Alex Barga e a sua escrita incendiária
29 de setembro de 2025
Alferga, heterónimo de Alex Barga, terá carregado na tinta quando escreveu "Quando a morte é a alternativa de sobrevivência", em 2023, e os "camaradas" não terão gostado dos salpicos que caíram sobre eles, desconfia o próprio. A sua detenção por apoiar o opositor do sistema Venâncio Mondlane aquando dos protestos pós-eleitorais terá sido apenas um pretexto para o prender.
Ficou detido por cerca de seis meses ilegalmente, pois não havia acusação formal. Mas a intimidação, como ele entende, não travará a sua esferográfica, pelo contrário, até lhe trouxe mais incentivo de rasgar o papel. Recentemente foi libertado e a DW conversou com o jovem Alferga.
DW África: Em que circunstâncias foi detido?
Alex Bargas (AB): Fui detido a 12 de janeiro em Marracuene, não havia nenhuma acusação formulada porque nem havia nenhum mandato de prisão e foi no contexto das manifestações [pós-eleitorais]. Só tardiamente fiquei a saber que a acusação tinha a ver com associação criminosa, tentativa de alteração do estado de direito por meios violentos e conspiração para a segurança do Estado, isto em julho, antes de ter sido formulada uma acusação. E a acusação não era argumentada, porque aquilo que o Ministério Público (MP) trouxe como base da acusação são basicamente mensagens que andaram em grupos de WhatsApp. O facto de fazer parte de um grupo de WhatsApp não implica que eu seja o autor de uma mensagem veiculada num desses grupos.
DW África: Mas antes o Alex tinha escrito um livro que representava uma dura crítica ao sistema governativo em Moçambique, "Quando a morte é a alternativa de sobrevivência". Acredita que a sua detenção esteja relacionada ao livro?
AB: Sim, tenho certeza disso, porque até algumas pessoas dos meus contactos que tem alguma ligação com membros do Governo teriam, depois da minha prisão, confidenciado a minha família que há muito eles estavam à procura do Alex por conta dos seus escritos. Então, procurava-se um pretexto para a minha prisão e no meio desse pretexto o que acharam foi o facto de eu ter transferido valores para os simpatizantes do engenheiro Venâncio Mondlane, aquando do seu regresso ao país - como se sabe, ele esteve exilado e o regressou a Moçambique a 9 de janeiro de 2025. Eu recebi o valor e mandei aos simpatizantes que vieram das províncias.
Mas isso não é nenhuma conspiração, é um ato que até o partido FRELIMO tem feito, tem movimentado os seus membros de uma província para outra. E sabemos muito bem de um camião que capotou e houve vítimas, agora não sei porque a tendência de criminalizar esta movimentação de pessoas para a recepção de Mondlane. Então, foram praticamente acusações infundadas, daí que não houve nenhuma prova material a sustentar a acusação deles. O meu livro contou muito para a minha detenção, há muito que estavam à minha procura.
DW África: E que mensagem contém a sua polémica obra?
AB: O que escrevi não é nenhuma ficção, é o grito do povo moçambicano. Eu apenas servi de porta-voz que transmitiu o sentimento do povo moçambicano. Em "A morte é a alternativa da sobrevivência", a morte não nos é apresentada como fim, mas é apresentada com um novo começo, em que, através de um novo sacrífico, uma nova geração vai nascer e poder crescer livre dos grilhões.
DW: O que os 10 meses de prisão mudaram na sua vida?
AB: Reafirmo cada vez mais a minha luta em prol da liberdade e da democracia. Se o objetivo da minha prisão era uma intimidação, mais do que nunca eu vou continuar.
DW África: Aquando da sua detenção teve o apoio da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO)?
AB: Nao, houve uma grande indiferença da AEMO, mas isso não me surpreende, porque sabemos que a AEMO já foi tomada pelo regime. Há uma tendência de politizar a literatura e de se ter o controlo do que é escrito e o que circula no mercado nacional, o que é impossível porque há editoras independentes. Eu, que falo, sou proprietário de uma editora.
Mas tenho muito a agradecer, a solidariedade internacional que houve, tive um grande apoio da Penny Internacional, que fez uma grande campanha em prol da minha libertação. É um organismo que congrega escritores a nível mundial. Este mês houve um congresso onde foi colocada a questão da minha prisão. A minha libertação foi resultado de um grande trabalho feito, desde os ativistas, escritores internacionais e também nacionais que não estado filiados à AEMO e não ficaram indiferentes, falo do Sérgio Raimundo, o "Poeta Militar", e outros.