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HistóriaAlemanha

Polêmico livro sobre Anne Frank será publicado em alemão

18 de fevereiro de 2022

"A traição de Anne Frank" terá uma versão revisada e editada em língua alemã. A obra tem despertado controvérsias, por atribuir a um notário judeu a delação da família aos nazistas. Na Holanda, a 2ª edição está suspensa.

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A foto em preto e branco mostra o rosto sorridente da adolescente Anne Frank. Ela veste uma blusa clara e tem cabelos escuros.
Anne Frank passou dois anos escondida dos nazistas, mas foi encontrada pela Gestapo em Amsterdã em agosto de 1944Foto: IFTN/United Archives/picture alliance

Muito criticado e alvo de intensos debates entre especialistas, A traição de Anne Frank, que aponta quem traiu a adolescente e seus familiares aos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, deverá ser publicado no idioma alemão. No entanto, devido às várias críticas que o livro recebeu, a edição em língua alemã será "corrigida, complementada e anotada", segundo divulgou a editora HarperCollins na Alemanha, responsável pela impressão.

Segundo o diretor da empresa, Jürgen Welte, a decisão de publicar o livro em alemão é justificada porque a editora busca permitir que "todos os leitores interessados [...] formem sua própria opinião independente em relação ao livro e à discussão na mídia associada a ele".

Após as controvérsias que cercaram a obra desde de seu lançamento, em 18 de janeiro, a HarperCollins decidiu adiar a publicação da versão em língua alemã – em holandês, a impressão foi suspensa no fim de janeiro.

A editora ainda não anunciou uma nova data para a publicação, originalmente programada para março. Welte declarou que não comentará as polêmicas em curso questões "até a data de publicação do livro, que ainda não foi definida".

Yves Kugelmann, editor da revista Tachles, dirigida à comunidade judaica, permanece cético em relação à nova versão: "A HarperCollins da Alemanha está inventando um novo gênero de livro: a edição anotada de um livro com centenas de erros. Num mundo decente, tal livro não seria publicado, porque o conteúdo está errado e espalha boatos entre os leitores. Assim, o editor se torna cúmplice dos revisionistas que reinterpretam a história, colocam as teses acima dos fatos e da ciência", afirmou, num e-mail enviado à DW.

A imagem mostra o caderno onde Anne Frank fazia anotações que depois se transformaram em seu famoso diário, no livro O Diário de Anne Frank, no qual relata principalmente o período em que permaneceu escondida dos nazistas. As páginas têm manuscritos em ambas as páginas, que estão abertas sobre uma mesa, e também fotografias de infância de Anne Frank.
Em seu famoso diário, Anne Frank relata principalmente sobre o período em que viveu escondidaFoto: Insa Kohler/dpa/picture alliance

O conteúdo de A traição de Anne Frank

A traição de Anne Frank é resultado de uma investigação que envolveu uma equipe formada por especialistas holandeses e americanos. Sob direção do agente aposentado do FBI Vince Pankoke, 20 a 30 historiadores, criminologistas e especialistas em dados identificaram o notário judeu Arnold van den Bergh como o principal suspeito, "com 85% de probabilidade", de ter revelado o esconderijo da família de Anne Frank em Amsterdã.

Durante seis anos, os pesquisadores tentaram chegar a alguma conclusão sobre como os nazistas conseguiram encontrar os Frank após eles terem permanecido escondidos por pelo menos dois anos no anexo de um armazém.

O livro relata detalhes da investigação, que não teria visado acusar alguém, especificamente, mas sim resolver o mistério de quem entregou a família à Gestapo, a polícia secreta da Alemanha nazista.

A imagem mostra a casa onde Anne Frank escondeu-se dos nazistas por dois anos durante a Segunda Guerra Mundial. Em preto e branco, a foto exibe uma espécie de sótão, onde pode-se observar um chão de madeira com vigas e janelas tabém de madeira, com uma pequena escada em frente a um delas.
Casa onde os Frank se esconderam dos ocupadores ficava junto a um armazém, próximo a um canal em AmsterdãFoto: dpa/picture-alliance

Van den Bergh era membro do Conselho Judaico (órgão administrativo que os nazistas forçaram os judeus a estabelecer para organizar deportações para campos de concentração). Como tinha muitos contatos, esteve inicialmente protegido da deportação. No entanto, em 1944 sua proteção foi retirada. Assim, ele teria divulgado os esconderijos de várias famílias judaicas a fim de salvar a própria.

A principal prova é uma cópia de uma carta anônima que Otto Frank, pai de Anne, recebeu em 1946. Nela, era mencionado o nome do notário. Segundo a equipe de investigação, essa pista era conhecida, mas ainda não havia sido analisada de forma mais aprofundada.

Debate em curso

Ao fim da investigação, a autora canadense Rosemary Sullivan foi encarregada de redigir a história. Os questionamentos à obra foram tamanhos, que a editora Ambo Anthos suspendeu a impressão do livro na Holanda. Historiadores apontaram numerosos erros factuais, e associações judaicas também criticaram severamente a publicação do livro.

Num e-mail de 31 de janeiro aos responsáveis pela pesquisa e pela produção do livro, a empresa sugere que a investigação que resultou na obra poderia conter falhas, e que eles deveriam ter maior "senso crítico".

"Aguardamos respostas dos pesquisadores para as questões que surgiram e estão atrasando a decisão de imprimir outra edição. Oferecemos nossas sinceras desculpas a qualquer um que possa ter se sentido ofendido pelo livro", escreveu a empresa, que só pretende publicar uma segunda edição quando o time de investigadores responder às questões levantadas.

A imagem mostra uma estante com arquivos que demonstra a passagem para a casa dos fundos do anexo ao armazém onde Anne Frank se escondeu em Amsterdã. A foto tem uma porta - o trinco e a fechadura - desfocada, com um mapa no fundo, na parte superior, uma janela de vidro à direita, circunada por um papel de parede de cor laranja.
Passagem para o anexo onde a família se refugiou, na atual Casa de Anne FrankFoto: Peter Dejong/AP/dpa/picture alliance

Descoberta, deportação e obra

Anne Frank e outros sete refugiados judeus foram descobertos pelos nazistas em 4 de agosto de 1944. Logo após ser detida, Anne foi deportada, com o restante da família, para Auschwitz, na Polônia, e acabou por morrer no ano seguinte, no campo de Bergen-Belsen, no estado alemão da Baixa Saxônia.

Apenas o pai, Otto Frank, sobreviveu à perseguição nazista. Sua secretária, Miep Gies, foi quem guardou o diário da adolescente e o repassou ao empresário alemão após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Até morrer, em 1980, Frank se dedicou ao legado da filha e publicou a primeira edição do Diário de Anne Frank em holandês sob o título Het Achterhuis ("A casa dos fundos"), em 1946.

A primeira tradução para o alemão foi publicada em 1950. Dez anos mais tarde, o livro já havia alcançado circulação mundial de mais de 3,5 milhões de cópias.

O Diário de Anne Frank, que retrata principalmente o período em que a adolescente permaneceu escondida dos nazistas, foi traduzido para 60 idiomas, sendo, até hoje, um dos livros mais lidos do mundo.

gb/av (DW,ots)