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Eficácia de tratamento com plasma ainda é uma incógnita

24 de agosto de 2020

Não há estudos abrangentes sobre terapia aprovada por Donald Trump nos Estados Unidos. Desenvolvido em 1890, método consiste na transferência de anticorpos de recuperados para doentes, porém, pode ter efeitos colaterais.

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Imagem de doação de sangue
Método consiste no uso de anticorpos presentes no soro sanguíneo de pessoas que sobreviveram à doença Foto: picture alliance/dpa/C. Charisius

Pouco antes da convenção de nomeação republicana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vinha sofrendo pressão dentro de seu próprio partido por sua atuação na pandemia, anunciou um "avanço histórico": a aprovação do uso de plasma convalescente no tratamento de pacientes diagnosticados com covid-19.

Esse tratamento, segundo Trump, mostra uma "taxa de sucesso inacreditável" e "salvará inúmeras vidas". No entanto, até agora as experiências com essa técnica têm sido bastante comedidas. Ao mesmo tempo, muitos pesquisadores e médicos se questionam se este método complexo é realmente eficaz.

A própria Food and Drug Administration (FDA), agência que regulamenta o uso de medicamentos nos EUA, vê apenas um "benefício potencial" na terapia de plasma, que seria maior do que os efeitos colaterais conhecidos. Até que dados mais confiáveis de ensaios clínicos estejam disponíveis, o método não deve ser visto como o novo padrão para o tratamento de pacientes com covid-19, recomenda a FDA.

Desde o início da pandemia, o tratamento com plasma convalescente é visto como uma esperança. A ideia é simples: pacientes recuperados de covid-19 carregam em seu soro sanguíneo uma grande quantidade de anticorpos diferentes que podem combater a doença de maneira eficaz.

Se tais anticorpos, isolados e purificados, forem então injetados em outro paciente, este recebe uma "imunização passiva". No sentido estrito da palavra, não se trata de uma vacinação, pois os anticorpos não foram produzidos pelo próprio organismo.

Mas a vantagem é clara: no caso de uma infecção, o corpo não precisa se extenuar para produzir seus próprios anticorpos, mas recebe diretamente os anticorpos adequados que podem combater o patógeno imediatamente. A imunização passiva, no entanto, dura apenas algumas semanas ou meses, não oferecendo, portanto, uma imunidade permanente.

Longo histórico nos EUA

Criado em 1890 pelo imunologista alemão Emil von Behring, esse método de imunização passiva já estava sendo usada nos EUA durante a crise do coronavírus. Segundo a FDA, cerca de 70 mil pacientes com covid-19 receberam plasma sanguíneo. A licença especial prevê o uso deste tratamento somente sob condições rigorosas, ou seja, no âmbito de testes clínicos e em casos de estado de saúde gravíssimo.

O sucesso desta terapia é controverso. De acordo com o Secretário de Saúde dos EUA, Alex Azar, os pacientes tratados com plasma tiveram uma taxa de sobrevivência 35% maior. Com a aprovação atual do tratamento, mais pacientes poderão ter acesso a ele no futuro.

No entanto, não só falta plasma, como principalmente quase não existem sucessos comprovados que justifiquem o uso de tal terapia complexa. Esta é outra razão pela qual a FDA não aprovou totalmente o método.

As reservas da agência sobre o uso do plasma resultam, entre outras coisas, dos dados extremamente limitados disponíveis, que não fornecem informações confiáveis sobre a eficácia do método.

Bolsas de plasma
Apesar de sua eficácia não comprovada, a terapia de plasma traz fio de esperança em muitos paísesFoto: DW

Um estudo de 10 de agosto, publicado no American Journal of Pathology, indica que o tratamento com plasma pode ser bem-sucedido na fase inicial da doença. No entanto, o estudo não pôde concluir se esse resultado está relacionado à terapia ou se os pacientes desenvolveram anticorpos próprios suficientes independentemente desta imunização passiva.

Um dos poucos estudos randomizados na cidade chinesa de Wuhan também indicou bons resultados em pacientes em estado grave. Um total de 103 infectados em estado grave e com idade média de 70 anos foram examinados entre 14 de fevereiro e 1º de abril. Destes, 52 receberam plasma, além de ventilação e cuidados intensivos.

Em 51,9% dos pacientes (27 de 52) houve uma melhora clínica após a terapia, em comparação com 43,1% no grupo controle. Neste último, 22 de 51 pacientes mostraram uma melhora clínica. 

Apesar da boa notícia, não há nenhuma diferença significativa estatisticamente. O mesmo se aplica à mortalidade em 28 dias (15,7% com terapia de plasma, 24% sem). Para resultados mais significativos, mais pacientes teriam que ser examinados por um longo período, admitiram os cientistas chineses.

Enquanto isso, na Holanda, um estudo randomizado sobre esse tratamento chegou a ser interrompido porque 79% dos pacientes examinados já haviam formado a mesma concentração de anticorpos que os doadores de plasma.

Mais pesquisas são necessárias

Em vista dos dados escassos e da eficácia ainda não comprovada, o tratamento com plasma para a covid-19 ainda não provou ser uma terapia poderosa do ponto de vista médico que "salvará inúmeras vidas", como afirmou o presidente americano. 

As incertezas não residem apenas no potencial do tratamento em pacientes com covid-19. Os próprios efeitos colaterais ainda não foram pesquisados de forma exaustiva, já que a administração de um soro estranho também pode piorar a condição do enfermo de forma dramática no caso de uma reação imunológica.

Somente no futuro, será possível saber se a terapia pode realmente ser uma contribuição eficaz para o combate à atual pandemia. A clareza só virá com mais estudos randomizados, que contarem com pacientes e grupos de controle suficientemente grandes.

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