Opinião: Última chance para os fabricantes automotivos da Alemanha | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 26.06.2019
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Opinião

Opinião: Última chance para os fabricantes automotivos da Alemanha

Se a anunciada "revolução eletromóvel" está longe de se tornar realidade no país, é muito por culpa das montadoras. Para começar, precisam parar de fazer exigências despropositadas a Berlim, opina Henrik Böhme.

Eletrocarro ID.3 da Volkswagen

Eletrocarro ID.3 da Volkswagen

As palavras de Angela Merkel no início de junho, no assim chamado Dia da Indústria Alemã, foram inusualmente diretas. Reagindo à severa crítica do supremo lobista do setor, Dieter Kempf, presidente da Confederação da Indústria Alemã (BDI) – "A política do governo prejudica as empresas!" –, a chefe de governo rebateu, tranquila, que também poderia falar sobre "quanto tempo passei me ocupando com a perda de confiança da indústria automobilística alemã e com as violações de normas".

Esse não foi o primeiro contra-ataque da chanceler federal ao setor automobilístico, mas demonstra mais uma vez a mudança de atitude dela. Pois quando, antes, se tratava de a União Europeia estabelecer novos valores-limite para as emissões de gases, Merkel foi a primeira a cuidar para que as montadoras não fossem tão prejudicadas.

De lá para cá, os chefões do setor automotivo têm sido chamados a prestar contas na Chancelaria Federal em Berlim. Costuma-se chamar isso de "cúpula automobilística", como nesta segunda-feira (24/06). Na realidade, porém, o governo quer saber quando vai finalmente começar a "revolução eletromóvel".

A política estabelecera como meta que, a partir de 2020, 1 milhão de veículos elétricos estivessem circulando pelas ruas da Alemanha, abastecidos por 100 mil postos de recarga públicos. Não poderia estar mais óbvio que essa meta não será alcançada: há meros 83 mil carros elétricos (de um total de 47 milhões de automóveis), e 17.400 pontos de abastecimento.

Contudo, enquanto os veículos movidos a eletricidade forem tão mais caros do que os convencionais, e a falta de suficientes postos de recarga mantiver a insegurança de se conseguir chegar aos destinos mais distantes, esse mercado não existirá. Aí o Estado pode interferir com incentivos (o que já faz, com os subsídios à compra).

Porém um mistério que permanecerá entre os senhores de Wolfsburg (Volkswagen) e Stuttgart (Daimler, Porsche) é de onde a indústria automotiva tira a cara de pau de impor novas exigências à política, no estilo: "Nós aumentamos a oferta de carros elétricos e você, caro Estado, financia os pontos de recarga." Como era mesmo antes? O Estado também construiu os postos de gasolina ou foram os conglomerados petrolíferos?

Agora, claro, há novos protagonistas em cena: povoar o país com postos de recarga alimentados pelas turbinas eólicas e unidades fotovoltaicas em torno (só assim os eletrocarros têm sentido) promete ser um modelo comercial gigantesco. Só que não para a Aral, Shell e companhia, e sim para as operadoras de energia alemãs, Eon, RWE e outras.

Estas buscam frenéticas novas fontes de lucro, à medida que perdem as velhas usinas nucleares. Talvez seja possível até mesmo criar novas alianças entre os ex-conglomerados de petróleo e de energia nuclear.

Então, façam o favor, caras Daimlers, Volkswagens e outras montadoras: considerem novamente essa reivindicação descarada. Afinal, vocês mostraram boa vontade, propondo uma rede europeia de abastecimento elétrico, a chamada Ionity. Mas 400 estações em 18 países – isso só pode ser um começo.

Claro que tudo isso custa montanhas de dinheiro. Também o desenvolvimento dos muitos novos carros elétricos, que vão finalmente ser lançados, engoliu bilhões. E as multas bilionárias do "Dieselgate" também precisam ser pagas. Mas, por favor, não pode ser o consumidor a pagar o pato. Pois ele não cometeu as fraudes, e sim foi enganado por Volkswagen e companhia.

Não se pode deixar de enfatizar: os fabricantes alemães dormiram no ponto no desenvolvimento da eletromobilidade justamente pelo fato de os valores-limite terem sido manipulados.

A política proporciona agora às montadoras a oportunidade única de reparar esses erros. Os fabricantes alemães ainda têm a chance de, no fim das contas – graças a seu know-how, competência, espírito de engenharia –, se posicionar na vanguarda da eletromobilidade (algo de que a Tesla jamais será capaz).

A julgar pelas promessas, os fabricantes automobilísticos entenderam a mensagem, pelo menos um pouquinho. Pois em 2019, pela primeira vez, serão registrados na Alemanha mais de 1 milhão de veículos numa categoria especial – o defeito é que são SUVs.

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