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MigraçãoMoçambique

Fuga de cérebros: Como manter os jovens em Moçambique

Sara Arnaud
10 de abril de 2026

A crescente emigração jovem preocupa especialistas pelo impacto no desenvolvimento económico e social de Moçambique. Mas há iniciativas que procuram criar oportunidades de emprego dentro do país.

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Foto de arquivo: Trabalhador de uma empresa chinesa durante a drenagem do rio Chiveve, na cidade da Beira, em setembro de 2015
Ficar em Moçambique ou emigrar é um dilema para muitos jovensFoto: DW/J. Beck

Nos últimos anos, a saída de jovens moçambicanos para o estrangeiro intensificou-se, impulsionada pela falta de oportunidades, dificuldades de inserção no mercado de trabalho e a procura de estabilidade política e financeira.

Esta fuga de cérebros preocupa especialistas e levanta questões sobre o futuro económico e social de Moçambique. Afinal, o que está a levar tantos jovens a abandonar o país e que soluções podem inverter esta tendência?

Ficar ou emigrar?

Ficar ou emigrar tornou-se um dilema comum entre jovens moçambicanos que procuram emprego e segurança. Entre falta de oportunidades e procura de estabilidade política e financeira, sair do país deixou de ser exceção e passou a ser necessidade.

Ser segurança já não é uma profissão só para homens

Inês Raimundo, investigadora da Universidade Eduardo Mondlane, explica que a migração jovem faz parte da história de Moçambique desde antes da independência, com a ida de jovens para as minas da África do Sul. Hoje, são vários os fatores que continuam a limitar oportunidades para quem quer começar a vida adulta.

"Foram 16 anos de guerra, vários conflitos que até hoje continuam e ainda não foram resolvidos. Há uma instabilidade generalizada, isso reduz toda a capacidade em relação à criação de empregos ou ao melhoramento das infraestruturas educacionais, incluindo, por exemplo, a universidade. Para agravar a situação, o país é palco de uma outra 'guerra', relacionada com os efeitos dos eventos climáticos extremos", explica a investigadora. 

Jovens não querem agricultura

São jovens qualificados, recém-formados e trabalhadores técnicos que procuram fora aquilo que não encontram dentro do país. Segundo a doutorada em Migrações Forçadas e Geografia Humana, a consequência sente-se já no desenvolvimento nacional. 

"O setor rural está a envelhecer, a população está a envelhecer, não tem ninguém que vai trabalhar no campo. Os nossos jovens não querem trabalhar no campo. Significa que quem vai garantir a produção é a população envelhecida, e nós não teremos condições de competir com o mercado, regional ou internacional, na produção de alimentos. Consequentemente, o país será obrigado a importar cada vez mais alimentos, e isto terá efeitos na balança de pagamentos de Moçambique", salienta Inês Raimundo.

Foto de arquivo: Trabalho numa machamba no distrito moçambicano de Grudja, em abril de 2019, após inundações
"Quem vai garantir a produção agrícola é a população envelhecida, e nós não teremos condições de competir com o mercado internacional"Foto: Lena Mucha

Incentivos para reter talentos

Menos jovens no campo, menos profissionais nas cidades e maior dependência externa. A médio prazo, o país pode perder capacidade produtiva e competitiva.

Para a investigadora, antes de falar em restringir a emigração com medidas específicas, é preciso criar bases sólidas para que os jovens possam imaginar um futuro dentro do próprio país.

Mas enquanto essas mudanças estruturais não chegam, há projetos que tentam encurtar a distância entre formação e emprego. 

A Fundação MozYouth trabalha precisamente neste ponto: proporcionando a primeira oportunidade profissional. A diretora de programas de estágios, Daniela Timmich, afirma que ainda existe "resistência" das empresas em receber jovens sem experiência.

Foto de arquivo: Adolescentes aprendem a trabalhar em computadores portáteis
Ter experiência profissional é pré-requisito para entrar no mercado de trabalho - sem oportunidades, muitos jovens ficam de foraFoto: DW/B. Chicotimba

"Então, é aí que entra a MozYouth, para convencer estas empresas a receberem jovens sem experiência, porque são talentos que podem ser desenvolvidos internamente. A MozYouth tem operado em programas de estágio como porta inicial para que essas empresas possam conhecer os talentos destes jovens e, por conseguinte, contratá-los, caso eles tenham um bom desempenho durante o estágio", explica Daniela Timmich.

Apoios do Governo

Mais de dois mil estagiários já passaram pelos programas da MozYouth e mais de metade conseguiu permanecer na empresa após o estágio, segundo Daniela Timmich. Mas, para a gestora de programas, há outras soluções. 

"O Governo, principalmente, deveria criar uma espécie de incentivo para as empresas abrirem espaço para os jovens poderem desenvolver profissionalmente as suas capacidades, nem que seja por um curto período de tempo, para os jovens poderem se desenvolver e ter alguma coisa para colocar nos seus currículos. Além disso, o Governo deveria apoiar os jovens que querem empreender, oferecendo incentivos para que possam lançar os seus próprios projetos", salienta a diretora de programas da Fundação.  

Para muitos jovens moçambicanos, a diferença entre partir e ficar no país pode começar apenas com uma oportunidade.

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