Governo moçambicano procura novo programa com FMI
15 de abril de 2026
"Estamos na bitola de voltar a ter um acordo com o FMI", admitiu aos jornalistas o ministro Salim Valá, porta-voz da reunião semanal do Conselho de Ministros, realizada esta terça-feira (14.04), em Maputo.
"De parte a parte, há compromissos que devem ser assumidos, devem ser acordados e continuamos alinhados e comprometidos para que Moçambique possa ter um acordo com o FMI", acrescentou o também ministro da Planificação e Desenvolvimento, sublinhando a importância de o país ter liquidado a dívida junto da instituição, em março, num total de 630 milhões de euros.
Salim Valá destacou ainda que "o pagamento da dívida foi uma ação muito concreta. Apesar das limitações que tem, Moçambique ainda é um país em vez de desenvolvimento, mobilizou os esforços, os recursos e tomou a decisão de pagar aquilo que era dívida, até para mostrar que tem comprometimento, é um país sério, é um Governo sério e quer honrar os seus compromissos para abrir novas janelas para outras oportunidades, outros acordos, com uma instituição muito relevante como é o FMI".
Moçambique assumiu que quer negociar um novo programa de apoio com o FMI durante encontros que decorrem esta semana em Washington com responsáveis das instituições financeiras internacionais.
"O pagamento antecipado da dívida ao FMI não implica que o engajamento com o fundo terminou. Pelo contrário, nós vamos abrir uma nova página com o FMI e vamos, naturalmente, nesta semana, ter encontros ao nível do Fundo para engajarmos no novo programa", disse o diretor nacional das Análises Fiscais e Financeiras, Alfredo Mutombene.
As reuniões começaram na segunda-feira e prolongam-se até sexta-feira, no âmbito das reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial. A delegação moçambicana é chefiada pela ministra das Finanças, Carla Loveira, e prevê encontros técnicos com responsáveis das duas instituições financeiras para discutir novas formas de cooperação económica.
Venâncio Mondlane critica liquidação da dívida
Para o político moçambicano Venâncio Mondlane, a recente liquidação da divida de Moçambique ao Fundo Monetário Internacional "não é assim tão positivo", nem é motivo para "tocar trombetas", criticando o silêncio do parlamento por não debater a matéria.
"Devíamos começar a chorar por esse efeito, porque está aqui uma dívida oculta que só daqui a um tempo vamos saber a gravidade", disse ontem Mondlane, em conferência de imprensa, em Maputo, questionando se este pagamento foi previamente comunicado ao parlamento moçambicano.
"A Assembleia da República teve este conhecimento? Avaliou isto? Admira-me que não esteja a criar nenhuma situação. Acho que era motivo para se solicitar uma sessão extraordinária de matéria urgente, segundo o regimento, exatamente para se debater a questão da dívida do FMI", disse o ex-candidato presidencial.
Para o político, não era "urgente" pagar a dívida ao FMI por ser uma das que tem a menor taxa de juros, referindo que o país tem dívidas bilaterais elevadas cujo peso era necessário reduzir. "Estamos sempre a falar da dívida externa, mas a pior dívida que o Governo tem é a dívida interna, a dívida que tem com as empresas que é grandíssima, a dívida do reembolso do IVA, com os fornecedores e empresas nacionais, com os bancos que já atingiu limite com a emissão de bilhetes e obrigações do tesouro", disse Mondlane.
Os empresários moçambicanos consideraram que a liquidação da dívida contribui para a consolidação da confiança dos parceiros externos e criação de condições para o aprofundamento da cooperação económica e financeira, mas alertaram também que a estabilidade macroeconómica deve ser acompanhada por "medidas internas consistentes, que promovam um crescimento inclusivo e sustentável".