Dexametasona: Uma esperança no tratamento da Covid-19 | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 18.06.2020
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Internacional

Dexametasona: Uma esperança no tratamento da Covid-19

A Organização Mundial de Saúde considera um "marco científico" os resultados do uso do fármaco em doentes graves com Covid-19 na Grã-Bretanha. No entanto, mais investigação ainda é necessária.

O padrão é sempre o mesmo: um instituto de investigação anuncia que vai realizar testes de um medicamento promissor no tratamento da Covid-19, os meios de comunicação publicam a história, especialistas da área médica - e por vezes até mesmo presidentes – opinam a respeito e as pessoas invadem as farmácias em busca do que acreditam ser a cura.

Promovida pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a hidroxicloroquina – usada na prevenção e tratamento da malária - foi considerada ineficaz e potencialmente perigosa, especialmente em combinação com o antiviral remdesivir, que por si só foi considerado eficaz contra alguns sintomas da Covid-19. Agora, os investigadores estão a relatar resultados promissores com o esteróide dexametasona.

Mas, para já, os dados têm que ser verificados. Esse passo é muitas vezes um choque para aqueles que acreditam que foi encontrado um tratamento milagroso. Será determinado em que situações a droga funciona com mais eficácia e que efeitos secundários poderá desencadear.

Tedros Adhanom Ghebreyesus Direktor WHO (Getty Images/AFP)

Tedros Adhanom Ghebreyesus

Ensaio na Grã-Bretanha

A pouca informação que se tem sobre a dexametasona e a Covid-19 provém de um ensaio realizado na Grã-Bretanha. Os cientistas testaram a eficácia de vários medicamentos previamente aprovados no tratamento da doença. O estudo registou dados de mais de 11.500 pacientes em 175 hospitais do Reino Unido.

Para o ensaio, cada um dos 2.104 pacientes recebeu diariamente seis miligramas deste esteróide sintético durante dez dias. O grupo de controlo (pacientes doentes e que não são submetidos ao teste) incluiu 4.321 pessoas.

Os resultados preliminares do ensaio não publicado sugerem que a dexametasona poderia reduzir as mortes entre os doentes graves com Covid-19. As taxas de mortalidade entre os pacientes ligados a ventiladores diminuíram em um terço em comparação com o grupo de controlo.

A taxa de mortalidade dos pacientes que recebem oxigénio, mas sem ventilação artificial, caiu em um quinto. A dexametasona não mostrou qualquer eficácia quando administrada em pacientes que não necessitavam de oxigénio. O Reino Unido decidiu começar imediatamente a utilizar a dexametasona para tratar os doentes com a Covid-19.

Dexamethasone Medikament gegen Coronavirus (Getty Images/M. Horwood)

Dexametasona está amplamente disponível em todo o mundo

Marco científico

A dexametasona, barata e amplamente disponível em todo o mundo, é utilizada há muito tempo numa série de medicamentos. É mais frequentemente utilizada para tratar inflamações da pele (eczema) e das articulações (artrite) e edemas cerebrais causados por tumores cerebrais, bem como para prevenir náuseas e vómitos em resultado do tratamento do cancro.

O sistema imunitário frequentemente reage de forma exagerada nos doentes graves com Covid-19. A dexametasona é um corticóide sintético forte e eficaz que reprime tais reações e reduz a inflamação.

"Esta é uma grande notícia e felicito o Governo do Reino Unido, a Universidade de Oxford e os muitos hospitais e pacientes do Reino Unido que contribuíram para este marco científico que salva vidas", afirmou o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa declaração divulgada pela OMS na terça-feira (16.06).

O estudo RECOVERY (sigla em inglês para Randomized Evaluation of COVID-19 Therapy - ou Avaliação Aleatória da Terapia da Covid-19, na tradução literal para o português), realizado por Oxford, não foi publicado numa revista científica, nem foi objeto de revisão por outros especialistas. Em vez disso, os cientistas britânicos participantes anunciaram os resultados dos ensaios na sua página da internet: www.recoverytrial.net.

Otimismo e cautela na Alemanha

Os médicos alemães têm manifestado um otimismo cauteloso. "Os resultados encaixam-se no nosso próprio entendimento atual de que as reações excessivas do sistema imunitário desempenham um papel decisivo na fase final da Covid-19. Os resultados - cuja publicação completa ainda aguardamos - sugerem a utilização de preparados de cortisona em casos graves de infeção pelo SRA-CoV-2", afirmou Gerd Fätkenheuer, chefe do departamento de doenças infeciosas do Hospital Universitário de Colónia.

Maria J.G.T. Vehreschild, chefe do departamento de doenças infeciosas do Hospital Universitário Goethe, em Frankfurt, tem uma opinião semelhante. "A cortisona é uma abordagem clássica de tratamento para suprimir o sistema imunitário", afirmou. "Mas a eficácia comprovada é surpreendente". No entanto, acrescentou, "ainda não vi os dados originais. Não será possível determinar a qualidade dos resultados até que esses dados tenham sido cuidadosamente estudados", concluiu.

Reservada a pacientes com sintomas graves

Clemens Wendtner, o médico-chefe para doenças infeciosas e medicina tropical do Hospital Schwabing de Munique, advertiu contra a utilização da dexametasona na prevenção ou a sua administração a pacientes com sintomas ligeiros, dizendo que só deve ser administrada a pacientes com sintomas graves e com necessidade de hospitalização. O especialista encorajou "o uso mais precoce possível de medicamentos antivirais como o remdesivir em pacientes não ventilados para reduzir a carga de vírus no corpo e [o uso de] esteróides em pacientes com Covid-19 ligados a ventiladores, a fim de reduzir o risco de infeção pulmonar grave".

Bernd Salzberger, presidente da Sociedade Alemã de Doenças Infeciosas, referiu igualmente as diferentes utilizações do remdesivir e da dexametasona. "O remdesivir luta contra o vírus", disse ele. "A dexametasona combate a inflamação exagerada."

Embora a dexametasona possa vir a revelar-se um tratamento eficaz contra a Covid-19, a pandemia de coronavírus continua a ser o maior problema. "Tendo em conta as pequenas, embora significativas, reduções nas taxas de mortalidade através da utilização de esteróides, o melhor medicamento para travar a Covid-19 continua a ser uma vacina eficaz", finalizou Wendtner.

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