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Dessalinização: Opção viável para a escassez de água?

Holly Young | Kira Schacht
22 de março de 2024

Enquanto as secas aumentam e a falta de acesso à água pode atingir 1 bilhão de pessoas até 2050, especialistas apontam que o método pode ser eficaz, ainda que críticos enfatizem altos custos, gasto de energia e poluição.

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A imagem mostra o lago e o reservatório de Penuelas, em Valparaíso, no Chile, com níveis muito baixos devido a uma seca.
Embora 70% da superfície da Terra seja coberta por água, apenas cerca de 1%, ou seja, 1.260 milhões de trilhões de litros, é potávelFoto: Matias Basualdo/AP/picture alliance

Desde os marinheiros da Grécia Antiga que ferviam a água do mar até os romanos que usavam tubos de barro para filtrar o sal, tornar a água salgada potável por meio da dessalinização tem uma longa história.

As formas modernas dessa técnica milenar, no entanto, são agora o "presente e o futuro do enfrentamento da escassez de água", segundo Manzoor Qadir, vice-diretor do Instituto Universitário das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde.

Embora 70% da superfície da Terra seja coberta por água, apenas cerca de 1% dos 326 milhões de trilhões de galões – ou seja, 1.260 milhões de trilhões de litros – da água do planeta é potável. Um recurso limitado e cada vez mais escasso.

Populações em crescimento, água doce distribuída de forma desigual e secas cada vez frequentes, associadas às mudanças climáticas, estão levando estiagem e sede a muitas partes do mundo.

Um quarto da população mundial vive em países que enfrentam "estresse hídrico extremo", que pode ser definido como um local que usa pelo menos 80% de todo o seu abastecimento de água durante um ano. E isso pode levar esses lugares ao risco de ficarem sem água, inclusive forçando governos a restringir severamente o fornecimento.

Mesmo em cenários climáticos otimistas para limitar o aquecimento global, projeta-se que 1 bilhão de pessoas estejam nessa situação até 2050.

Por esse motivo, muitos países já complementam seus suprimentos de água importando líquidos, reciclando águas residuais ou por meio de dessalinização.

Indústria em crescimento

Apesar das críticas em relação aos custos, ao alto consumo de energia e ao impacto ambiental, especialistas dizem que a dessalinização "é uma indústria em crescimento" que tem progressivamente se expandido nas últimas duas décadas.

"E o motivo é que a escassez de água está instigando isso. Há cada vez mais usinas de dessalinização surgindo e sendo solicitadas", afirma Qadir.

As usinas de dessalinização removem o sal da água usando destilação térmica, que envolve o aquecimento do líquido e a coleta do vapor, ou por meio de osmose reversa, em que a água é filtrada à medida que é empurrada por uma membrana semipermeável. Atualmente, 56 bilhões de litros de água dessalinizada podem ser produzidos todos os dias, o que equivale a cerca de 7 litros por pessoa no planeta.

Das cerca de 16 mil usinas em operação em todo o mundo, 39% delas estão no Oriente Médio, que, juntamente com o norte da África, é a região com maior escassez de água do mundo.

Em termos globais, apenas cerca de 0,5% de toda a água utilizada vem da dessalinização. Mas em países como Qatar e Bahrein, o número é bem maior: 76% e 56%, respectivamente.

Segundo Qadir, ainda que formas alternativas de obtenção de água potável possam desempenhar um papel importante, como a indução de chuvas artificiais ou o transporte de icebergs para regiões áridas, elas ainda não conseguem atender totalmente à demanda mundial.

Cada vez mais eficiente

A dessalinização precisa de muita energia, e a maior parte dela vem de usinas elétricas movidas a combustíveis fósseis que emitem gases de efeito estufa.

Um estudo realizado em 2021 concluiu que as quatro usinas de dessalinização do Chipre, o país mais quente e seco da União Europeia (UE), foram responsáveis por 5% do consumo total de eletricidade e 2% das emissões de gases de efeito estufa. As usinas abastecem a pequena nação insular com cerca de 80% de sua água potável.

O aumento da eficiência energética, no entanto, é um dos fatores que impulsionam o crescimento do setor, de acordo com Hugo Birch, editor de dessalinização e reaproveitamento de água da Global Water Intelligence, uma plataforma de informações dessa área.

A maioria das novas usinas de dessalinização usa osmose reversa em vez de processos térmicos, o que é muito mais eficiente em termos de energia, segundo Birch. Uma mudança que pode, potencialmente, reduzir pela metade os custos de eletricidade.

Estimativas apontam que a energia necessária para a dessalinização por osmose reversa caiu quase 90% entre 1970 e 2020. Previsões indicam que nos próximos 20 anos os avanços tecnológicos podem reduzir os custos da água dessalinizada em 60%.

Disponível para todos?

Embora os custos de produção de água dessalinizada tenham diminuído significativamente (para cerca de US$ 0,50 por metro cúbico atualmente), esse "ainda é um negócio de países ricos", conforme Qadir. "O principal problema é que ainda não é acessível para países de baixa renda."

Mais de 90% da dessalinização é realizada em países de renda média-alta e alta. E a previsão é de que regiões de países pobres, como a África Subsaariana, devem se tornar "pontos críticos" de escassez de água até 2050.

Embora pequenas usinas de dessalinização movidas a energia solar ou eólica estejam sendo desenvolvidas nessas áreas, Qadir não acredita que a água esteja chegando às comunidades marginalizadas, que são justamente as que mais precisam.

Poluição ameaça ecossistemas marinhos

Uma das principais preocupações ambientais com a dessalinização é a descarga da salmoura no meio ambiente, o que pode causar "poluição marinha, poluição da água do subsolo e salinização do solo", aponta Argyris Panagopoulos, engenheiro químico da Universidade Técnica Nacional de Atenas.

Estima-se que 70% da produção global de salmoura seja proveniente do Oriente Médio, a mesma região que também produz uma grande quantidade de água dessalinizada.

Birch afirma que isso pode ser explicado, em grande parte, pelo fato de as usinas de dessalinização do Oriente Médio usarem principalmente água do mar, que é mais salina do que a água salobra usada com frequência, por exemplo, nos Estados Unidos. Ele acrescenta que essas usinas geralmente têm um mecanismo de difusão integrado para garantir que a salmoura não seja despejada em uma única área.

Novas tecnologias de tratamento de salmoura estão surgindo, o que poderia ajudar a reduzir o volume de poluição, além de recuperar materiais valiosos, como minerais, sais e metais, observa Panagopoulos.

Futuro sustentável?

Em relação ao tratamento da salmoura e à consequente mudança para fontes de energia verde, ainda há espaço para melhorias, de acordo com Panagopoulos: "A dessalinização deu passos significativos nos últimos anos, mas ainda há desafios a serem superados antes que ela possa ser considerada totalmente sustentável do ponto de vista ambiental."

Ainda assim, Qadir acredita que a dessalinização irá desempenhar um papel fundamental no enfrentamento da futura escassez de água pelo fato de não ser afetada pelas mudanças climáticas: "Independentemente do fato de haver chuvas ou secas... Há a água do mar... Então, essa é, na verdade, a melhor parte da dessalinização."