Bolsonaro admite não ter provas de fraudes eleitorais | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 30.07.2021

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Brasil

Bolsonaro admite não ter provas de fraudes eleitorais

Em live, presidente insiste haver indícios de irregularidades e apresenta teorias e vídeos antigos e já desmentidos para desacreditar sistema eleitoral. TSE contesta alegações em tempo real.

 Jair Bolsonaro

Bolsonaro já fez várias alegações de fraudes em eleições passadas, sem nunca apresentar provas

Após anunciar que finalmente apresentaria provas de fraudes eleitorais nesta quinta-feira (29/07), mais de um ano depois de afirmar que as tinha em mãos, o presidente Jair Bolsonaro admitiu não ter provas, mas apenas indícios de que irregularidades podem ocorrer.

Em live para a qual convocou veículos de imprensa, Bolsonaro exibiu uma série de teorias falsas, cálculos equivocados e vídeos antigos, já verificados e desmentidos, mas que ainda circulam na internet, como supostas evidências de fraude no sistema eleitoral.

Na transmissão, que durou mais de duas horas, o presidente apareceu ao lado de um homem que apresentou apenas como "Eduardo, analista de inteligência". Somente ao fim da live o governo disse se tratar do coronel do exército Eduardo Gomes da Silva, ex-assessor especial do ministro Luiz Eduardo Ramos na Casa Civil.

Segundo Bolsonaro, hoje o coronel trabalha para a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), e, em currículo apresentado pelo Planalto, não consta qualquer especialização na área de segurança da informação, noticiou o portal G1. 

"Esses vídeos, todos eles estão disponíveis na internet. E por que nós fizemos questão de buscar nessa fonte? Porque é o povo. Essas pessoas não foram pagas para fazer isso, elas demonstraram interesse em ter uma democracia melhor, mais avançada, mais justa e transparente", disse Gomes da Silva antes de apresentar os vídeos com supostos indícios de brechas no sistema.

Presidente é desmentido em tempo real

O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desmentiu no Twitter e em seu site alegações feitas na live durante a transmissão. Serviços de checagem como Lupa e Aos Fatos também apontaram como falsos vários dos pontos levantados na live.

Entre o material exibido está um vídeo em que um programador dizia simular o código-fonte de uma urna eletrônica e mostrar maneiras de fraudar o sistema. Em um dos links compilados no site do TSE, o tribunal esclarece que "uma urna eletrônica real não é tão simples nem desprotegida como aquela apresentada no vídeo".

Jair Bolsonaro

Live de Bolsonaro durou mais de duas horas

"Além disso, há meios de auditoria para se verificar se os softwares e firmwares executados na urna contêm algum mecanismo malicioso, como o exposto no vídeo. Há também todo um conjunto de procedimentos que impede a recepção de resultados ilegítimos provenientes de eventuais equipamentos clonados ou gerados por softwares ilegítimos", diz a nota, publicada originalmente em novembro de 2020.

Em um de seus tuítes, o TSE também contestou a afirmação de Bolsonaro de que a apuração dos votos é feita "numa sala secreta". "A apuração dos resultados é feita automaticamente pela #UrnaEletrônica ao encerramento da votação. Os dados criptografados são transmitidos ao @TSEjusbr, que checa a autenticidade/integridade e faz a totalização, em processo PÚBLICO e auditável", diz a postagem do tribunal, com link para um texto com mais informações sobre o assunto.

O TSE também rebateu a declaração de Bolsonaro de que o sistema de votação eletrônica adotado pelo Brasil só é usado no Butão e em Bangladesh. O tribunal divulgou um vídeo em que aponta que pelo menos 46 países utilizam votação eletrônica em algum tipo de eleição, e que 16 países, incluindo o Brasil, não usam boletins de papel e registram o voto eletronicamente.

"Discurso de quem não aceita a democracia"

Críticos apontam que Bolsonaro, assim como fez o ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos, semeia dúvidas sobre o processo eleitoral para abrir o caminho para não aceitar o resultado do pleito presidencial de 2022 caso seja derrotado.

Em março de 2018, Bolsonaro disse ter provas de que venceu o pleito de 2018 já no primeiro turno e que seria necessário aprovar "um sistema seguro de apuração de votos".

O presidente afirmou diversas outras vezes, sem nunca apresentar provas, que o sistema eleitoral brasileiro é vulnerável e que houve fraude nas eleições anteriores. E sinalizou que poderia não reconhecer o resultado em 2022 se não fosse adotado o voto impresso – que ele chama de auditável, apesar de a urna eletrônica já ser auditável, segundo garante o TSE.

Na semana passada, Barroso e vários outros representantes dos três Poderes reagiram a uma ameaçasupostamente feita pelo ministro da Defesa, Walter Braga Netto. Segundo reportagem do Estado de S. Paulo, ele teria dito que o Brasil não teria eleições em 2022 caso não fosse aprovada pela Câmara a chamada proposta do voto impresso auditável.

"Temos uma Constituição em vigor, instituições funcionando, imprensa livre e sociedade consciente e mobilizada em favor da democracia", escreveu o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, nas redes sociais após a suposta ameaça.

O ministro tem se posicionado contra o voto impresso e já reafirmou que jamais foi registrado caso de fraude desde a implementação das urnas eletrônicas, em 1996, que o sistema de urnas eletrônicas é íntegro e permitiu a alternância no poder.

Nesta quinta-feira, Barroso afirmou: "O discurso de que 'se eu perder houve fraude' é um discurso de quem não aceita a democracia."

Para especialistas ouvidos pela Folha de S. Paulo, as alegações contra o sistema eleitoral feitas por Bolsonaro na live desta quinta contêm elementos que podem ser enquadrados em crimes de responsabilidade previstos na lei que regulamenta o impeachment.

lf (Reuters, ots)

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