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Opinião: O mundo mudou, Lula também precisa evoluir

1 de julho de 2023

Petista assumiu seu 3º mandato como nova esperança para o Brasil e o mundo. Por vezes ele cumpre as altas expectativas. Porém, ideias obsoletas e má assessoria são obstáculos frequentes, opina Philipp Lichterbeck.

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Presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva
Fazer sala para Nicolás Maduro (esq.) é um dos erros graves de LulaFoto: Evaristo Sa/AFP/Getty Images

A política mundial se transformou desde o fim do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2011. Hoje, mais do que nunca, ela transita no campo de forças bipolar entre os Estados Unidos e a China.

Através do Inflation Reduction Act (IRA), os americanos mostraram com toda força que querem permanecer o número um da economia. Essa lei "anti-inflacionária" prevê na verdade investimentos gigantescos para modernizar a economia dos EUA, atrair empresas estrangeiras e impulsionar a transformação energética.

Ao mesmo tempo, a China cresce irrefreavelmente, no campo econômico e no militar; está cada vez mais moderna e também mais verde; seus produtos, cada vez melhores. Entre China e EUA, dificilmente há lugar para terceiros.

Quem quase não mudou desde 2011 foi Lula. Ele sonha com um papel mais influente e importante para o Brasil no palco global. Contudo, as possibilidades para tal são mais limitadas. Não é necessariamente a culpa de Lula: ele viaja muito, procura apresentar o país novamente como parceiro confiável, e estabelecê-lo como voz do "Sul Global".

Ocasionalmente ele tem sucesso, como na Cúpula para um Novo Pacto Financeiro Global de Paris, poucos dias atrás, ao chamar a atenção para a desigualdade no mundo. Ou ao criticar os europeus por quererem impor ao Brasil regras mais rigorosas do que estipulado no acordo de livre-comércio original entre a União Europeia e o Mercosul.

Faltam parcerias duradouras na América do Sul

O problema é que Lula não tem parceiros confiáveis, nem mesmo na América do Sul. Ele também segue á fatídica tradição de que no subcontinente não há alianças duradouras entre Estados, mas sim, no máximo, entre governos.

A cooperação entre Alemanha e França funciona, independente de quem ocupe o governo; a entre o Brasil e seus vizinhos, não. Com o presidente argentino Alberto Fernández, de esquerda, Lula se entende às mil maravilhas, mas assim que um conservador assumir o poder em Buenos Aires, acabaram-se os encontros entre camaradas. Assim não há como se fazer política externa de longo prazo.

Portanto se quer ser levado a sério como líder do "Sul Global", Lula precisa começar a forjar alianças na América do Sul, não obstante suas próprias simpatias. A cúpula do Unasul, em maio, foi um passo nessa direção. Lula pode sonhar em exercer seu poder de influência também na África ou na Ásia. No entanto, constata-se que de vez em quando ele superestima seu carisma atual.

O Brasil é levado a sério internacionalmente porque é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, e porque tem petróleo e minério de ferro. Mas seria um grande erro querer permanecer no papel de exportador de matérias-primas. Se quiser ganhar peso internacional, o país deverá criar novas cadeias de valor no Brasil que sejam o mais ecológicas possível. No entanto, o governo Lula está distante da elaboração de uma política industrial sustentável.

Antes da catástrofe do bolsonarismo, o Brasil conquistou uma reputação como um ótimo mediador internacional, neutro e imparcial. Parece que Lula queria se manter fiel a essa imagem quando se recusou a tomar partido pela vítima na questão da guerra na Ucrânia. Mas foi, acima de tudo, ingênuo.

Lula aparentemente acredita, de fato, que, diante de um agressor fascista, mentiroso e imperialista como Vladimir Putin, com uma batidinha no ombro e uma cervejinha ou vodca, fosse possível acordar uma paz aceitável para a Ucrânia e a Europa.

Há duas décadas Putin vem travando guerras em três continentes, ou manda seus mercenários travarem. Enquanto países antes neutros como a Finlândia e a Suécia solicitaram adesão à Otan logo depois da invasão da Ucrânia, Lula segue subestimando o agressor.

O mesmo Lula num mundo novo?

O fato de, na questão da Rússia, não se guiar por assessores mais jovens, mas sim pelo octogenário Celso Amorim – o qual, como todo velho esquerdista, parece partir do princípio de que os EUA são os únicos responsáveis por todo o mal no mundo – custou a Lula capital considerável nas democracias ocidentais.

O presidente brasileiro, é claro, age em concordância com os demais países do Brics – o qual inclui também a agressora Rússia. Mesmo assim, é preciso se perguntar o que realmente une o Brics. A ditadura capitalista estatal da China tem interesses totalmente diversos daqueles da cada vez mais caótica África do Sul, ou da nação mais populosa do mundo, a Índia.

A ideia do Brics de estabelecer uma moeda alternativa ao dólar é, em si, boa, mas deverá levar anos até ser implementada, e aí será sob medida para os interesses chineses. E o Brasil já corre perigo permanente de dependência demasiada em relação a Pequim.

O segundo grande erro de petista foi fazer a corte ao ditador venezuelano Nicolás Maduro. A esquerda brasileira não pode, a sério, execrar Jair Bolsonaro e condenar as ideias golpistas de seus adeptos, e ao mesmo tempo fazer sala a um antidemocrata e militarista muito pior, e líder de um regime de repressão. Torna Lula extremamente inconvincente.

Relações equilibradas com a Venezuela: sim. Cortejar o regime Maduro e disseminar fake news de supostas "narrativas": não. Também aqui cabe se perguntar quem está assessorando Lula.

O presidente brasileiro quer aumentar o peso do Brasil no mundo. No próximo ano, quando o Brasil ocupa a presidência do G20, ele terá a chance de provar que não só o mundo, mas também ele evoluiu.

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Philipp Lichterbeck é correspondente e colunista da DW Brasil. O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.