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HistóriaAlemanha

Sobrevivente do Holocausto: "Fomos desumanizados"

27 de janeiro de 2026

Assinala-se esta terça-feira o Dia em Memória das Vítimas do Holocausto, 81 anos após a libertação de Auschwitz. Aos 100 anos, Leon Weintraub recorda a fome e os campos de extermínio, para que nada seja esquecido.

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Leon Weintraub, uma das últimas testemunhas vivas do Holocausto
Leon Weintraub é uma das últimas testemunhas vivas do HolocaustoFoto: Swen Pförtner/dpa/picture alliance

Assinala se esta terça-feira (27.01) o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, 81 anos após a libertação do campo de concentração nazi de Auschwitz.

A fome terrível e a crueldade dos guardas no campo de concentração continuam, até hoje, impossíveis de esquecer para Leon Weintraub, de 100 anos. Incansável, luta para que a memória do Holocausto não se apague.

Leon Weintraub ainda se lembra do dia em que os nazis marcharam para a sua cidade natal polaca, Łódź, a 9 de setembro de 1939.

"Lá vinham eles, filas aparentemente intermináveis de jovens soldados altos e saudáveis, com uniformes verdes da Wehrmacht. Só de pensar no som das suas botas sobre a calçada sinto ainda um arrepio gelado a percorrer-me a espinha", conta à DW. "Exalavam tanto poder e esmagavam tudo o que lhes aparecesse no caminho."

Weintraub tinha apenas 13 anos e não fazia ideia dos horrores que o aguardavam. Vivia num bairro pobre com as quatro irmãs e a mãe, que tinha uma pequena lavandaria. O pai tinha morrido quando ele mal tinha dois anos. A família, muito unida, apoiava-se mutuamente. Leon era um rapaz inteligente.

"Ler livros e ver filmes era como um buraco de fechadura para mim, que me permitia espreitar para outro mundo", diz.

Polónia, Lodz, 1941 | Equipa de filmagens de uma companhia de propaganda da Wehrmacht no gueto
Os alemães tomaram Łódź sem resistênciaFoto: akg-images/picture alliance

Confinado atrás dos muros do gueto

Graças a uma bolsa de estudos, Weintraub conseguiu frequentar o liceu. No entanto, isso terminou em fevereiro de 1940, quando ele e a família foram forçados a mudar-se para o gueto de Łódź, onde 160 mil judeus foram amontoados. Quem tentasse fugir era abatido a tiro.

Os habitantes do gueto eram sujeitos a trabalhos forçados. Leon trabalhava na secção de metal de uma oficina eléctrica. O Judenrat, conselhos judaicos obrigatórios criados sob ocupação nazi, dizia-lhe que aqueles que fossem úteis aos nazis tinham maiores probabilidades de sobreviver.

Polícia judeu e soldado alemão no gueto dividido
Polónia, Lodz, 1940: Polícia judeu e soldado alemão no gueto divididoFoto: UIG/Bildagentur-online/picture alliance

Muitas pessoas no gueto morreram de doença e de fome. "Por isso, a palavra ‘fome' tem um lugar muito especial no meu vocabulário, na minha mente e no meu ser", afirma Weintraub. Hoje, as pessoas dizem muitas vezes que têm fome quando saltam uma refeição, mas "isso não é fome verdadeira, é apenas aumento de apetite", diz.

"Durante cinco anos, sete meses e três semanas, salvo uma única ocasião, sofri literalmente de inanição. Não conseguia adormecer por causa da pressão dolorosa no estômago e acordava com a mesma dor. O meu único pensamento era como arranjar algo para comer e encher o estômago", recorda.

Gueto de Litzmannstadt, Polónia, 1943 | Permissão de trabalho de Weintraub no gueto
Os residentes do gueto que trabalhavam para os nazis tinham uma maior probabilidade de sobreviverFoto: Jacob Bjelfvenstam/DW

Deportação para Auschwitz-Birkenau

No verão de 1944, o gueto foi encerrado. O presidente do distrito da região, Friedrich Übelhöhe, já tinha feito circular, em 1939, uma carta aos dirigentes nazis na qual escrevia: "A criação do gueto é, naturalmente, apenas uma medida temporária. Reservo-me o direito de decidir quando e por que meios o gueto e a cidade de Łódź serão limpos de judeus. Em qualquer caso, o objectivo final tem de ser a erradicação desta praga."

Apesar disso, os habitantes do gueto foram cinicamente informados de que poderiam trabalhar noutro local "para o bem do Terceiro Reich". 

Gueto de Litzmannstadt, Polónia | Funcionários da oficina elétrica com uvas
Leon Weintraub (o segundo a contar da direita, à frente) trabalhava como eletricista no gueto de LitzmannstadtFoto: Jacob Bjelfvenstam/DW

Como muitos outros, Leon Weintraub foi deportado para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Os nazis afirmavam que se tratava apenas de mais um gueto.

"Depois chegou o comboio de mercadorias, mais apropriado para transportar gado do que pessoas", recorda Weintraub. "Estávamos tão apertados que só podíamos ficar de pé. As portas foram trancadas; não havia comida, nada para beber. A noite caiu, depois rompeu o dia, e depois voltou a cair a noite." O cheiro do balde usado como sanita dominava tudo.

A certa altura, as portas foram escancaradas e alguém gritou: "Fora, fora." Weintraub lembra-se de que ainda não percebia para onde os nazis os estavam a levar. Gritou para a mãe: "Vemo-nos lá dentro." Mas depressa percebeu que tinha acabado noutro gueto.

Pelo canto do olho, notou que a vedação de arame farpado estava electrificada. Weintraub viu a mãe pela última vez durante a chamada "seleção". Os oficiais da SS decidiam sobre a vida e a morte com um simples gesto: "Polegar para a direita: inapto para o trabalho; polegar para a esquerda: morte adiada", relata Weintraub. A mãe foi morta na câmara de gás nesse mesmo dia.

Campo de concentração | Auschwitz-Birkenau
Ao chegarem a Auschwitz-Birkenau, as pessoas eram selecionadas pelos nazisFoto: picture-alliance/dpa/Mary Evans Picture Library

Para Leon, então com 18 anos, o polegar apontou para a direita. "E foi então que começou o processo de desumanização", recorda. As pessoas eram despidas, duchadas, rapadas e desinfetadas. "Roubaram-nos toda a vontade humana. Controlavam-nos e não tínhamos outra escolha senão obedecer às ordens."

Escapar à câmara de gás

Quando Leon Weintraub pensa em Auschwitz, o cheiro a carne queimada é o que mais lhe vem à mente. "Não fazia ideia", diz, "de que as chaminés altas e o fumo negro espesso estavam a queimar seres humanos." No entanto, conta que se isolou da realidade como forma de autopreservação: "Caso contrário, não teria conseguido aguentar."

Por puro acaso, sobreviveu ao campo de extermínio. Os jovens prisioneiros do Bloco 10, onde ele estava detido, já tinham sido destinados à câmara de gás. Quando os guardas não estavam por perto, Weintraub misturou-se com um grupo de prisioneiros nus que iam ser enviados para trabalhar no campo de Gross-Rosen. Tinham acabado de receber os números de prisioneiro tatuados no braço. "Quando chegámos ao armazém de roupa, felizmente ninguém me verificou; caso contrário, eu teria morrido."

A última imagem de Auschwitz que carrega consigo é o cadáver de uma mulher que se tinha suicidado, com o corpo pendurado numa vedação elétrica.

Sobrevivência contra todas as probabilidades e fuga

As paragens seguintes de Weintraub foram os campos de concentração de Gross-Rosen, Flossenbürg e Natzweiler-Struthof. As imagens das atrocidades sádicas dos nazis ficaram profundamente gravadas na sua memória: espancamentos brutais e arbitrários de prisioneiros que passavam, humilhações e enforcamentos.

"Cada vez que vou a Flossenbürg, as minhas pernas tremem", conta à DW. "Fico paralisado durante alguns segundos porque sou transportado de volta àquele inverno, sentindo aquele vento gelado. Toda a multidão atravessa a praça da chamada. É uma imagem apocalíptica."

Pouco antes do fim da guerra, Weintraub foi transportado num comboio que deveria ser afundado no Lago de Constança. No entanto, a locomotiva foi atacada por aviões franceses, e Leon conseguiu escapar. Quando encontrou um soldado francês, percebeu que o seu calvário tinha finalmente terminado. Na altura, o jovem de 19 anos pesava apenas 35 quilos e sofria de tifo. Chorou a perda da família até descobrir, por acaso, que três das suas irmãs tinham sobrevivido ao campo de concentração de Bergen-Belsen. "Foi aí que voltei a ser humano. Foi o início do meu caminho de regresso à vida", diz.

Alemanha, Bergen-Belsen, 1945 | Weintraub com irmãs e primos no campo de deslocados
Leon Weintraub (ao centro) reencontrou as suas irmãs no campo de deslocados de Bergen-Belsen (deslocados eram pessoas que foram deslocadas ou deportadas devido à guerra)Foto: Jacob Bjelfvenstam/DW

Vida no pós-guerra e memória

Após a experiência com a doença e a morte, Weintraub decidiu tornar-se ginecologista e obstetra. Queria dedicar a vida a trazer nova vida ao mundo.

Em 1946, o governo militar britânico organizou os seus estudos em Göttingen, na Alemanha, a terra dos perpetradores. Como médico, confrontou-se directamente com a inexistência de qualquer base científica válida para a ideologia racial nazi.

Em 1950, regressou à sua terra natal, mas emigrou para a Suécia em 1969 devido ao crescimento do antissemitismo na Polónia. Passou a defender a importância da memória, encarando-a como um dever para com os familiares assassinados e os milhões de vítimas inocentes. Alertou que deixar a sua memória desaparecer seria como lhes roubar a vida uma segunda vez.

Leon Weintraub discursa em 2023, no 78º aniversário da libertação do campo de concentração de Flossenbürg
Leon Weintraub discursa em 2023, no 78º aniversário da libertação do campo de concentração de FlossenbürgFoto: Daniel Karmann/dpa/picture alliance

É também por isso que decidiu preservar o seu testemunho sob a forma de um holograma.

"Mal passou o tempo de uma vida humana e muitos jovens hoje já não sabem o que foi o Holocausto", afirma. "É terrível que haja novamente pessoas a apelarem a pogroms e que haja quem tenha medo de sair à rua a usar uma quipá."

Apesar de tudo, Weintraub mantém-se optimista: "Estou convencido de que, em algum momento, o bom senso prevalecerá e a humanidade perceberá que é tempo de deixar de se acusar e combater mutuamente e de construir, em conjunto, um futuro pacífico."

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