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PolíticaHungria

TV pública da Hungria pede desculpas por anos de propaganda

9 de julho de 2026

Em reformulação, canais da mídia pública húngara passaram a exibir tela preta com pedido de desculpas pelas mentiras da era Orbán, marcando início do desmantelamento do sistema de propaganda criado pelo ex-premiê.

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Screenshot der Website | mediaklikk.hu/m1
O canal de televisão húngaro M1 interrompeu suas transmissões por pouco menos de quatro horas, exibindo este pedido de desculpasFoto: mediaklikk.hu/m1

O grau de desinformação que a mídia pública da Hungria transmitiu durante os 16 anos de governo do ex-premiê Viktor Orbán foi algo sem precedentes na União Europeia (UE).

Nenhuma outra mídia pública nos países da UE publicou mentiras, discurso de ódio e propaganda nessa escala em décadas.

Parte do conteúdo lembrava a propaganda fascista e antissemita do período entreguerras. Outra parte era semelhante ao material produzido pela mídia estatal russa.

Para citar apenas alguns exemplos: os migrantes árabes e africanos criminosos que estupram meninas húngaras indefesas; o bilionário norte-americano de origem judaico-húngara que estaria destruindo a identidade cristã da Hungria; a "doutrinação" de crianças pela União Europeia por meio da "propaganda LGBTQ"; o Estado ucraniano mafioso que quer sacrificar a geração mais jovem na guerra e roubar milhões de aposentados húngaros.

Uma nova era

Mas essa era chegou ao fim. Às 16h desta terça-feira (07/07), o canal de notícias M1 exibiu uma tela preta com a seguinte mensagem:

"A mídia pública não deve mentir. Pedimos desculpas por termos feito isso durante tanto tempo. A mídia pública será reformada para se tornar independente e confiável. Nosso serviço de notícias está temporariamente suspenso. Fique ligado!"

Todos os telejornais e programas sobre política transmitidos pelos canais públicos de televisão e rádio da Hungria exibiram essa mesma mensagem por quase quatro horas.

Apenas o site da agência de notícias MTI, que também faz parte do conglomerado de mídia pública MTVA, continuou publicando notícias.

"Eles mentiam à noite, durante o dia"

Este é um momento histórico para a Hungria. Jamais havia acontecido algo parecido na emissora estatal do país, nem mesmo quando a ditadura comunista entrou em colapso, em 1989/90, e a Hungria iniciou sua transição para a democracia.

"É um dia histórico. O dia de hoje marca o fim das transmissões de propaganda nas plataformas da mídia pública", escreveu o novo primeiro-ministro Peter Magyar no Facebook na terça-feira. "Eles mentiam à noite, mentiam durante o dia, mentiam em todas as frequências. Isso acabou agora", acrescentou.

Mas essa mudança vai muito além de uma tela preta e de um pedido de desculpas por escrito: as principais diretores do M1 foram afastados de seus cargos. Entre eles estão o diretor do canal, Zsolt Németh (apelidado de Pitbull devido ao seu estilo agressivo e confrontador), além da maioria dos diretores de programação e editores-chefes de notícias.

Simbologias no relançamento

Pouco menos de quatro horas após a exibição da tela preta, o M1 voltou ao ar, exatamente às 19h56. A escolha do horário não foi coincidência. Tratou-se de uma referência à Revolução Húngara de 1956, anticomunista e antissoviética, brutalmente reprimida pelas tropas soviéticas.

A escolha do filme exibido em seguida também foi altamente simbólica. A testemunha (The witness), um clássico húngaro de 1979, é uma sátira política sobre os horrores do stalinismo e as absurdas mentiras propagandísticas daquele período na Hungria.

A tela preta com o pedido de desculpas ainda pode ser vista no site do Híradó, principal telejornal do M1.

Promessa de campanha

A reformulação radical do sistema de mídia pública da Hungria foi uma das principais promessas de Magyar durante a campanha para a eleição de 12 de abril.

Mesmo após a histórica vitória esmagadora de seu partido, o Tisza, dificilmente passava-se um dia sem que Magyar atacasse os veículos públicos de comunicação, chamando-os de "fábrica de mentiras".

E não sem motivo: a história de como seu antecessor remodelou a mídia pública húngara – e também grande parte da mídia privada do país – para alinhá-las à linha do governo é um dos capítulos mais sombrios da era Orbán.

Pouco depois de sua vitória eleitoral de 2010, o governo Orbán reformulou a legislação de mídia da Hungria, criou a Autoridade Nacional de Mídia e Infocomunicações (NMHH) e nomeou pessoas ligadas ao governo para órgãos reguladores estratégicos.

Posteriormente, a mídia pública passou a ser submetida a um controle central mais rígido e foi consolidada dentro do grupo MTVA.

Em 2011, a maioria dos jornalistas independentes foi demitida dos meios públicos ou deixou seus cargos voluntariamente.

Viktor Orbán ao lado de Jair Bolsonaro em 2022
Viktor Orbán ao lado de Jair Bolsonaro em 2022Foto: Marton Monus/dpa/picture alliance

Sem jornalismo imparcial

A partir desse momento, a "mídia de serviço público" deixou de fazer jus a esse nome. Ao longo dos anos, os veículos do MTVA foram cada vez mais se degenerando, virando porta-vozes que repetiam incessantemente as mensagens propagandísticas de Orbán quase como um mantra.

Em seus noticiários e programas políticos, o M1 atacava regularmente a União Europeia, o investidor bilionário e filantropo George Soros, organizações da sociedade civil e jornalistas independentes.

Apesar da obrigação legal de garantir cobertura equilibrada, políticos da oposição e vozes independentes praticamente desapareceram dos canais do MTVA.

Com o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, os canais do MTVA intensificaram ainda mais sua retórica. Numa notável inversão entre vítima e agressor, criaram uma realidade paralela na qual a Ucrânia era retratada como uma espécie de império do mal e, em diversos momentos, reproduziram sem filtro a propaganda estatal russa.

Orbán e a mídia privada da Hungria

Orbán adotou estratégia semelhante em relação à mídia privada da Hungria.

Empresas controladas por oligarcas alinhados ao governo adquiriram veículos privados de comunicação e os colocaram sob controle político ou os fecharam completamente, como ocorreu com o jornal diário liberal de esquerda Népszabadság em 2016.

Em 28 de novembro de 2018, empresários húngaros próximos a Orbán "doaram" seus ativos de mídia à recém-criada Fundação de Imprensa e Mídia da Europa Central (Kesma). Foi um "presente" coletivo pelo qual nada foi recebido ou pago em troca.

Ao todo, mais de 476 veículos de comunicação, entre emissoras de rádio e TV, jornais impressos e meios digitais, foram transferidos para a Kesma, abrangendo praticamente todo o setor privado pró-governo da Hungria.

O premiê Peter Magyar
O premiê Peter Magyar Foto: Attila Kisbenedek/AFP

O que acontece agora?

Na semana passada foi nomeado um diretor interino para o grupo MTVA. Na terça-feira, esse diretor anunciou uma equipe de liderança provisória para o canal de notícias M1.

O MTVA comunicou que os cargos permanentes de direção dentro do conglomerado serão preenchidos por meio de um processo público de seleção realizado em consulta com organizações sociais e profissionais.

Muitos jornalistas independentes receberam positivamente as mudanças no cenário midiático húngaro, mas também exigem participação efetiva no processo de reforma e aguardam mais detalhes sobre os planos do governo.

O plano prevê que o conselho de supervisão de uma nova holding de mídia reestruturada seja composto por três representantes da maioria governista, três da oposição parlamentar e três de associações independentes de jornalistas.

Ironia involuntária

Orbán protestou contra a reestruturação da mídia pública numa publicação no Facebook nesta terça-feira, classificando a medida de "mais um passo da tirania do Partido Tisza".

Também houve críticas do deputado de oposição Balázs Németh, um ex-apresentador do telejornal Híradó que esteve envolvido em vários dos momentos mais controversos do programa.

Depois que a tela do M1 ficou preta, nesta terça-feira, Németh escreveu no Facebook, numa ironia involuntária: "A democracia húngara está morta."

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