Olimpíadas fora do armário | Rio 2016 | DW | 11.08.2016
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Rio 2016

Olimpíadas fora do armário

Em contraste com a dura realidade homofóbica do país, Rio realiza Jogos mais gays da história, com 46 atletas assumidamente homossexuais e cenas comoventes, como pedido de casamento de uma jogadora de rúgbi.

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O pedido de casamento da atleta do time de rúgbi feminino Isadora Cerullo (esq.), por sua namorada Marjorie Enya

Dois anos após os Jogos de Inverno de Sochi, na Rússia, marcados por boicotes e manifestações contra as leis homofóbicas do país, as Olimpíadas do Rio se transformaram numa grande celebração da diversidade sexual. Além de contar com o maior número de atletas assumidamente gays da história (43), os jogos já produziram imagens inéditas, como o pedido de casamento de uma atleta do time de rúgbi feminino do Brasil, Isadora Cerullo, por sua namorada, Marjorie Enya, que trabalha como voluntária no evento; e o beijo que selou o “sim”.

Outra declaração de amor em cadeia nacional foi feita na edição de quarta-feira do programa Globo Esporte, da TV Globo. A judoca Rafaela Silva, de 24 anos, que conquistou a primeira (e até agora única) medalha de ouro para o Brasil, contou que deve muito de sua conquista à companheira Thamara Cezar, que cuida de tudo o que a atleta precisa para que ela só se preocupe em treinar, lutar e vencer. “Tudo o que eu precisava, ela estava ali, à disposição, para fazer; então ela também é muito importante nessa conquista”, reconheceu Rafaela.

E teve ainda mais uma: a do roteirista e produtor de cinema americano Dustin Lance Black ao atleta de saltos ornamentais Tom Daley, que conquistou uma medalha de bronze na segunda-feira. Depois de torcer e comemorar o prêmio na beira da piscina, Black foi para as redes sociais e se declarou ao companheiro. “Muito feliz por você, orgulhoso...”, escreveu. Os dois anunciaram o casamento em fevereiro passado.

Também pela primeira vez na história das Olimpíadas há duas atletas competindo que são casadas: as britânicas Kate Richardson-Walsh e Helen Richardson Walsh. Isso tudo sem falar na cerimônia de abertura dos Jogos, onde cinco dos ciclistas que puxavam as delegações dos países eram transexuais, entre eles, a modelo brasileira Lea T, que abriu caminho para a entrada dos atletas do Brasil no Maracanã. E não só. Muitos dos voluntários que trabalham nos Jogos são também transexuais e travestis e garantiram o direito junto ao Comitê Olímpico de usar seu nome social nos crachás.

Outro movimento que vem chamando a atenção é protagonizado por drag queens em campanhas de distribuição de camisinhas e panfletos informativos sobre a aids, nas principais áreas turísticas da cidade. Uma delas, coordenada pelo Unaids, chama-se #euAbraço e, além de preservativos, distribui abraços.

O atleta de saltos ornamentais Tom Daley, assumidamentre gay e que conquistou uma medalha de bronze

O atleta de saltos ornamentais Tom Daley, assumidamentre gay e que conquistou uma medalha de bronze

"O mais legal é que são manifestações de afeto, de amor”, afirma Carlos Tufvesson, da Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual do Município, casado há 21 anos com o arquiteto André Piva. “Fico muito emocionado cada vez que abro o jornal e vejo essas histórias; estou muito feliz como cidadão e militante."

O antropólogo Luiz Mott, da Universidade Federal da Bahia e fundador do Grupo Gay da Bahia, concorda com o colega.

“A visibilidade LGBT é uma estratégia fundamental e essencial do movimento, já que durante séculos a regra era o armário”, diz Mott. “Outro lado importante também foi que as torcidas foram bem menos homofóbicas do que costumam ser, pelo menos na comparação com a Copa do Mundo e com os jogos dos campeonatos nos estádios do Brasil afora”.

Uma possível exceção foi o jogo da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos – que tem duas jogadoras assumidamente lésbicas. Na semana passada, em partida disputada no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, algumas jogadoras reclamaram de que a torcida teria gritado “bicha, bicha”, o que costuma acontecer em jogos de times masculinos. Outros, no entanto, afirmaram que o grito seria de “zika, zika”, uma provocação com a goleira do time que, dias antes do início dos Jogos, fez postagens debochadas sobre a epidemia no país.

“Acho que esse movimento sinaliza a mudança da sociedade como um todo”, sustenta a presidente da Comissão de Direito Homoafetivo da OAB-RJ, Raquel Pereira de Castro Araújo. “Tivemos muitas conquistas: são cinco anos já do reconhecimento do casamento homoafetivo no Supremo, novelas inserindo o tema cada vez mais abertamente. Apesar de existir uma força política conservadora muito forte contra o debate, a pauta LGBT está muito em voga."

O destaque gay nas Olimpíadas contrasta com a dura realidade homofóbica do país em que um LGBT é morto a cada 28 horas, segundo dados do Grupo Gay da Bahia – foram 319 assassinatos no ano passado no país contra, por exemplo, 20 nos Estados Unidos – e onde um deputado como Jair Bolsonaro se sente confortável de dizer que prefere ter um filho morto a um filho gay.

“O Brasil é um país contraditório”, reconhece Luiz Mott. “Tem um lado cor de rosa, com a maior parada gay do mundo, a de São Paulo; a maior associação LGBT da América Latina; cenas de homoerotismo em novelas de televisão. Mas também tem esse lado vermelho sangue, dos assassinatos bárbaros de LGBTs.”

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