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Ex-presidente Donald Trump
Testemunhas afirmaram que Trump ignorou alertas de membros do próprio Partido Republicano que lhe disseram que reverter os resultados violaria leis estaduais e a Constituição dos EUAFoto: Go Nakamura/REUTERS
Leis e JustiçaEstados Unidos

Comissão detalha pressão de Trump para desacreditar eleição

22 de junho de 2022

Testemunhas revelam esquema do ex-presidente para tentar reverter derrota eleitoral. Autoridades tiveram seus endereços divulgados e sofreram ameaças de apoiadores de Trump.

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A comissão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos que investiga a invasão do Capitólio de 6 de janeiro de 2021 detalhou nesta terça-feira (21/06) como o ex-presidente americano Donald Trump pressionou autoridades estaduais e locais para tentar reverter a derrota nas eleições de 2020.

Durante a quarta audiência do mês, o painel que investiga o ataque examinou como Trump se concentrou em alguns estados decisivos, instando diretamente as autoridades a retirarem a certificação da vitória de Joe Biden ou a encontrar votos adicionais para si mesmo.

Testemunhas afirmaram que o ex-presidente ignorou alertas de membros do próprio Partido Republicano que lhe disseram várias vezes que reverter os resultados violaria leis estaduais e a Constituição dos EUA.

Essas ações faziam parte de um esquema maior que também envolveu dezenas de processos e pressão sobre funcionários do Departamento de Justiça e sobre o então vice-presidente, Mike Pence, para rejeitar o triunfo eleitoral de Biden no evento de confirmação no Congresso, que foi marcado para 6 de janeiro de 2021.

Como resultado da persistência de Trump, apoiadores do ex-presidente ameaçaram funcionários eleitorais de forma violenta, odiosa e às vezes racista.

"Pressionar servidores públicos para que traíssem o seu juramento era uma parte fundamental da cartilha", afirmou o presidente da comissão de investigação, Bennie Thompson. "Um punhado de funcionários eleitorais em vários estados importantes ficou entre Donald Trump e a derrubada da democracia americana", acrescentou.

As audiências da comissão feitas em junho ocorrem após mais de um ano de investigação e mais de mil depoimentos. Os detalhes apresentados nesta terça-feira vêm depois de a comissão se concentrar na pressão sofrida por Pence para interferir na certificação dos resultados pelo Congresso.

Policiais tentam conter homem vestido de viking em invasão ao Capitólio
Incitados por Trump, manifestantes invadiram o Capitólio Foto: Mike Theiler/REUTERS

"Hoje mostraremos que o que aconteceu com Pence não foi uma parte isolada no plano de Trump para invalidar a eleição", destacou Thompson.

Enxurrada de telefonemas

Nesta terça-feira, funcionários públicos que foram pressionados por Trump por fazerem o seu trabalho ou receberam ameaças de apoiadores do ex-presidente depois de alegações falsas sobre o resultado das eleições prestaram depoimentos.

O presidente republicano da Câmara do Arizona, Rusty Bowers, revelou telefonemas de Trump e aliados com pedidos para que ele cancelasse a certificação de eleitores legítimos do Arizona e os substituísse. Ele contou que pediu repetidamente aos advogados de Trump para que mostrassem evidências de fraude eleitoral generalizada, mas que eles nunca apresentaram prova alguma.

Bowers afirmou que o advogado da campanha de Trump Rudy Giuliani chegou a admitir não ter nenhuma evidência, mas "muitas teorias".

Outras autoridades estaduais contaram histórias semelhantes em depoimentos gravados em vídeo. O presidente da Câmara na Pensilvânia, Bryan Cutler, também afirmou ter recebido repetidos telefonemas de Giuliani e de outros assessores de Trump, mas que se recusou a atender aos pedidos.

Foco na Geórgia

A pressão exercida por Trump foi mais intensa na Geórgia, reduto até então do Partido Republicano e onde Biden venceu. O secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, e seu vice, Gabe Sterling, testemunharam que se tornaram dois dos principais alvos do ex-presidente por se recusarem a ceder à pressão.

A comissão reproduziu o áudio de um telefonema no qual Trump pedia às autoridades locais que "encontrassem 11.780" votos que poderiam mudar o rumo da eleição no estado e impedir o triunfo de Biden.

"Não havia votos para encontrar", sustentou Raffensperger. Ele afirmou que analisou todas as alegações da Trump, mas o ex-presidente se recusava a aceitar os resultados e chegou a acusar Raffensperger de incompetência ou desonestidade por não encontrar os supostos votos.

Ameaças e riscos a funcionários públicos

A audiência detalhou ainda como as ameaças de Trump colocaram autoridades estaduais em perigo. A secretária de Estado de Michigan, Jocelyn Benson, contou como se sentiu quando ouviu o barulho dos manifestantes do lado de fora da sua casa, numa noite após a eleição, após ter colocado o filho para dormir. "Foi o momento mais assustador", afirmou.

Outra autoridade do Michigan, o líder da maioria no Senado, Mike Shirkey, testemunhou à comissão que recebeu 4 mil mensagens de texto após Trump ter divulgado o número de seu celular. Cutler também disse que seu endereço foi divulgado na internet e que apoiadores do presidente protestaram em frente à sua casa quando seu filho de 15 anos estava sozinho.

Bowers também relatou que pessoas com alto-falantes se colocaram diante de sua casa e que um home armado ameaçou verbalmente um de seus vizinhos.

Mentiras e teorias de conspiração

Os depoimentos mais marcantes foram de funcionários eleitorais da Geórgia, que viram suas vidas virarem de cabeça para baixo depois que Trump e Giuliani espalharam mentiras de que eles estariam envolvidos na suposta fraude eleitoral.

A ex-funcionária eleitoral Wandrea Moss e sua mãe Ruby Freeman foram acusadas de terem introduzidos malas de cédulas eleitorais ilegalmente para alterar o resultado – acusação que foi refutada pelo Departamento de Justiça. Moss afirmou que não sai mais de casa desde que Trump inventou a mentira e envolveu seu nome. Ela, que é negra, disse ter sido alvo de ataques racistas e de violentas ameaças feitas por apoiadores do ex-presidente.

"Perdi meu nome, perdi minha reputação, perdi minha sensação de segurança", destacou a mãe de Moss, Ruby Freeman.

Ataque ao Capitólio

A comissão que investiga o ataque ao Capitólio, conduzido por apoiadores de Trump que se recusavam a aceitar o resultado das eleições, vem ouvindo testemunhas, inclusive de conselheiros próximos de Trump que tentaram dissuadi-lo dos seus esforços para permanecer no poder, e mostrado vídeos inéditos da violenta invasão.

O ataque ocorreu após alegações infundadas por parte Trump sobre uma suposta fraude eleitoral e depois de o magnata ter apelado a uma multidão de apoiadores para que impedissem a certificação da vitória eleitoral de Biden.

Atualmente, a comissão apresenta argumentos para mostrar que os esforços de Trump para reverter a sua derrota levaram diretamente à violência no Capitólio. 

cn/lf (AP, Lusa, ots)