″Bolsonaro legitima ações agressivas contra a imprensa″ | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 26.05.2020
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Liberdade de imprensa

"Bolsonaro legitima ações agressivas contra a imprensa"

Insultos e ameaças de militantes de extrema direita levam veículos de comunicação a suspender cobertura no Palácio da Alvorada. Para presidente da Abraji, comportamento de Bolsonaro incentiva hostilidades.

Nesta terça-feira (26/05), pela primeira vez no governo Jair Bolsonaro, repórteres de diversos veículos de comunicação não se deslocaram de manhã cedo para a porta do Palácio da Alvorada, em Brasília, para fazer perguntas ao presidente sobre temas relevantes ao país, devido à crescente hostilidade dirigida por militantes de extrema direita aos jornalistas no local.

A decisão de suspender temporariamente a cobertura jornalística na saída da residência oficial do presidente, com o objetivo de proteger a integridade física dos repórteres, foi tomada pelo jornal Folha de S. Paulo, pela TV Bandeirantes, pelos sites Metrópoles e UOL e por veículos do Grupo Globo, entre eles a TV Globo, a Globo News, os jornais O Globo e Valor Econômico e o portal G1.

O presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, afirmou à DW Brasil que a retirada dos jornalistas da porta do Alvorada é o capítulo mais recente de uma escalada de ataques à imprensa promovidos pelo próprio presidente da República e seu grupo político, que estimulam a hostilidade contra os repórteres e oferecem uma sensação de impunidade aos militantes, que decidem partir para a violência.

"As palavras do presidente acabam legitimando ações mais agressivas da militância, criam um clima de desconfiança na população sobre os jornalistas, e algumas pessoas mais exaltadas acabam partindo para a violência. (…) E como a maior autoridade da República não condena essas agressões, pelo contrário, segue com o discurso hostil, passa a impressão que não haverá punição a esse tipo de atitude", diz.

Träsel, que também é jornalista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirma que a hostilidade patrocinada por Bolsonaro contra a imprensa faz parte de uma estratégia política de mobilização de sua base. Além das agressões físicas, ele aponta que o assédio virtual contra os jornalistas tem sido um grande problema enfrentado pelos profissionais. E pondera que a decisão dos veículos de deixar a cobertura da porta do Alvorada é complexa do ponto de vista da ética jornalística.

DW Brasil: Como a Abraji avalia a decisão de grandes veículos de comunicação de tirarem seus repórteres da porta do Alvorada?

Marcelo Träsel: A Abraji apoia a decisão dos veículos que tiraram seus repórteres, mas não condena os veículos que optaram por deixar repórteres lá. É um debate complexo do ponto de vista da prática profissional e da ética jornalística.

Temos acompanhado os problemas que acontecem nessas entrevistas, emitimos diversas notas de repúdio por causa do comportamento do presidente nessas ocasiões, em que ele ofende os repórteres e faz críticas à imprensa. Há um clima constante de hostilidade, e mais recentemente falta de segurança, pois os jornalistas e os militantes que apoiam o governo compartilham o mesmo espaço. Tem havido agressões físicas de jornalistas em Brasília, e repórteres que estão na porta do Alvorada dizem que não têm garantias à sua integridade física.

Uma vez garantida a segurança dos jornalistas, a imprensa deveria ir à porta do Alvorada todas as manhãs, apesar dos repetidos ataques verbais do presidente à imprensa?

A Abraji não faz avaliações sobre decisões editoriais, e reconhece que existem bons motivos tanto para ficar quanto para sair de lá. A única recomendação é que a segurança dos jornalistas seja garantida.

Minha impressão particular, como jornalista e professor, é que essas entrevistas não têm oferecido notícias que justifiquem expor os jornalistas a uma humilhação constante. Como pesquisador, analiso essas entrevistas como uma peça na estratégia de propaganda política do presidente e do grupo politico que ele representa.

Muitas vezes a militância edita os vídeos e distribui por redes sociais trechos de Bolsonaro ofendendo repórteres e a mídia, para inflamar a base de apoio. Se a melhor forma de garantir a segurança é se retirar de lá, apoiamos a decisão, embora reconheçamos que se possa perder alguma declaração do presidente. Mas há outras formas de cobrir o governo, e Bolsonaro sempre se manifesta em outras ocasiões e faz lives.

As intimidações a repórteres feitas por militantes na porta do Alvorada se inserem em uma escalada de violência contra jornalistas, com diversos casos de agressões físicas. O presidente tem alguma responsabilidade por esses episódios?

Sim, o discurso de Bolsonaro nessas entrevistas e em diversas oportunidades é hostil à imprensa, colocando os jornalistas como inimigos do governo federal. As palavras do presidente acabam legitimando ações mais agressivas da militância, criam um clima de desconfiança na população sobre os jornalistas, e algumas pessoas mais exaltadas acabam partindo para a violência.

Se nós analisarmos o que essas pessoas dizem durante os vídeos, é praticamente o mesmo que o presidente diz sobre a imprensa. E como a maior autoridade da República não condena essas agressões, pelo contrário, segue com o discurso hostil, passa a impressão que não haverá punição a esse tipo de atitude.

Além de notas de repúdio, o que mais as associações de jornalistas ou de veículos de imprensa poderiam fazer para fazer frente a esses ataques? 

As associações têm o poder da pressão política. O próprio registro e denúncia internacional desses casos contribui para que haja pressão sobre o governo. Além disso, amanhã vamos lançar um convênio, junto com a OAB, pelo qual os jornalistas que forem assediados nas redes sociais poderão ter uma primeira orientação com um advogado para saber como proceder — além das agressões físicas, o assédio virtual tem sido um grande problema.

Recentemente a Abraji participou de uma audiência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, na qual foram expostas todas essas infrações à liberdade de imprensa que estamos vivenciando. Também estamos sempre telefonando para prefeitos e secretarias de comunicação pedindo explicações sobre casos de violação, e muita vezes esse contato já ajuda bastante.

O vice-presidente Hamilton Mourão publicou neste mês um artigo no qual afirma que a imprensa precisa "rever seus procedimentos" e defende que opiniões contrárias e favoráveis ao governo deveriam ter o mesmo espaço. No mês passado, o ministro general Ramos pediu que a imprensa desse notícias positivas em meio à pandemia. O governo tem uma boa compreensão de qual é o papel da imprensa livre?

Essas declarações deixam bastante claro que não tem. Muitas vezes as pessoas interpretam o noticiário sobre ações do governo com problemas ou casos de corrupção como uma campanha contra um determinado governo, mas isso parte de uma confusão entre Estado e governo. O papel da imprensa é fiscalizar as atividades do Estado, que é um patrimônio publico de todos nós. Portanto, deve fiscalizar como os governos e os servidores públicos estão se comportando em relação ao Estado.

A imprensa acaba sempre tendo uma relação tensa com os governos. Mas desde a redemocratização, com mais ou menos vontade, sempre houve uma relação cordial entre autoridades e imprensa. No atual governo, essa regra se quebrou. Isso se deve, por um lado, a essa falta de compreensão, mas também tem muito de uma estratégia política, de criar um conflito entre o governo federal e a imprensa, que parte do governo, porque a imprensa só está fazendo seu papel.

Como o sr. avalia a situação da liberdade de imprensa no Brasil no momento?

A liberdade de imprensa nunca esteve sob tanto risco no Brasil desde a redemocratização. Mas isso não quer dizer que estejamos numa situação tão ruim como a Nicarágua, a Venezuela ou a Hungria. Porém há vários sinais preocupantes.

Além das agressões físicas e dessa estratégia de se criar um conflito unilateral por parte do presidente, me pareceram muito graves as tentativas de pressão econômica. Houve a tentativa de excluir a Folha de S. Paulo de uma licitação para assinaturas de jornais.

Também tentaram mudar a regra que obriga a divulgação em jornais de relatórios financeiros de empresas listas em bolsa, bem quando o jornal Valor Econômico publicou uma reportagem crítica ao presidente, e o próprio presidente fez a relação entre sua decisão e a reportagem. E o presidente tem feito pedidos a empresários para que deixem de anunciar em alguns veículos.

Tudo isso é preocupante. Sem mencionar que temos muitos casos de assassinatos de jornalistas e comunicadores no interior, relacionados a disputas políticas em nível municipal, que ficam impunes.

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