Moçambique: Suspensão da Mozal ameaça empregos e empresas
18 de dezembro de 2025
A decisão da Mozal, maior indústria de Moçambique, de suspender as suas atividades a partir de março de 2026 está a gerar um misto de esperança e ceticismo entre trabalhadores e empresas que dependem da fundição de alumínio para sobreviver.
A australiana South32, acionista maioritária da Mozal, anunciou que a paralisação se deve à falta de um novo acordo para o fornecimento de eletricidade. A Mozal compra quase metade da energia produzida em Moçambique, por via da sul-africana Eskom, e representa cerca de 3% do PIB nacional.
Em 1998, quando foi criada a Mozal, era sonho da maioria jovem trabalhar lá. A empresa de fundição de alumínio simbolizava o progresso e salários acima da média nacional. Era um dos primeiros megaprojetos em Moçambique.
CTA pede soluções para evitar suspensão
A Confederação das Associações Económicas (CTA) defendeu que se evite "a todo o custo" o encerramento da Mozal, alertando para consequências económicas e sociais severas.
"Evitar a todo o custo o encerramento da fábrica deve ser um objetivo comum, tendo em conta que tal cenário acarretaria consequências económicas e sociais severas, incluindo a falência de várias pequenas empresas nacionais e o despedimento massivo de trabalhadores", afirmou Álvaro Massingue, presidente da CTA.
A CTA considera a Mozal um "ativo estratégico" e sugere prolongar o contrato atual por 6 a 12 meses, criando espaço para negociações aprofundadas e acordos sustentáveis. Os empresários manifestaram disponibilidade para apoiar tecnicamente o Governo, que já criou uma equipa para garantir que o futuro da Mozal não prejudique nenhum dos envolvidos.
Impacto direto nos trabalhadores
Cerca de mil trabalhadores poderão perder o emprego. António Nobre (nome fictício), com 23 anos de casa, teme pelo futuro."É muita gente que vai para o olho da rua. O que vão receber não é suficiente para sobreviver. O mercado não está em condições de absorver tanta gente."
Com uma taxa de desemprego estimada em 18,4%, as perspetivas de reintegração são reduzidas. Para Nobre, a solução passa pelo empreendedorismo, mas sem grandes expectativas de apoio estatal.
"Seria prometer coisas que claramente não vai conseguir. O Governo não tem projetos para absorver tanta gente."
Empresas terciárias já em crise
O impacto não se limita aos trabalhadores da Mozal. Empresas que prestam serviços à fundição enfrentam dificuldades severas. A C&S Engenharia reduziu 40% da sua força laboral.
"O impacto é devastador. O parque industrial foi criado para servir a Mozal. Reinventar-nos não está a ser fácil", afirma Feliciano Augusto, gestor da empresa.
Estas empresas, habituadas a padrões internacionais e pagamentos regulares, temem agora um cenário "catastrófico", com maior concorrência num mercado já escasso e um Estado que é um dos maiores devedores.
A maioria das empresas terciárias está umbilicalmente ligada à Mozal e, por tabela, mais expostas à vulnerabilidade, que chegou 27 anos depois da criação da fundição.
"Até porque a Mozal dava confiança de pagamento aos seus prestadores de serviços e de materiais. A Mozal, por ser uma world class company, tem procedimentos de faturação e pagamento, que em média em 30 dias saia. É por isso que concentrava muitos fornecedores. Por causa da conjuntura económica do país, preferiam fornecer a Mozal pela previsibilidade de pagamentos", destaca o gestor.
Que destino dar ao equipamento especializado?
Uma perda que também representaria outro revés para os operadores. Feliciano Augusto traça um cenário pouco promissor: "Agora, seremos muitos mais a concorrer em mercados cada vez mais escassos e com mais empregados disponíveis, com o despedimento de mais de mil, que vão engrossar as fileiras que já são grossas. O resultado vai ser catastrófico".
Acresce o facto de o Estado ser um dos maiores devedores da praça económica, fator que também não jogará a favor das empresas terciárias, se tiverem de operar junto dele. A lista de entraves é extensa, como para as que operam equipamento especializado, por exemplo.
Que destino se pode dar aos equipamentos especializados para recuperar parte do investimento? Sobre eventuais alternativas o gestor afirma: "Adianto que são poucas, porque a Mozal é uma indústria distinta, algumas para aquela especialidade, e converter o equipamento para uso ordinário não será fácil".
Tal como os empregados da Mozal, as empresas nada esperam do Estado, nenhuma intervenção ou subsídio; nem até um simples apoio no redirecionamento. Augusto, que se sente órfão do Estado, lembra que "as autoridades neste país não conseguem sequer subsidiar o seu funcionamento. É como esperar que da careca cresça o cabelo."
Custos da suspensão
Segundo a South32, os custos de manutenção da Mozal, incluindo rescisão de contratos, deverão rondar 60 milhões de dólares (51 milhões de euros), com despesas anuais adicionais de cerca de 5 milhões de dólares (4,2 milhões de euros).
Apesar do cenário sombrio, alguns trabalhadores acreditam que a suspensão poderá ser revertida. "A única esperança é que, antes de março, haja uma mudança de decisão ou que se fale em vender a fábrica", diz Nobre.
(Atualizado às 13:55 CET)