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Insurgência deve ir ao Conselho de Segurança da ONU

3 de agosto de 2020

É o que defende especialista nos PALOP com influência islâmica Raúl Pires. Este entende que a aposta do Governo em mercenários cria "certas desconfianças na população" e revela "uma vulnerabilidade do Estado".

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Foto: AFP/J. Nhamirre

De acordo com dados não oficiais, o Governo moçambicano tem se desdobrado em esforços para obter, junto de parceiros internacionais, apoio militar para combater os insurgentes em Cabo Delgado. Contudo, há algumas dúvidas sobre essas ajudas.

Em entrevista à DW África, o especialista Raúl Pires questiona as medidas adotadas pelo Governo moçambicano até ao momento, nomeadamente a contratação de empresas de segurança privada.

DW África: Existe uma força especializada para combater o tipo de insurgência que se vive no norte de Moçambique?

Raúl Pires (RP): Isso tem que ver, não é? As Forças de Segurança têm uma área de especialização também nesse tipo de guerra assimétrica, de guerra de guerrilha e sem quartel, isso existe. As medidas que têm sido tomadas até ao momento pelo Governo moçambicano têm encetado na questão dos mercenários, portanto das forças de segurança privada. E é uma solução bastante cara, que precisa ser de tempo prolongado e, por isso, é bastante cara. Mas, ao mesmo tempo, também é uma solução que cria certas desconfianças na população. Então, o nosso país, o nosso exército não tem capacidade para fazer face a este tipo de insurgência. Há aqui uma vulnerabilidade do Estado também ao optar por esse tipo de contratação.

DW África: E as forças regionais da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral  (SADC) estão formatadas para apoiar Moçambique a enfrentar esta insurgência?

Raul Pires - Forschungsexperte für Nordafrika und Terrorismus
Raúl Pires, especialista em Médio do Oriente e PALOP com influência islâmicaFoto: Privat

RP: Creio que não, porque esta insurgência é nova. Isto aqui obedece a padrões de ação fora do padrão militar. E deveria haver era uma consonância de esforços entre todos os membros da SADC, porque este problema é regional e vai afetar toda a gente nesta área. E, portanto, terá que haver um entendimento. Creio que a melhor forma era perder-se a vergonha e levar diretamente este assunto ao Conselho [de Segurança] das Nações Unidas. Creio que a melhor solução, neste momento, não é atirar a toalha ao chão,no sentido de dizer "nós não temos capacidade para resolver este problema, temos que pedir ajuda externa". Acho que seria o mais inteligente, o mais óbvio, o mais barato, e transmitia também alguma responsabilidade para as próprias populações, sob responsabilidade do Estado. Essa seria a abordagem ideal.

E fica por responder há muito tempo uma pergunta crucial que é sobre os Wagner [empresa de segurança privada russa], que estiveram aparentemente uma semana [em Cabo Delgado]. Entraram e saíram... Porquê? Queriam resolver o problema e não lhes deixaram resolvê-lo a maneira deles? Este é um assunto sobre o qual não se fala. Há um outro assunto que é o [empresário] Erik Prince. Eu creio que toda a estratégia de Erik Prince, toda a forma como a sua entrada em Moçambique acontece, tinha no longo prazo a perspetiva do norte e, neste caso particular, de Cabo Delgado. Erik Prince continua ou não continua em Moçambique? Se não continua, porque é que saiu? Porque é que esta cooperação não foi bem-sucedida? Estas são as questões fundamentais que o Estado moçambicano tem que responder. E parece que não há ninguém a colocar estas perguntas de forma incisiva.

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DW África: Pelo que alguma imprensa tem estado a informar, Moçambique está a procurar apoio de Governos amigos, o caso mais recente, o da França, onde o ministro da Defesa terá estado recentemente. Fala-se ainda também de uma empresa que se chama RMGS, dos EUA, e a Crisis Response Co, também do mesmo país, que devem recrutar consultor de estratégia para ajudar Moçambique a combater os insurgentes. Há algum risco de buscar o apoio desses países baseado em relações bilaterais?

RP: Os riscos existem sempre, obviamente. No caso específico da França, tem uma grande resistência na região do Sahel, embora seja completamente diferente, há de facto um historial de experiência relativamente a esta luta contra os jihadistas. Parece ser uma solução, ou uma proposta, interessante, que está sempre a correr o risco de se ver fardas militares de um país ex-colonizador numa ex-colónia. No caso [Moçambique] não é uma ex-colónia francesa, mas fica sempre esta áurea no ar, "lá vem o homem branco" ou "lá vem o ex-colonizador" a ensinar como é que vamos fazer as coisas. Fica sempre esse mal-estar no ar.

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Nádia Issufo
Nádia Issufo Jornalista da DW África
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