O futebol cara a cara com a morte em Auschwitz | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 28.01.2020
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Coluna Halbzeit

O futebol cara a cara com a morte em Auschwitz

Nazistas usaram o futebol para evitar revoltas de prisioneiros em campos de concentração como o de Auschwitz, onde as partidas eram disputadas diante de uma câmara de gás e impregnadas pelo odor de corpos queimados.

Campo de concentração de Auschwitz

Pesquisa aponta que, somente em Auschwitz, 40 jogadores do futebol de elite da Polônia foram assassinados

Poderia ter sido apenas mais um tradicional confronto entre Bayern e Schalke, mas não foi. Antes do jogo começar, a torcida bávara estendeu um banner gigante que tomou conta da Südkurve (Curva Sul) do estádio, local emblemático do coração e da alma do clube. O banner continha uma mensagem inequívoca em memória das vítimas do Holocausto: "Gegen das Vergessen" (Contra o Esquecimento).

Foram palavras que ecoaram pela arena, e foi a maneira que os torcedores encontraram de se posicionar claramente frente aos horrores dos campos de concentração e de extermínio da Alemanha nazista.

Nunca é demais lembrar que, durante o pogrom da Noite dos Cristais, em novembro de 1938, membros do Bayern foram presos e levados para o campo de concentração de Dachau, onde acabaram sendo assassinados. Dachau fica a apenas 15 quilômetros da Allianz Arena, e é hoje uma cidade que abriga um memorial e museu daqueles tempos.

Os arquivos de documentos e fotos encontrados por historiadores comprovaram que, paralelamente ao horror diário, se jogava futebol pelo menos uma vez por semana, normalmente aos domingos. A alegria e a paixão pelo esporte conviviam com a barbárie cotidiana.

Ferdinand Hackl, combatente na Espanha e comunista austríaco, foi prisioneiro em Dachau. Em sua biografia, ele fornece detalhes: "Na praça central do campo, onde os presos eram atormentados diariamente e muitas vezes torturados até a morte, aos domingos era permitido jogar futebol."

O privilégio de jogar futebol era concedido aos que eram utilizados como trabalhadores pela indústria bélica ou química. Bastava ter algum tipo de formação técnica para fazer parte desse grupo.   

A historiadora Veronika Springmann conta que esses operários qualificados tinham direito à uma melhor ração alimentar, além de não serem obrigados a trabalhos pesados. Afinal, eles eram necessários à cadeia produtiva do regime nazista e, tal qual animais úteis, obtinham algumas recompensas, como por exemplo, jogar futebol aos domingos. Jogava-se futebol na grande praça central do campo ou entre os barracões dos prisioneiros.

No campo de concentração de Auschwitz, as partidas se realizavam em frente a um crematório e a uma câmara de gás. Desse modo, enquanto corriam atrás da bola, os homens obrigatoriamente encaravam a morte.

Durante uma partida, diante dos seus olhos, outros prisioneiros eram levados à câmara de gás e em seguida, incinerados. A fumaça saindo da chaminé dos crematórios e o odor de corpos queimados impregnavam o campo de futebol, feito com um piso de cinzas humanas. 

Em Auschwitz, o jogo entre poloneses e alemães era o maior clássico. Membros uniformizados da SS (força paramilitar ligada ao partido nazista) torciam freneticamente pelos seus compatriotas e ameaçavam ferozmente os jogadores poloneses.

Igor Fischer, sobrevivente do Holocausto e ex-jogador da seleção austríaca, se lembra bem: "Jogar contra os alemães era perigoso. Seu adversário poderia matar você, não no campo de futebol, mas mais tarde, na câmara de gás."

Contra o esquecimento: torcedores do Bayern de Munique homenagearam vítimas do Holocausto

"Contra o esquecimento": torcedores do Bayern de Munique homenagearam vítimas do Holocausto

Uma pesquisa do jornalista Thomas Urban aponta que, somente em Auschwitz, 40 jogadores do futebol de elite da Polônia foram assassinados.

No campo de concentração Theresienstadt, também conhecido como gueto de Terezin, o alto comando da SS permitiu, de 1942 a 1944, a organização de uma Liga de Futebol com diversas divisões. Havia jogos praticamente todo domingo com maciça presença de público, que algumas vezes chegava a 3.500 espectadores. A Liga Terezin gozava de grande popularidade.      

Os nazistas logo perceberam todo potencial do futebol – tanto para propaganda quanto para os próprios prisioneiros. Para esses, o esporte acabou funcionando como um tipo de terapia ocupacional, cujo objetivo maior era evitar eventuais revoltas dentro do próprio campo de concentração.

Em 1944, sob os auspícios do ministério da propaganda de Joseph Goebbels e com a guerra já se aproximando do seu fim, ainda foi produzido um documentário sobre o cotidiano de Theresienstadt, considerado pelos nazistas um campo exemplar. Três minutos do filme foram dedicados aos prisioneiros jogando futebol sob os olhares da torcida. 

Poucos dias mais tarde, muitos jogadores e espectadores mostrados no filme foram deportados para Auschwitz, onde acabaram sendo exterminados. E pouco tempo depois, Auschwitz foi libertado pelo Exército soviético, mas para os involuntários protagonistas do documentário nazista, era tarde demais.  

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Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit sai às terças. Siga-o no TwitterFacebook e no site Bundesliga.com.br

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