Eleições 2027: Oposição angolana em desunião estratégica
26 de fevereiro de 2026
Enquanto o discurso oficial mantém o foco na alternância de poder, as movimentações de bastidores sugerem uma crescente desunião estratégica.
O Bloco Democrático (BD), peça central na Frente Patriótica Unida (FPU), iniciou um ciclo de auscultações para transformar a plataforma eleitoral numa coligação formal - uma manobra de sobrevivência num momento em que a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) evita clarificar o modelo de participação no próximo pleito.
O Bloco enfrenta um dilema existencial: o risco de extinção jurídica caso repita o modelo de 2022, integrando as listas da UNITA, maior partido da oposição, sem uma estrutura de coligação. Para contornar este cenário, a liderança de Filomeno Vieira Lopes iniciou contactos com o Renova Angola, o Partido Liberal e o Partido Pacífico de Angola.
O programa de "Diálogo Inclusivo" do BD pretende ainda estender pontes a forças históricas como a FNLA e o PRS e à sociedade civil. Em declarações à DW, o secretário-geral do Bloco Democrático, Muata Sebastião, explica que a iniciativa é uma resposta direta à resistência da UNITA em formalizar a coligação.
"E assim, de forma específica, tem muito a ver com a posição da UNITA, que no último congresso, todos acompanharam, e é importante sinalizar isto, a UNITA orientou a direção a encontrar todos os modelos possíveis, menos a coligação. Isso quer dizer que, neste entretanto, quem não está contar com o Bloco Democrático são aqueles que não querem encontrar melhor forma de Bloco participar e não ser extinto", explicou.
Para o político, trata-se de garantir a viabilidade do partido no pós-2027, cumprindo o mandato dos seus militantes. "O Bloco está a fazer contactos exploratórios junto da sociedade civil e dos partidos políticos, como também de algumas comissões instaladoras no sentido de perceberem qual é apreciação que estas forças têm em relação a agenda 2027", revelou.
Portanto, acrescenta Muata Sebastião, "tão logo se conclua que todos estão alinhados no mesmo sentido em relação a conjugação de esforços, em relação uma formalização de uma coligação eleitoral, aí então, o Bloco poderá eventualmente anunciar com quais parceiros vai caminhar e como serão feitos os acordos para a formalização de um coligação."
Outros apostam na autonomia
Neste tabuleiro de xadrez, o PRA-JA Servir Angola, que se distanciou da FPU em maio de 2025, reafirma a sua aposta na autonomia. Em comunicado, o partido de Abel Chivukuvuku destacou a orientação de "caminhar sozinho" para consolidar a sua implantação nacional, embora ressalve que mantém a porta aberta a coligações de jure, desde que aprovadas pelos seus órgãos superiores por imperativos estratégicos.
Do lado da CASA-CE e do Renova Angola, o tom é de cautela. Manuel Fernandes confirma o diálogo, mas impõe condições de robustez institucional: "Fomos auscultados pelo Bloco Democrático, mas o nosso entendimento é de que devemos preparar o partido para estar à altura dos grandes desafios. Não pode estar dependente de coligação. Estamos a preparar o partido para concorrer às eleições. Se o entendimento for que devemos ir por coligação, que seja uma coligação para disputar o poder e não para disputar lugar no Parlamento. Por isso só será possível quando tivermos partidos fortes. Portanto, Renova Angola está trabalhar para ser partido forte."
Já a UNITA, através do porta-voz Francisco Falua, evita o compromisso com uma coligação formal, assegurando apenas que a FPU será reformulada e que o BD continua a ser parceiro. A confiança no modelo liderado pelo "Galo Negro" mantém-se inabalável. "Os governam este país há 50 anos estão impotentes de realizar o básico, o necessário, a água, a luz, a educação, a saúde está mal. Então, a UNITA vai ser o líder vencedor", acredita.
Para os observadores, esta dispersão de narrativas pode ser contraproducente. O analista político Celestino Lumbangululu critica o que chama de "conflito verbal" entre as forças da oposição. "Os políticos da UNITA falam outra coisa, os políticos do PRA-JA falam outra coisa, entram em choque entre si. Não queremos isso. Queremos que entre as forças políticas deste país que tivessem o mesmo caminho para o bem da sociedade angolana", diz.
Lumbangululu nota ainda que a inflexibilidade da UNITA quanto ao formato de coligação coloca os parceiros numa posição vulnerável: "É um risco porque caso a coligação não alcance alternância, esses partidos poderão ter dificuldades de gremiar na praça pública, mas é importante que usem um pacto de regime que facilite os partidos, desde que haja unidade entre eles."