″Os coturnos se tornaram desnecessários″ | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 18.03.2006

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Alemanha

"Os coturnos se tornaram desnecessários"

Em entrevista à DW-WORLD, o ex-neonazista Matthias Adrian comenta a adoção de visual "light" pelos extremistas de direita e denuncia que a mídia vem esquecendo o problema ainda presente entre os jovens do país.

Extremistas de direita: mudança de visual e disseminação discreta

Extremistas de direita: mudança de visual e disseminação discreta

Segundo os dados do Departamento Nacional de Proteção à Constituição na Alemanha, grupos neonazistas continuam atraindo um bom número de jovens no país. Entre 1997 e 2000, Matthias Adrian pertenceu à organização jovem da facção de extrema direita NPD, tendo organizado, no Estado de Hessen, eventos públicos e manifestações neonazistas.

Ao abandonar a organização em 2000, distanciou-se da ideologia de extrema direita. Atualmente, participa da Associação Exit em Berlim, que auxilia jovens a deixar o extremismo de direita.

Matthias Adrian vom Neonazi-Aussteigerprojekt EXIT

Adrian: de neonazista a opositor ativo da extrema direita

Em entrevista à DW-WORLD, Matthias Adrian fala sobre o novo visual e as novas formas de comportamento adotadas pelos extremistas de direita na Alemanha, aponta que estes vêm abandonando a subcultura skinhead caracterizada por carecas e coturnos militares, em prol de um estilo enganoso "do skinhead bonzinho que ajuda idosos a atravessar a rua".

DW-WORLD: Como você vê a mudança de comportamento dos jovens de extrema direita? Aparentemente, para ganhar novos adeptos, eles parecem se distanciar, aos poucos, da velha imagem de carecas e coturnos.

Adrian: Esta mudança de imagem do movimento de direita é perceptível: um abandono da subcultura skinhead e a aproximação de padrões "normais". Nos anos 90, quando skinhead virou sinônimo de extrema direita, militantes de direita consideraram as "zonas nacionais liberadas" do Leste alemão como "novas áreas conquistadas". Estas tinham que ser controladas com uso da violência, enquanto outras subculturas jovens eram subjugadas e oprimidas. Para isso, era necessário haver aqueles jovens fortes com jaquetas de aviador de guerra.

Mas hoje, em muitas regiões do Leste alemão, como por exemplo em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, há locais onde estes "inimigos" não existem mais. Assim, as jaquetas de aviador se tornaram desnecessárias. Hoje, esses extremistas vão em busca de uma nova imagem, do tipo "nazista bonzinho que mora ao lado", que é extremista de direita, mas até ajuda idosos a atravessar a rua.

E desta forma vão sendo aliciados novos adeptos?

Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no Leste alemão, ter uma posição política extrema ou, pelo menos, achar normal a opinião de extrema direita já é comum. Neste sentido, uma mudança já aconteceu. O extremismo de direita nem é mais proscrito. Atualmente, considera-se, em parte, que seja uma postura política tão normal quanto qualquer outra.

O extremismo de direita ainda se concentra principalmente nos Estados da ex-Alemanha Oriental?

Infelizmente temos que encarar o fato de que estas estruturas podem ser também claramente encontradas na parte ocidental do país, porém não com a mesma intensidade que no Leste. Mesmo em Hessen, de onde venho, e em todo o Vale do Rio Reno, estes agrupamentos neonazistas estão se instalando.

Na maioria dos vilarejos de cinco a sete mil habitantes, há dois ou três jovens extremistas. Parece pouco. No entanto, quando eles vão a uma Festa do Vinho na região, cerca de 80 jovens, dos diversos vilarejos vizinhos, se encontram.

E, de repente, em plena festa, forma-se um grupo considerável de jovens ligados ao movimento de extrema direita, dispostos a cometer atos violentos. Isso pode intimidar outros jovens que não se vestem como os radicais de direita ou aqueles que têm origem estrangeira. Fica difícil se livrar do assédio.

Então a reunião de muitos jovens extremistas de direita poderia se tornar um problema.

Os grupos de "camaradas" estão por aí se espalhando cada vez mais. Mesmo no Vale do Rio Reno nos últimos anos surgiu uma situação esquisita. A rede de "camaradagens" no Oeste do país, mesmo quando estas não são explicitamente neonazistas, assemelha-se à do Leste. E se estas formações se alastrarem ainda mais, logo teremos uma situação de crise. Acho terrível que um problema destes não seja levado a sério pela opinião pública. Às vezes me sinto como um "guerreiro no deserto".

Saiba mais sobre a mudança de estratégia do movimento na página seguinte.

É possível que a inibição dos jovens "normais" que vão aos concertos da extrema direita esteja diminuindo?

Claro. Quando eu, um rapaz do tipo "normal", tenho medo de ir a um show assim, toda a imagem do movimento extremista fica prejudicada. É exatamente por este motivo que estes shows ainda acontecem. Somente através dessa subcultura e desse tipo de música é que as organizações de extrema direita atingem o público jovem. Quando os jovens não tiverem mais medo de ir a esses concertos, certamente será mais fácil atingir o alvo assim do que com violência.

Essa mudança de imagem dos extremistas de direita pode ser explicada a partir das mudanças na cena musical destes agrupamentos?

Rechtsrock

Conquistando novos adeptos através da música

Sim. Um bom exemplo é a história do tal CD Pátio da Escola. A idéia surgiu quando as camaradagens" (que são bandas, ou seja, estruturas na verdade desorganizadas, mas que vivem nas saias do NPD) lançaram o CD. As canções eram deliberadamente radicais e incitavam a violência ilimitada, tendo causado, por conseguinte, a proibição e a apreensão dos CDs.

Posteriormente, o NPD lançou um outro CD que, do ponto de vista jurídico, só continha canções inofensivas. Somente uma foi taxada, a muito custo, de potencialmente perigosa para a juventude. Logo em seguida veio o segundo CD do NPD, o qual era, do ponto de vista jurídico, impecável. Somente as canções liberadas até agora foram lançadas.

Apesar disso, alguns professores tomaram os CDs dos alunos. Um professor chegou a ser condenado por roubo após confiscar o CD de um aluno, que era integrante da organização jovem do NPD e que tinha à disposição todo o aparato do partido. Vale lembrar que muitos juristas também são filiados ao partido. Então, o processo não custou nem um centavo ao aluno.

Atualmente, os partidos de extrema direita se posicionam frente à sociedade de modo totalmente diverso do que o corrente há alguns anos atrás, não?

O movimento de direita, hoje, tenta funcionar por vias legais. Em Berlim, acabou de ser conduzido um processo-modelo, que deveria definir os direitos do NPD de organizar protestos públicos.

O juiz chegou a rejeitar o pedido, com base na situação de crise da polícia, mas mesmo assim o NPD entrou com um recurso, alegando que o partido não pode ter negado o seu direito de se reunir e de se manifestar publicamente. Como se pode argumentar contra isso?

O NPD tem tentado se manter dentro das "regras do jogo". Só podemos tentar impedir que estes limites se ampliem, como, por exemplo, no caso dos símbolos e das manifestações em memória de Rudolf Hess.

Neste caso, ainda há muito o que fazer. E isso contribuirá para que os extremistas de direita se atenham cada vez mais às regras do jogo. Daqui a alguns anos, os seus "projetos" aparecerão cada vez mais "limpos" sob o ponto de vista jurídico. Por meios legais será difícil ir contra.

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