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Trump arrisca uma guerra no Oriente Médio

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Rainer Sollich
3 de janeiro de 2020

Com a morte do general iraniano Qassim Soleimani, o presidente americano instiga um surto incontrolável de violência e enfraquece as forças democráticas no Irã e na região, opina Rainer Sollich.

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Bandeiras dos EUA e de Israel são queimadas em protesto no Paquistão após a morte do general iraniano Qassim Soleimani
Bandeiras dos EUA e Israel são queimadas em protesto no Paquistão após a morte do general iraniano Qassim SoleimaniFoto: picture-alliance/dpa/K. M. Chaudary

Após a morte do general iraniano Qassim Soleimani em Bagdá, durante um ataque-surpresa dos Estados Unidos, todos os sinais apontam para uma escalada da violência. A situação é altamente perigosa. Juras de vingança já foram proferidas pelo regime em Teerã e seus aliados, e temem-se ações violentas. A situação pode sair de controle rapidamente.

Aliados dos EUA, como Israel e Arábia Saudita, mas também o Líbano e sobretudo o próprio Iraque, poderiam eventualmente sofrer graves consequências. Desde atentados sangrentos contra pessoas, lugares ou instituições, passando por ataques a petroleiros ou oleodutos, até o disparo de mísseis contra aliados dos EUA – nada pode ser seriamente descartado no momento, pois Teerã só pode ver a morte de Soleimani como humilhação e uma declaração de guerra de fato. Por razões de política interna, Teerã dificilmente pode se permitir deixar a morte sem resposta.

O Irã pode, mas não necessariamente tem que agir militarmente. O país dispõe – especialmente devido às atividades militares e de inteligência bastante eficazes de Soleimani nos últimos anos – de uma rede de tropas auxiliares altamente equipadas e em ótimo funcionamento na região: das milícias pró-Irã no Iraque e na Síria, até o Hisbolá libanês e os rebeldes houthis do Iêmen, que há tempos confrontam diretamente a rival do Irã Arábia Saudita, além de serem inimigos declarados de Israel e dos EUA.

Com Soleimani, foi eliminado o líder operacional da política iraniana de poder e expansão na região. E – falando com neutralidade – é mais do que surpreendente o regime em Teerã não ter sido capaz de proteger de tal ataque seu mais importante general no exterior. Mas também no Oriente Médio ninguém é insubstituível, nem mesmo Qassim Soleimani como chefe da famosa Força Quds: a rede de milícias leais ao Irã criada por ele deve permanecer poderosa e perigosa, e já foi nomeado um sucessor para o general morto.

Soleimani certamente tem mérito militar na luta conta o grupo jihadista "Estado Islâmico" (EI) no Iraque e na Síria. Mas ele foi fantoche de um regime que apoia o terror e a mais brutal tirania. Não há razão para ter qualquer simpatia por um homem do tipo. No entanto sua morte foi um erro político.

Com ela, Donald Trump, como presidente dos EUA e comandante-chefe das Forças Armadas americanas, não só deixa em perigo de guerra todo o Oriente Médio – região da qual ele, a rigor, quer retirar seu país militarmente. Ele também arrisca um efeito de solidariedade antiamericana na região.

E esse sentimento pode aniquilar politicamente movimentos de protesto democráticos no Iraque, no Líbano e no Irã, pois todos esses protestos também tiveram, direta ou indiretamente, o regime em Teerã como alvo. Se isso se concretizar, justamente Trump teria servido aos interesses de Teerã de forma direta.

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