Munique cria memorial virtual pelas vítimas do nazismo | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 12.10.2010
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Munique cria memorial virtual pelas vítimas do nazismo

Michaela Melian reuniu testemunhos de vítimas do nazismo, disponibilizando-os pela internet em forma de arquivos sonoros. Projeto quer construir espaços voltados para a memória, para além dos monumentos históricos.

default

'Memory Loops': rastreando lugares e testemunhos

Munique desempenhou um papel central durante o nazismo. Por isso, é hoje importante perceber de que forma, onde e como são lembradas, na cidade, as vítimas perseguidas e excluídas pelo regime, aquelas que não podiam mais participar da vida pública e as que foram assassinadas naquele período. Agora, a fim de lembrar essas pessoas, Munique criou um Memorial Virtual para as Vítimas do Regime Nazista: não se trata de uma edificação, mas sim de uma obra sonora.

A artista, música e autora de audiolivros Michaela Melian registrou 300 depoimentos das vítimas do nazismo em áudios, disponibilizados na internet, como parte de um projeto que estabelece a ligação entre lugares, como nomes de rua, e pessoas. São lembranças para serem ouvidas, que devem levar à reflexão e certamente ao respeito pelas vítimas do regime nazista. Um documento na luta contra o esquecimento.

Regravação dos testemunhos

"Otto teve sorte, pois ele, na condição de prisioneiro, tinha que ir comprar leite e pão para o campo de concentração. Foi assim que nos conhecemos, mas tudo ainda era muito perigoso. Não podíamos falar muito, só através de olhares. Quando a guerra acabar, se eu sobreviver, venho buscar você, ele dizia", lembra uma sobrevivente.

"Alguém nos chamou às sete horas da manhã depois da Noite dos Cristais e disse: todos os homens vão ser detidos hoje. Aí mamãe falou: vocês hoje não vão para a escola. Fomos então para a rua Weinstrasse 11, para o escritório de advocacia do meu pai. Naquela época ainda era possível estacionar ali", recorda-se outra vítima.

Testemunhos atuais e atemporais

Michaela Melian

Michaela Melian

A artista Michaela Melian mandou regravar os registros encontrados em arquivos e entrevistas, de forma que não se ouve, nesse Memorial Sonoro, nenhuma gravação antiga desgastada pelo tempo, mas depoimentos cujo som tem perfeita qualidade.

"Eu quis fazer com que essas vozes fossem associadas a pessoas jovens. Todas essas vítimas tinham entre 15 e 30 anos quando saíram dos campos de concentração ou quando voltaram da Rússia. Eles tinham 25 ou 28 anos e hoje, se ainda vivos, têm entre 80 e 90 anos. Acho muito importante que esses testemunhos soem atuais, porque as histórias que considero importantes são, na maioria das vezes, cotidianas. E os jovens não eram tão diferentes dos de hoje. É possível compreender tudo por que passaram, de forma que os testemunhos ganham, assim, um caráter atual e atemporal", explica Melian.

Lembranças fragmentadas formam um todo

É possível criar uma proximidade com aquilo que as pessoas vivenciaram na época e com os lugares dos quais elas se recordam. Embora fragmentadas, essas lembranças, juntas, compõem uma imagem daquele momento histórico. Michaela Melian compôs ela própria a música para sua obra, usando samples de músicos e compositores judeus, que colidiam com a ideologia nazista.

"Tento resgatar as raízes de compositores como Karl Amadeus Hartmann, que foi proibido de exercer a profissão, ou Coco Schumann, que não podia se apresentar. E Mendelssohn-Bartholdy só podia ser interpretado por músicos judeus para um público judeu. São informações que apreendi nas entrelinhas", conta a artista.

"Memory Loops"

Rentner telefoniert mit seinem Handy

Celular: útil no resgate da memória

No site do memorial virtual, há 300 círculos azuis marcados em um mapa da cidade de Munique, nos quais é possível clicar. Assim é possível ficar sabendo o que acontecia em determinadas regiões da cidade, entender quais os locais prediletos dos nazistas e de onde eram executados os planos do regime, como postos policiais ou departamentos voltados para "tornar ariana" a sociedade.

A emissora Bayerische Rundfunk, que apoiou a produção do projeto, irá transmitir esses Memory Loops, como ele é chamado, como peça radiofônica. Em alguns museus do país, é também possível pegar aparelhos de mp3 emprestados para fazer um passeio ouvindo as lembranças colhidas pela artista. Mas, acima de tudo, Melian cuidou de espalhar por toda a cidade as memórias que reuniu.

"Essa era também a ideia que se escondia por trás do concurso que ganhei: a proposta de procurar uma forma de lembrança que fosse além dos monumentos históricos. Como não havia a menção de um lugar específico no edital, foi fácil optar por esse tipo de mídia, hoje predominante no lazer e na vida profissional das novas gerações, como a internet e o celular. As pessoas hoje gastam mais tempo de lazer na internet do que em qualquer outro lugar de interação social", analisa Melian.

A proposta da artista de redefinir de forma tão consequente "novas formas da lembrança e da memória" provocou, de início, um pequeno escândalo. Embora logo depois tenha ficado claro que, quando faltam lugares reais dedicados à memória, é preciso encontrar outros para tal, sejam no rádio, na internet ou mesmo no telefone.

Autora: Renate Heilmeier (sv)

Revisão: Roselaine Wandscheer

Leia mais