Checkpoint Berlim: O mural da discórdia | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 02.09.2016
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Checkpoint Berlim: O mural da discórdia

Grafite em bairro berlinense causa revolta de moradores, que se organizam para substituí-lo. Artista alega que mensagem não foi entendida. Ao conferir obra, Clarissa Neher compreende a razão da polêmica.

Grafite em Tegel que causou polêmica

Grafite do espanhol Borongo causou polêmica em Berlim

Recentemente, ao abrir o jornal, me deparei com uma notícia curiosa: moradores do bairro Tegel estavam protestando contra um mural pintando na fachada de um prédio. O grafite em si não era problema, mas sim seu conteúdo: uma menina com um vestido manchado de vermelho olhando para um bosque onde há um homem cheio de flechas no corpo amarrado em uma árvore.

Clarissa Neher vive em Berlim desde 2008

Clarissa Neher vive em Berlim desde 2008

A indignação com a obra de 42 metros de altura foi tanta que moradores começaram a recolher assinaturas, exigindo que o desenho da fachada fosse refeito, sob a condição de que eles fossem consultados para ver se aprovariam ou não o novo mural. A peça foi considerada deprimente e de mau gosto.

Mães da região afirmaram que seus filhos ficavam apavorados ao olhar o grafite. Crianças de um jardim de infância próximo ao mural da discórdia faziam perguntas que ninguém sabia como responder, como: por que a menina está sangrando? Os pais inventam respostas e dizem que não é sangue, é geleia de morango. A reportagem no jornal local tentava mostrar o grande drama dos moradores.

No meio da confusão, o artista Borondo, relativamente conhecido em Berlim, tentava explicar seu conceito, argumentando que se inspirou no drama dos refugiados. O homem amarrado seria São Sebastião, a menina representa o mundo seguro que olha para uma realidade dramática, mas de uma perspectiva distante, e o vermelho foi apenas a cor escolhida para dar contraste e dimensão à obra. O artista lembrou ainda que não era decorador, e consultar moradores resultaria em desenhos de arco-íris e borboletas.

Grafite em Tegel que causou polêmica

Homem amarrado à arvore seria São Sebastião, menina representa refugiados

Borongo sugeriu que a população abra a mente e pare de olhar os dramas através de janelas seguras, sem fazer nada. Uma mensagem forte para uma obra impactante. Fiquei curiosa depois da polêmica e fui conhecer o mural da discórdia. Encontrá-lo demorou um pouco, pois ele fica escondido da rua principal, nos fundos de um condomínio e, como é verão, perdido também entre árvores. Não achei o grafite assustador como muitos alegavam. E, assim como boa parte das obras de arte, ele deixa espaço para reflexão.

Mas após alguns minutos em Tegel, entendi por que a peça causou tanta indignação: ela fica em uma área residencial de um bairro conservador. Natural que muitos não estivessem a fim de experimentos e de confrontação em seu ninho de tranquilidade. Se a obra estivesse em bairro mais alternativo, por exemplo, Kreuzberg, não teria causado polêmica, mas, provavelmente, uma discussão, talvez sobre exclusão e refugiados.

Para mim, o local escolhido para o mural da discórdia foi perfeito. Embora a comunidade continue organizada contra a obra, a polêmica a tornou conhecida e rendeu visibilidade e espaço na imprensa para a mensagem que o artista deseja transmitir. Tenho certeza de que toda a indignação contribuiu para que o desenho fosse visto por um número de pessoas bem maior do que seria se ficasse restrito a uma fachada de uma pequena rua nos fundos de Tegel.

Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às sextas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

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