimulando uma clima de contestação da legitimidade do governo. No entanto, o partido não conseguiu colher os frutos da radicalização do eleitorado, que passou a exigir o impeachment de Dilma nas ruas.

Aecio Neves
Aécio Neves ficou perto de conquistar a Presidência do país em 2014, mas pouco depois teve papel decisivo no início da derrocada do PSDBFoto: picture-alliance/AP Photo/E. Peres

A liderança de Aécio frente ao partido se revelaria decisiva para acelerar a derrocada do partido. Em 2016, ele articulou a entrada do PSDB no impopular governo Michel Temer, que logo ficaria paralisado por uma série de escândalos de corrupção. No ano seguinte, foi a vez de o capital político de Aécio desmoronar após o empresário Joesley Batista revelar uma gravação em que Aécio aparecia pedindo R$ 2 milhões.

Aécio tentou se manter no Senado e na presidência do partido, mas no final de 2017 acabou substituído por Geraldo Alckmin. Além de ter que lidar com o desafio de liderar um partido com imagem desgastada, Alckmin tinha seus próprios problemas.

Em 2016, ele havia promovido dentro do partido um apadrinhado que não fazia parte dos quadros históricos do PSDB: o publicitário João Doria. Inicialmente, a estratégia funcionou: o novato Doria conquistou a prefeitura de São Paulo no primeiro turno.

À época, as profundas divisões que se avolumavam dentro do PSDB foram escancaradas quando militantes de alas rivais do partido trocaram socos na rua durante as prévias para a escolha do candidato do partido à prefeitura da maior cidade do país.

Na cúpula, as brigas também se espalharam. Logo a criatura passou a rivalizar com o criador. Alckmin e Doria romperam em 2018, acelerando o processo de desagregação do tucanato paulista. Enquanto isso, o mineiro Aécio continuava a operar nos bastidores para recuperar sua antiga influência.

Em 2018, Alckmin lançou uma nova candidatura à Presidência, mas o desgaste provocado pela associação do partido com o governo e os escândalos de Aécio cobraram seu preço. O candidato obteve humilhantes 4,76% dos votos – o pior resultado do PSDB numa eleição presidencial. Após anos de tensão política, o eleitorado que costumava apoiar o PSDB em contraposição ao PT escolheu migrar para a candidatura de extrema direita de Jair Bolsonaro. Na Câmara, o PSDB encolheu de 54 para 29 deputados.

Durante a campanha de 2018, o partido ainda acumulou mais fatos negativos. O ex-governador do Paraná Beto Richa, filho de um dos fundadores mais destacados da sigla, foi preso por suspeita de corrupção.

Diante do quadro, Tasso Jereissati, ex-presidente nacional da sigla, chegou a fazer uma auto-crítica. "O grande erro, e boa parte do PSDB se opôs a isso, foi entrar no governo Temer. Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio. Fomos engolidos pela tentação do poder", disse à época.

Com a derrocada de Alckmin, parecia que Doria seria alçado à figura mais influente do partido graças à sua bem-sucedida candidatura ao governo paulista no mesmo ano. Mas sua liderança nunca foi aceita por nomes mais antigos da sigla.

Ainda assim, Doria passou a articular uma candidatura à Presidência. Mas, no final de 2021, as novas prévias do partido, longe de caminharem para um consagração da sua pré-candidatura, acabaram se transformando numa nova luta interna. Doria acabou vencendo as prévias, mas foi forçado pela cúpula do partido e por maquinações estimuladas por Aécio Neves a desistir da candidatura. Os caciques tucanos preferiram concentrar os esforços na disputa pelo Executivo paulista.

À época, Aécio afirmava que, diante da alta rejeição nacional de Doria, o PSDB corria o risco de virar uma sigla “nanica” se insistisse na candidatura do político paulista.

Joao Doria
João Doria tentou se lançar candidato à Presidência pelo PSDB em 2018. Foi abandonado pela cúpula do partidoFoto: picture-alliance/Zuma/P. Lopes

Queda

Com Doria fora, o governo paulista ficou nas mãos de Rodrigo Garcia, que assim como seu antecessor, era um neófito no PSDB, tendo migrado do antigo DEM no ano anterior.

Sem disputar a eleição paulista com um tucano tradicional e sem lançar um candidato próprio à Presidência pela primeira vez desde 1989, o partido ainda se associou de maneira pouco entusiasmada à candidatura ao Planalto de Simone Tebet (MDB), indicando sua vice. No final, Tebet obteve somente 4,16% dos votos. Já Garcia acabou sendo atropelado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas.

"O PSDB se esfacelou nessa eleição, e não foi por falta de aviso”, disse o deputado tucano Alexandre Frota após a derrota do partido em São Paulo. O próprio Frota não conseguiu se reeleger.

No momento, o partido sofre novo racha. Parte da velha guarda tucana, formada por nomes como Tasso Jereissati e Aloysio Nunes, já anunciou que pretende apoiar Lula. Mas deputados federais da sigla, mais jovens, já vem se associando ao bolsonarismo.

O atual presidente do partido, Bruno Araújo convocou uma reunião para decidir qual deve ser a posição no segundo turno. A tendência deve ser liberar os filiados a apoiarem quem quiser. É um contraste e tanto com a posição que o partido teve em 1989, quando o PSDB era chefiado por Franco Montoro (1916-1999) e apoiou Lula no segundo turno contra o populista Fernando Collor.