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Homens carregam caminhão com sacos
Trégua permite chegada de gêneros de primeira necessidade ao porto de HodeidaFoto: AFP/Getty Images
ConflitosIêmen

Esperanças de paz no Iêmen após sete anos de guerra civil

Jennifer Holleis
11 de abril de 2022

Com primeira trégua em muitos anos e perspectiva de negociações de paz, Iêmen pode estar inaugurando uma nova era. Mas processo tem falhas graves, como deixar de fora rebeldes houthis, também protagonistas do conflito.

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Para os muçulmanos de todo o mundo, o mês de jejum do Ramadã é um símbolo de paz, perdão e recomeço. No Iêmen, a esperança de muitos é, acima de tudo, que ele represente o fim de sete anos de guerra civil: desde 2015 os houthis respaldados pelo Irã combatem o governo oficial, o qual, por sua vez, responde com uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita.

Desde 2 de abril está em vigor uma trégua: pela primeira vez em seis anos as armas se calam em todo o país. No fim da semana, o presidente Abed Rabbo Mansur Hadi anunciou sua renúncia, um Conselho Presidencial recém-criado assumirá em seu lugar.

O grêmio de oito membros é encabeçado por Rashad al-Alimi, que foi ministro tanto do Interior quanto das Relações Exteriores sob o presidente Ali Abdullah Saleh, assassinado por rebeldes houthis. O grupo contará com o apoio de um Comitê de Conciliação, com 50 integrantes, além de receber diretrizes dos nove membros do Comitê Legal.

A principal tarefa do Conselho Presidencial é coordenar as negociações de paz com os houthis, para dar fim à violência no país. Como explicou o ex-presidente Hadi em seu discurso de renúncia, a meta é estabelecer uma "solução política final" e um cessar-fogo.

Entretanto está também claro que os rebeldes nem têm um representante no novo grêmio presidencial, nem participaram das conversas preliminares na capital saudita Riad. Assim, eles não demoraram em descartar o Conselho, o que abafa as esperanças de paz em breve.

"Tudo o que diz respeito ao presente e passado do Iêmen deve ser decidido dentro do Iêmen. Negociações fora de nossas fronteiras são uma farsa e servem, no máximo, como diversão para os Estados de agressão", sentenciou o porta-voz dos houthis, Mohammed Abdul Salam.

Grupo de rebeldes houthis armados
Exclusão de houthis dos processos decisórios pode comprometer processo de paz no IêmenFoto: Khaled Abdullah/REUTERS

Consenso difícil

O analista de conflitos Hisham Al-Omeisy, que já esteve preso pelos combatentes houthis, é cético em relação ao processo de paz: "É questionável como os membros do Conselho Presidencial vão interagir, pois têm históricos e agendas muito divergentes."

Um dos pontos de controvérsia é, por exemplo, se o sul iemenita deve se separar dos houthis no norte, ou se a unidade nacional deve ser mantida. "E esse é só um aspecto", aponta Al-Omeisy, "outro é a racionalização das Forças Armadas e as organizações de segurança no país. Quem, no fim das contas, terá o poder sobre os militares, o aparato de segurança interna, o Ministério da Defesa?"

A situação do Iêmen permanece extremamente complicada. Após sete anos de guerra de procuração entre o Irã e a Arábia Saudita, o estado humanitário e da infraestrutura é péssimo. Para agravar o quadro, seca, a pandemia de covid-19 e irregularidades nas importações de gás devido à guerra na Ucrânia.

As Nações Unidas estimam que, até o fim de 2021, o conflito fizera 377 mil vítimas, entre as quais 144 mil crianças; cerca de 24,1 milhões – ou seja, um terço da população – necessitam assistência humanitária; outros 3 milhões se refugiaram no exterior desde 2015.

Mulher de burca segura criança raquítica
Situação humanitária no Iêmen é catastróficaFoto: Mohammed Hamoud/AA/picture alliance

Dinheiro é importante, embora pouco

Como parte envolvida no conflito, a Arábia Saudita reagiu com rapidez aos desdobramentos políticos mais recentes: tanto ela quanto seu aliado Emirados Árabes Unidos disponibilizaram, cada um, o equivalente a 1 bilhão de dólares em ajuda para o Iêmen.

Os sauditas prometeram ainda outro bilhão de dólares para a compra de petróleo e para projetos de ajuda ao desenvolvimento. "As ajudas financeiras são um grande passo", comenta Jens Heibach, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga): o dinheiro é importante, embora essas somas sejam insignificantes, comparado ao que a ONU calcula que seria necessário.

Além disso, é decisivo as verbas serem realmente transferidas, e "a questão é também até que ponto os houthis poderão participar das negociações sobre a aplicação do dinheiro", reforça Heibach. Ainda assim, as injeções financeiras e a formação do Conselho Presidencial são um sinal positivo.

Antes mesmo dos acontecimentos atuais, a ONU já tomara uma iniciativa ousada para proporcionar paz entre os houthis e a Arábia Saudita: o emissário especial das Nações Unidas para o Iêmen, Hans Grundberg, foi encarregado de elaborar um fundamento para as conversações.

No entanto, a iniciativa desconsiderou, de fato, a existente Resolução 2.216 do Conselho de Segurança da ONU, que prevê que os houthis sejam desarmados e abram mão de seu território. Até poucas semanas atrás, a coalizão militar sob liderança saudita insistia que se mantivessem essas condições.

Heibach, do Giga, confirma que Hans Grundberg basicamente erodiu a Resolução 2.216, contudo abrindo o caminho para "uma solução em que a Arábia Saudita mantém a compostura": segundo o acordo proposto, os rebeldes podem ficar com suas armas, mas deixam de disparar mísseis de cruzeiro.

Por sua vez, os sauditas suspenderam o bloqueio dos portos sob controle houthi, assim como do aeroporto de Sanaa. O pacto já trouxe primeiros resultados: no começo de abril, um navio desembarcou no porto de Hodeida, levando alimentos e medicamentos.