Que legado deixa Abdelaziz Bouteflika para a Argélia? | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 21.09.2021

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Internacional

Que legado deixa Abdelaziz Bouteflika para a Argélia?

De herói da independência e conciliador nacional a vilão para a democracia, o que Bouteflika deixa ao povo argelino? Por mais de meio século, o líder estabeleceu caminhos para o país e inspirou uma geração de políticos.

Quando Abdelaziz Bouteflika quis candidatar-se novamente à presidência em 2019, aparentemente subestimou o descontentamento dos seus compatriotas. Milhares de eleitores argelinos protestaram para exigir que o Presidente, já bastante idoso, se retirasse da cena política do país. Bouteflika já vinha tendo há alguns anos poucas aparições públicas e sua morte foi noticiada pela televisão pública argelina na sexta-feira (17.09). O Presidente que estava há 20 anos no poder decidiu retirar a sua candidatura e abrir espaço para o seu sucessor Abdelmadjid Tebboune.

Nos últimos anos, Bouteflika era visto como um Presidente quase simbólico. Após sofrer um AVC em 2013, passou a usar cadeiras de rodas e sua presença em eventos tornou-se rara. Mesmo a sua candidatura em 2019, segundo o que se divulgou na ocasião, não se deveu à sua vontade, mas ao grupo político que o sustentava no poder.

Algerien, Algier: Demonstranten fordern Rücktritt von Präsident Abdelaziz Bouteflika

Em protestos, dezenas de milhares de argelinos exigiram a demissão de Bouteflika

O combatente "El Mali"

Bouteflika ajudou a determinar o destino da Argélia durante meio século. O antigo Presidente nasceu em 1937 em Oujda, no leste do Marrocos. Filho de pais de origem argelina que dirigiam um banho mouro na cidade, ele fez campanha pela independência da Argélia quando era muito jovem, com o nome de guerra "Si Abdelkader El Mali".

Em 1954, juntou-se à recém-fundada Frente Nacional de Libertação (FLN). Como confidente do último Presidente argelino, coronel Houari Boumédiène, Bouteflika fez carreira militar e ganhou notoriedade.

A sua filiação na FLN e os seus contatos permitiram-lhe subir rapidamente na política após a independência da Argélia em 1962. Com apenas 25 anos, tornou-se ministro da Juventude, Desportos e Turismo. Um ano mais tarde, já era ministro dos Negócios Estrangeiros, cargo que ocupou até 1979.

Nessa altura, Bouteflika fez de si e do seu país o porta-voz dos Estados árabes e do Movimento dos Não-Alinhados - que não pertencia a nenhum bloco militar e permaneceu neutro na Guerra Fria. Isto não impediu Bouteflika de estabelecer contatos estreitos com os países socialistas do bloco do Leste. Ao mesmo tempo, tentou também estabelecer boas relações com a França, a antiga potência colonial.

Abdelaziz Bouteflika

Bouteflika em 1978, em visita a Paris como ministro do Exterior da Argélia

No exílio

A carreira política de Bouteflika, contudo, foi abruptamente interrompida. Em 1978, após a morte do seu mentor militar e político, Houari Boumédiène - que esteve à frente do Governo desde o golpe militar em 1965. Havia inicialmente indícios de que Bouteflika iria suceder-lhe. Mas os seus opositores militares ressentiram-se do facto de ele tentar reduzir o seu poder.

As rivalidades partidárias e as alegações de corrupção levaram à expulsão de Bouteflika da FLN e forçaram-no ao exílio na Suíça, França e Emirados Árabes Unidos, em 1978. Nestes países, ele trabalhou como conselheiro político e regressou à Argélia em 1987.

Neste período, testemunhou a sua pátria caminhar inexoravelmente para a guerra civil. Na década de 1980, a Argélia atravessou uma grave crise económica. Cada vez mais pessoas simpatizaram com islamistas radicais.

Quando o seu partido, a Frente de Salvação Islâmica (FIS), parecia estar a ganhar as eleições parlamentares de 1991/92, o Governo cancelou o escrutínio. O país ingressou num espiral de violência e uma guerra civil entre islamistas radicais e o Estado iniciou-se. Mais de 120 mil pessoas morreram em sangrentas batalhas.

Algerien | Ausschreitungen bei Protesten der Islamischen Heilsfront, 1991

Motins em protestos da Frente de Salvação Islâmica (FIS) em 1991

"Morrer pela paz"

Foi finalmente Bouteflika que, após sete anos, ajudou decisivamente a pôr fim à guerra civil: "Estou determinado a fazer a paz e pronto a morrer por ela", disse ele num discurso à população imediatamente após a sua eleição como Presidente argelino, em 1999.

O novo Presidente enfrentou uma enorme tarefa: teve de conduzir o país de volta à paz para o bem e unir a sociedade dividida.

A princípio, porém, os críticos queixaram-se de que os seus rivais do gabinete tinham sido persuadidos a retirar as suas candidaturas por meios por vezes questionáveis. Mas depois defendeu a reconciliação nacional.  A condição para isso seria a amnistia geral para os criminosos de guerra, tanto do lado militar como do lado islâmico.

Jacques Chirac und Abdelaziz Bouteflika

Bouteflika e Chirac durante encontro em Paris

Um legado difícil

Em 2000, dirigiu-se ao Parlamento francês durante uma visita de Estado. Bouteflika deixou claro o interesse da Argélia por relações "excecionais, não banais, não normais, exemplares" com a França. Com o então Presidente francês Jacques Chirac, ele planeou um tratado de amizade entre os dois países, mas este não foi implementado até à data. Os estreitos laços económicos e os cerca de 1,7 milhão de argelinos que vivem em França ligam, no entanto, os dois países, tal como o difícil legado da história colonial.

"Tenho ouvido de todos os lados que o país precisa de mim. Sinto-me honrado por este apelo. Não posso ignorar a vontade do povo", disse Bouteflika, em abril de 2009. O político concorreu novamente à presidência após o final do segundo mandato. O facto de isto ser proibido pela Constituição à época foi apenas um pequeno "detalhe". O parágrafo em questão foi alterado e Bouteflika candidatou-se às eleições e ganhou, pelo menos oficialmente.

Durante algum tempo, o Governo de Bouteflika significou estabilidade para o país. A riqueza petrolífera trouxe mais dinheiro do que nunca. Mas o preço do petróleo caiu e colocou a economia argelina, dependente da exportação do crude, sob pressão.

A taxa de desemprego estagnou em cerca 10%, e mais de um quarto da população ainda não sabe ler nem escrever. Sem perspetivas, muitos jovens argelinos querem deixar o país. A corrupção desenfreada não lhes deixa qualquer hipótese de encontrar empregos adequados.

Angela Merkel und Abdelaziz Bouteflika

Merkel e Bouteflika em encontro em 2018

Resistência a Bouteflika

Estas queixas também conduziram os argelinos às ruas na Primavera de 2011, no decurso da "Primavera Árabe". Bouteflika tentou apaziguar os manifestantes com promessas políticas - tais como uma revisão da Constituição e da Lei Eleitoral. Estas promessas não foram cumpridas.

Consequentemente, o seu sucessor Abdelmadjid Tebboune teve dificuldades de ganhar a confiança dos argelinos desde o início. Muitos tinham esperado uma mudança mais radical do sistema. Contudo, o Estado argelino reagiu duramente aos protestos do movimento de massas "Hirak", centenas de ativistas foram presos. Mas, ao mesmo tempo, Tebboune dissolveu a Assembleia Nacional em fevereiro de 2021 e remodelou o Governo.

O próprio Bouteflika aparentemente não tinha força para reformas fundamentais. "A geração que libertou o país chegou ao seu fim", já tinha proclamado num comício eleitoral em maio de 2012. "Prepara-te para tomar as rédeas nas tuas mãos", exortou os jovens argelinos.

Estes escorregaram visivelmente das suas mãos à medida que a sua saúde continuava a deteriorar-se. Em 2013, sofreu o seu primeiro AVC, e já tinha sido diagnosticado com cancro de estômago. O Presidente passou os últimos anos da sua vida isolado do público e foi repetidamente tratado em clínicas europeias. Morreu aos 84 anos de idade, de acordo com o Gabinete presidencial em Argel.

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