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Brasil e América Latina estão a caminho de uma retomada?

Alexander Busch
Alexander Busch
23 de fevereiro de 2022

Startups e bolsas de valores latino-americanas estão atraindo capital estrangeiro como há muito tempo não acontecia. O que os investidores estrangeiros veem, que os locais não enxergam?

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Homem diante de painel eletrônico da bolsa de valores em São Paulo
Bolsas de valores no Brasil, Peru, Colômbia e Chile obtiveram ganhos significativos desde o início do anoFoto: Cris Faga/NurPhoto/picture alliance

Dezesseis novos "unicórnios" – empresas iniciantes de capital fechado avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares – surgiram na região em 2021, de acordo com a Associação para Investimento de Capital Privado na América Latina (Lavca, na sigla em inglês). Isso inclui empresas como a vendedora digital de móveis MadeiraMadeira ou a plataforma de criptomoedas Mercado Bitcoin, no Brasil; a fabricante chilena de alimentos à base de plantas NotCo; as prestadoras de serviços financeiros Ualá da Argentina e Clip do México.

Em 2021, cerca de US$ 15 bilhões (R$ 76 bilhões) fluíram para a América Latina como capital de risco. Isso é cerca de três vezes mais do que no ano recorde anterior de 2019. Para comparação: também em 2021, cerca de 25 bilhões de dólares (R$ 126 bilhões) de capital de risco fluíram para a Ásia (excluindo a China).

O interesse nas bolsas é igualmente alto: é principalmente o capital estrangeiro que movimenta os mercados de valores da região. As bolsas de valores não só no Brasil, mas também no Peru, Colômbia e Chile obtiveram ganhos significativos desde o início do ano – em total contraste com as principais bolsas da Europa, EUA ou Ásia.

Esse interesse por parte dos investidores estrangeiros é surpreendente: a América Latina vem crescendo abaixo da média há vários anos, especialmente as economias importantes, como Brasil, México e Argentina. Crises políticas e sociais também ameaçam países economicamente bem-sucedidos, como Peru e Chile. Além disso, a pandemia de covid-19 atingiu o continente de forma particularmente dura. Do ponto de vista tecnológico, também, a região não é especialmente conhecida por inovações ou corporações digitais globais.

Campo fértil para startups

Porém o atraso tecnológico, combinado com uma alta afinidade da população de quase 700 milhões com a internet, criou o terreno ideal para startups e seus investidores. Além disso, não só o Estado, mas também as empresas tradicionais da América Latina oferecem serviços pouco satisfatórios: por exemplo, em segurança, educação, saúde, habitação, infraestrutura, transporte, logística.

As recentes experiências negativas de investidores na China com controle estatal e intervenções em empresas listadas na bolsa também aumentaram adicionalmente o interesse dos investidores em startups e ações da América Latina.

Ao mesmo tempo, muitos investidores esperam que os preços das commodities subam, e apostam em mineradoras e empresas agrícolas, abundantes na América Latina.

O forte fluxo de capital estrangeiro para a região resultou num fortalecimento das moedas locais: não só no Brasil, como também no Peru, México e Chile, os pesos e o real subiram fortemente em relação ao dólar.

Ninguém esperava isso tampouco, pois é previsível que o Federal Reserve dos EUA aumentará em breve as taxas de juros, significando que o dinheiro ficará mais escasso no mundo. Isso geralmente acarreta uma evasão de capital de mercados emergentes de alto risco, como os da América Latina.

Na América Latina, a gente se pergunta agora, um tanto espantada: o que os investidores estrangeiros veem, que os investidores locais não conseguem enxergar?

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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil. Clique aqui para ler suas colunas.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.