A real influência da França no Líbano | Notícias internacionais e análises | DW | 07.08.2020

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Oriente Médio

A real influência da França no Líbano

Macron é primeiro a visitar Beirute depois da explosão, promete ajuda e cobra reformas. Laços da França com o país árabe são antigos, mas especialistas afirmam que potência europeia não tem mais influência que já teve.

Emmanuel Macron no local da explosão no porto de Beirute

Macron foi o primeiro líder ocidental a visitar os escombros da explosão em Beirute

Não é acaso que o presidente Emmanuel Macron tenha sido o primeiro líder ocidental a visitar os escombros da explosão em Beirute. Os laços da França com o Líbano são fortes e antigos. Com o fim do Império Otomano, depois da Primeira Guerra Mundial, a França recebeu um mandato da Liga das Nações, a antecessora da ONU, para a administração e construção do Líbano.

A relação se manteve mesmo depois da independência do Líbano, em 1943. Uma parte da elite libanesa fala, até hoje, francês. Muitas escolas dão aulas em francês. Muitos libaneses ricos têm uma segunda residência na França. A parcela cristã da sociedade libanesa, que corresponde a 39% da população, vê na França uma espécie de potência protetora.

Durante sua visita, Macron prometeu ajuda, mas exigiu um novo sistema político. Isso seria interferir em assuntos internos? Não, afirma o professor Maximilian Felsch, da Universidade Haigazian de Beirute. "É do interesse da França manter boas relações com os países francófanos do Oriente Médio e também da África", comenta. Se a França estiver disposta a ajudar, será bem-recebida. "Não ouço ninguém chamando isso de intervenção pós-colonialista."

Depois da visita, Macron disse que não se trata de "uma solução francesa", mas de uma "nova ordem política" para o país. Ele também anunciou uma conferência internacional de doadores para o Líbano. Três aviões franceses com artigos de primeira necessidade foram enviados ao país, e um navio de guerra com medicamentos e socorristas está a caminho. Macron pretende retornar a Beirute já no dia 1º de setembro para inspecionar a situação da ajuda.

O governo do Líbano é incompetente em todos os níveis, diz Felsch, que teve sua residência em Beirute fortemente afetada pela explosão. Segundo ele, os cargos na administração pública foram divididos por grupos religiosos, que se combatem uns aos outros. O Estado está falido. Não há fornecimento de energia elétrica e água nem recolhimento de lixo. A inflação é galopante, e a economia está arrasada.

"Numa situação como essa, é compreensível que alguém espere ser libertado dessa liderança política. Qualquer coisa é melhor do que isso. Por isso consigo entender que a maioria dos libaneses, se isso for mesmo possível, prefira que uma potência externa assuma o controle", diz Felsch.

O especialista em Oriente Médio Elie Abouaoun considera improvável, porém, que a França possa ser essa potência. "A França perdeu muita influência na comparação com a situação de 20 ou 30 anos atrás. Isso tem muitos motivos e vale não só para o Líbano, mas para toda a região", diz Abouaoun, que dirige o escritório em Túnis do Instituto dos Estados Unidos para a Paz, uma organização americana para a resolução de conflitos.

Ele concorda que ainda existe uma relação afetiva entre franceses e libaneses, e essa pode influenciar a opinião pública no Líbano. "Mas pudemos ver em várias oportunidades que decisões do governo libanês não são mais influenciadas por aquilo que os franceses dizem."

Muito mais decisiva, diz Abouaoun, é a influência do grupo xiita libanês Hisbolá, que é apoiado pelo Irã e classificado como organização terrorista pela União Europeia (UE). O grupo participa do governo, mantém sua própria milícia e controla também o porto de Beirute, onde aconteceu a explosão e onde o nitrato de amônio esteve armazenado por anos.

Muitos libaneses veem toda a elite do país como corrupta e esperam que ela seja afastada do poder, diz Abouaoun. "Não consigo ver a França apoiar essa exigência de uma maioria crescente da população, que quer afastar a elite corrupta. A França tem seus aliados nesse grupo e relações com essa elite. Isso limita as opções do país de ser o principal 'influencer' no Líbano."

Segundo o especialista, as forças anti-establishment ainda não atingiram a "massa crítica" da população. Os partidos tradicionais, que estão em linha com a divisão religiosa, ainda têm muito apoio, apesar de ele estar diminuindo. Os xiitas e os sunitas são, cada um, 27% da população. As confissões cristãs somam 39%, e o drusos, 5%.

Entre as potências regionais, nenhuma tem tanta influência no Líbano como o Irã, justamente por intermédio do Hisbolá. A Arábia Saudita, maior rival do Irã, perdeu influência nos últimos anos. Os Estados Unidos ensaiam já há alguns meses um retorno. Os esforços da Rússia e da Turquia ainda não foram bem-sucedidos. Para Abouaoun, a iniciativa de Macron pouco mudará nesse equilíbrio de forças. "Ela poderá elevar um pouco a influência dele no Líbano, mas não vejo nenhuma mudança fundamental."

Além da França, muitos outros países prometeram ajuda, como os Estados Unidos e a Alemanha. A União Europeia também já mobilizou alguns milhões de euros. No próximo sábado (08/08), o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, viajará para Beirute em nome dos países da União Europeia. Ele declarou que seria melhor se todos os países da UE, também a França, coordenassem suas iniciativas políticas e não se precipitassem, como Macron fez.

Felsch se mostra cético em relação aos próximos desdobramentos. Ele diz que poderão surgir conflitos entre os grupos religiosos, pois o responsável pelo armazenamento do material explosivo era o grupo xiita Hisbolá, e os bairros mais atingidos pela explosão são de maioria cristã.

"Pode-se temer que essa crise evolua rapidamente para uma espécie de conflito religioso", avalia Felsch. De um lado estariam os cristãos, que desejam a França como potência protetora, e do outro os xiitas, que querem defender a influência do Hisbolá e, com isso, a do Irã.

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