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Protesto em apoio a Jair Bolsonaro e contra as medidas anticovid em São Paulo, em dezembro de 2020
Protesto em apoio a Jair Bolsonaro e contra as medidas anticovid em São PauloFoto: Neslon Almeida/AFP
SociedadeGlobal

Como lidar com teorias da conspiração na festa de Natal?

Julia Vergin
24 de dezembro de 2021

Negacionistas da pandemia, antivacinas e teóricos da conspiração não se limitam às redes sociais – eles podem estar também nas celebrações de fim de ano. Como reagir se um parente ou amigo inicia um debate controverso?

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Nem todo cético da vacina da covid-19 é um teórico da conspiração. Alguns têm preocupações relativas à rapidez com que os imunizantes foram desenvolvidos, ou simplesmente não sabem diferenciar os fatos das fake news.

Essas pessoas geralmente estão abertas a explicações – especialmente se alguém de confiança tenta trazer ordem ao caos por meio de evidências científicas. Então o que se pode fazer se um amigo ou parente começa a espalhar desinformação?

Especialistas sugerem manter a calma – por mais difícil que seja – se avós, tios ou outros membros da família surgirem com a teoria de que vacinas anticovid podem conter microchips antes mesmo de a ceia de Natal ser servida.

Manter a calma não significa, contudo, que se deve ouvir calado declarações negacionistas ou anticientíficas. A questão está em como reagir: não adianta perder o controle, alertam especialistas. Dificilmente se ganha uma discussão dessa forma, e as festividades de fim de ano podem ir ladeira abaixo antes mesmo de começarem.

Primeiro, pergunte a si mesmo o que deseja alcançar. Com parentes e amigos próximos, não se trata apenas de ganhar uma discussão. Você pode estar se perguntando o que aconteceu para eles acreditarem em teorias tão controversas.

Uma coisa é certa: você é próximo dessas pessoas por uma razão. Portanto pode ser útil ouvi-las antes de reagir com agressividade.

Emoções versus fatos

No livro Fake facts (Fatos falsos, em tradução livre), a psicóloga Pia Lamberty e a ativista dos direitos civis Katharina Nocun exploram as várias razões por que indivíduos são atraídos por teorias da conspiração. Decepção, medo e estresse são apenas alguns dos sentimentos que podem estar envolvidos.

As teorias da conspiração podem ajudar pessoas a lidarem com suas vidas sem ter que se aprofundar em seus próprios problemas, o que, por sua vez, pode despertar sentimentos desagradáveis ou mesmo vergonhosos. Tais teorias ajudam indivíduos a encontrarem culpados para sua própria infelicidade: políticos, grandes farmacêuticas, a imprensa. Responsabilizar outras pessoas torna mais fácil lidar com seu próprio déficit emocional.

A psicóloga Sarah Kuhn, da Universidade de Basel, na Suíça, cuja pesquisa se concentra em teorias da conspiração e preconceitos cognitivos, sugere que é possível descobrir mais sobre por que um certo indivíduo é atraído por uma ideia duvidosa fazendo uma pergunta simples, como "Como estão as coisas ultimamente?".

"Pessoas que aderem a teorias da conspiração geralmente acreditam que possuem conhecimento exclusivo e pensam que é seu papel disseminá-lo", afirma Kuhn. Segundo ela, indivíduos podem ser motivadas a agir de acordo com um certo conjunto de valores, mas o pano de fundo pode na verdade ser falta de autoconfiança, algo que uma teoria da conspiração pode ajudar a mitigar.

Nesses casos, o raciocínio factual tem poucas chances de sucesso. Se seu avô tenta preencher um vazio emocional com ajuda de teorias da conspiração, ele não desistirá da ideia tão facilmente. E, no fim, a conversa provavelmente não chegará à conclusão que você busca, porque abordará apenas o sintoma, não a causa raiz do problema.

Formular fatos, apontar contradições

Isso não significa que as pessoas devem permanecer incontestadas se expressarem a ideia de que a vacina contra a covid-19 é perigosa para a população. Kuhn afirma que não há problemas em apontar contradições em um argumento, por exemplo, perguntando por que algumas pessoas insistem nos potenciais efeitos negativos da vacina, mas não nos de contrair o coronavírus em si.

A especialista ressalta que é particularmente importante não envergonhar o outro ou tachá-lo de estúpido. Isso não vai resgatá-lo do atoleiro das teorias da conspiração, nem ajudar você a vencer a discussão. Perguntas como "Como você pode acreditar em tanta baboseira?" não são muito úteis, afirma Kuhn.

Em vez de se concentrar em narrativas e tons grosseiros, ela sugere que as pessoas simplesmente expressem e repitam os fatos da maneira mais neutra possível, sem julgar o próximo.

Comunique sentimentos pessoais

Um dos princípios básicos da resolução de conflitos é se comunicar em primeira pessoa. Há uma enorme diferença entre as duas seguintes frases: "Eu me sinto ofendido" e "Você me ofendeu" – a última é uma clara acusação que pode provocar resistência.

"É importante nomear o comportamento ou declaração específica que faz alguém se sentir magoado", afirma Kuhn. Diferentemente dos traços de personalidade, comportamentos e declarações podem ser alterados. A pessoa tem então a chance de responder à crítica sem se sentir rejeitada como ser humano.

Evite certos assuntos

Em meio à época natalina, é realmente preciso conversar sobre temas como pandemia, vacinas e política? "Se uma conversa for nessa direção, deve-se parar por um momento e se perguntar se você tem recursos para lidar com ela", diz Kuhn.

Se várias rodadas de vinho ou cerveja já abafaram qualquer intenção de um bate-papo razoável, talvez seja melhor mudar totalmente de assunto.

A psicóloga sugere, por exemplo, que os familiares e amigos presentes na confraternização definam uma palavra de segurança que possa ser usada para indicar que é hora de seguir em frente. Outra opção seria simplesmente vetar determinados tópicos com antecedência. Afinal, todo mundo precisa de uma pausa de coisas ruins e, em vez disso, focar nas coisas boas.

Experiências positivas quando compartilhadas podem fortalecer relações e até mesmo ajudar aqueles que disseminam teorias da conspiração a mudar de ideia no final, afirma Kuhn.