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Fiéis de igreja evangélica com as mãos erguidas e, ao fundo, uma bandeira do Brasil
Bolsonaro aproximou-se dos evangélicos já durante a campanha de 2018, em torno de pautas conservadoras de forte apelo moralFoto: Evaristo Sa/AFP/Getty Images

Bolsonaro abre vantagem entre evangélicos, aponta Datafolha

19 de agosto de 2022

Presidente aparece 17 pontos à frente de Lula nesse segmento, sete a mais do que em julho, mas ainda está bem abaixo de seu desempenho em 2018. Pauta religiosa aparece com força na largada da campanha ao Planalto.

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O presidente Jair Bolsonaro (PL) ampliou sua vantagem sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no eleitorado evangélico, que agora é de 17 pontos percentuais, segundo a última pesquisa do Datafolha sobre a disputa ao Planalto, divulgada na quinta-feira (18/08).

Bolsonaro tem 49% das intenções de voto nesse segmento, contra 32% de Lula. A distância entre os dois principais candidatos à Presidência entre os evangélicos vem se ampliando mês a mês. Em maio, a dianteira do presidente era de 3 pontos, em junho, de 5 pontos, e em julho, de 10 pontos.

Na amostra do Datafolha, 25% dos eleitores se declararam evangélicos, e a margem de erro é de 3 pontos percentuais nesse segmento. A pesquisa foi realizada de terça a quinta-feira desta semana, e entrevistou 5.744 pessoas em 281 municípios.

Bolsonaro, que se declara católico, aproximou-se dos evangélicos já durante a campanha de 2018, em torno de pautas conservadoras de forte apelo moral, como aborto e drogas, e construiu proximidade com parte desse eleitorado. Na eleição passada, ele recebeu quase 70% dos votos evangélicos no segundo turno, segundo estimativa do Datafolha.

Religião na campanha

Uma das apostas do presidente para tentar aumentar suas chances de ir ao segundo turno e vencer Lula é exatamente o eleitorado evangélico, o que se reflete na sua retórica e agenda de campanha. No final de julho, em seu discurso de lançamento da candidatura, Bolsonaro fez sete menções a Deus – sua esposa, a protestante Michelle Bolsonaro, o invocou outras 27 vezes no palanque.

Na ocasião, Michelle apresentou o marido como um "escolhido de Deus" que tem um "projeto de libertação para a nossa nação", aconselhou a plateia a não negociar com o mal e foi festejada aos gritos de "aleluia".

Nos últimos meses, Bolsonaro tem ido a eventos evangélicos com frequência quase semanal. Só em julho, esteve em diversos encontros com fiéis no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Ceará, Espírito Santo e Rio Grande do Norte. Ao longo da corrida ao Planalto, o presidente seguirá participando presencialmente e por vídeo de cultos organizados por lideranças evangélicas – assim como outros candidatos.

Fiéis em uma arquibancada com os braços erguidos. Num telão, a imagem de Bolsonaro e Michelle
Bolsonaro e sua esposa, Michelle, participam de culto evangélico em Belo Horizonte, em 7 de agostoFoto: Douglas Magno/AFP

Em 8 de agosto, Michelle compartilhou em suas redes sociais um vídeo que mostrava Lula participando de um ritual da umbanda em agosto de 2021, com o comentário: "Isso pode, né! Eu falar de Deus, não". O deputado Marcos Feliciano, que é pastor evangélico e apoiador de Bolsonaro, afirmou no último domingo à rádio CBN que "alertou" os fiéis sobre uma suposta "perseguição" de Lula que poderia "culminar no fechamento de igrejas". O PT rebateu a fala de Feliciano, que classificou como fake news, e na quarta-feira ingressou com uma ação na Justiça para que o deputado apresente provas de sua acusação.

Lula também vem tentando ampliar seu apoio entre esse eleitorado – o PT criou neste ano núcleos evangélicos em 21 estados – enquanto busca diferenciar sua abordagem sobre a interface entre política e religião em relação à de Bolsonaro.

No lançamento de sua campanha, nesta terça-feira, Lula afirmou que o presidente tentar manipular a boa-fé de evangélicos, mas disse que ele era "possuído pelo demônio". Nesta quarta-feira, ele afirmou em suas redes sociais: "Eu sou candidato do povo brasileiro, e quero tratar todas as religiões com respeito. Religião é para cuidar da fé, não para fazer política. Eu faço campanha eleitoral respeitando religião, e não uso o nome de Deus em vão."

A sua esposa, Janja, também vem reagindo às investidas da campanha de Bolsonaro nesse tema. Ao responder ao vídeo compartilhado por Michelle de Lula em um ritual da umbanda, ela afirmou: "Eu aprendi que Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e de respeito. Não importa qual a religião e qual o credo."

Cenário geral

Apesar do seu crescimento no segmento evangélico, há dúvidas se Bolsonaro conseguirá repetir neste ano sua performance de 2018 nesse eleitorado, devido ao desgaste dos quatro anos de seu governo.

"Bolsonaro vai continuar apostando nessa pauta porque não tem outra opção, mas não acredito que terá o mesmo papel e visibilidade que teve em 2018, porque a vida das pessoas piorou e elas sabem disso", afirmou Ana Carolina Evangelista, diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (Iser), à DW no início de agosto. "Se antes o Bolsonaro conseguia se descolar dos problemas do país, hoje, depois de quatro anos no poder, isso já não é mais possível."

Por outro lado, o vínculo entre a plataforma ultraconservadora bolsonarista e segmentos importantes dos evangélicos deve permanecer mesmo no caso de uma derrota do presidente. O percentual dos evangélicos na população brasileira seguirá crescendo, e pode superar o dos católicos em 2032, impondo desafios a partidos de centro-esquerda que busquem dialogar com esse eleitorado.

Entre os católicos, que representam 53% da amostra do Datafolha, Lula tem 52% das intenções de voto, contra 27% de Bolsonaro, segundo o último levantamento do instituto.

Na amostra geral, o petista pontou 47%, contra 32% de Bolsonaro. Se forem considerados apenas os votos válidos, o petista tem 51%, dentro da margem de erro para uma vitória apertada no primeiro turno.

bl/lf (DW, ots)