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Judeus alemães fugindo da Alemanha nazista, em 1939Foto: AP

"Tudo o que restou foi a pátria metafísica"

Simone de Mello
14 de setembro de 2004

O jornalista Luis Krausz, editor da Revista 18, publicada pelo Centro da Cultura Judaica de São Paulo, fala à DW-WORLD sobre a imigração judaico-alemã no Brasil.

https://www.dw.com/pt-br/tudo-o-que-restou-foi-a-p%C3%A1tria-metaf%C3%ADsica/a-1327021

DW-WORLD: Quais foram os principais momentos da imigração judaico-alemã para o Brasil?

Luis Krausz: A grande maioria da imigração judaica de língua alemã veio para o Brasil a partir da ascensão do nazismo. Sempre em números crescentes, até 1937, quando o governo brasileiro baixou uma circular secreta proibindo os diplomatas brasileiros no mundo inteiro de conceder visto de imigrantes para judeus.

Antes da ascensão do nazismo, o número de imigrantes judeus de língua alemã no Brasil era muitíssimo pequeno. Viviam separados da comunidade judaica que existia aqui em São Paulo, por exemplo, formada por imigrantes do Leste Europeu, vindos forçados por perseguição e miséria.

Quando esses imigrantes judeus alemães chegaram aqui (90% ou 95% dos quais a partir da ascensão do nazismo), permaneceram ligados à cultura que traziam da sua terra de origem. Ao contrário dos imigrantes poloneses, russos, romenos, lituanos que já havia aqui, os judeus alemães trouxeram consigo suas bibliotecas e sua língua, criaram uma sinagoga em que se falava alemão, uma biblioteca circulante de livros alemães, continuaram a falar alemão em casa e a ensinar para seus filhos, ou seja, permaneceram de certa forma congelados no tempo.

Isso a gente não vê só no Brasil. O próprio jeito de decorar as casas, a mobília, os livros, a música, o gosto por arte era tudo praticamente igual, aqui, em Londres ou em Tel Aviv. Isso é uma coisa muito destoante do que se vê nas outras famílias aqui no Brasil, tanto famílias judias de outras origens, como famílias brasileiras.

Inclusive em relação a outros grupos judaicos, como os sefarditas, vindos da Península Ibérica, eles se isolaram, portanto?

Não só com relação aos sefarditas, mas também com relação aos judeus de origem leste européia. Eles se isolaram absolutamente, ou seja, não havia nenhum tipo de proximidade.

Meus avós vieram para o Brasil antes da ascensão do nazismo. Vieram, na verdade, de Viena para cá no começo da década de 20, porque depois do fim da Primeira Guerra Mundial o Império Austro-Húngaro, que era o centro do mundo, fora arruinado, e Viena se tornara a capital de um país miserável, pobre, pequeno.

Meus bisavós perderam o que tinham na guerra, com a inflação. Como eram jovens, resolveram passar alguns anos no Brasil, para juntar dinheiro e depois voltar. Não vieram pensando em se estabelecer aqui. Era uma solução para um problema passageiro. Quando chegaram aqui, além deles havia uma família, a família Klabin, que não era alemã mas sim de origem lituana, e enriquecera muito aqui no fim do século 19.

Naquela época, a melhor educação que havia era a alemã. Então, as filhas desta família, que tinham mais ou menos a idade dos meus avós, foram educadas por governantas alemãs, aprenderam a falar alemão, algumas chegaram a estudar alemão. Os meus avós ficaram muito amigos desta família, pois tinham as mesmas referências, mas não queriam nem saber dos judeus orientais ou do Leste Europeu que viviam no Bom Retiro. Para eles, aquilo não era o seu mundo. Tanto assim que os meus avós se casaram aqui no Brasil, mas só no civil, pois achavam que a sinagoga que havia na época não estava à sua altura. Realmente viviam num mundo à parte.

Isso não mudou no decorrer do tempo?

A integração entre esses dois universos judaicos só começou a acontecer com o aumento das perseguições na Europa, pois depois começaram a chegar muitos refugiados aqui no Brasil, gente que passava necessidade, tanto da Alemanha como do Leste Europeu, pessoas muito pobres, que chegavam aqui sem nada. Então se estabeleceram instituições beneficentes e de caridade para ajudar. Mas sempre havia esta distância: eles moram lá no Bom Retiro, nós aqui na Vila Mariana; eles têm a sinagoga deles, nós a nossa. Eram mundos separados.

O que mais singulariza os imigrantes judeus alemães daquela época?

O fato de eles não terem emigrado voluntariamente. A partida motivada pela ascensão do nazismo foi uma coisa muito dolorosa. Tanto assim que uma grande parte da comunidade judaico-alemã relutava em emigrar. Mas eles achavam que tudo ia passar logo; afinal aquilo não tinha cabimento. O próprio rabino que fundou a sinagoga alemã aqui em São Paulo, o rabino Pinkus, formado em Heidelberg, abandonou a Europa em 1936 e criou um grande conflito na comunidade de lá porque a maioria do pessoal queria ficar, queria que ele ficasse e achava que era um louco de estar indo embora.

Qual a diferença da prática da religião judaica entre os imigrantes alemães e os sefarditas ou do Leste Europeu?

Os judeus alemães eram em grande parte assimilados à população cristã da Alemanha. Eles se vestiam da mesma forma que os cristãos, tinham os mesmos costumes dos cristãos e queriam fazer parte dessa sociedade. Com isso surgiu o chamado movimento da Reforma, que introduziu no culto judaico uma série de elementos estranhos ao culto tradicional, como música e órgão, por exemplo, como nas igrejas protestantes. Isso não existe no judaísmo tradicional e nas sinagogas do judeus do Leste Europeu, onde existe canto, mas é expressamente proibido tocar instrumentos no shabat. Eles introduziram muitas rezas em alemão, abandonaram o hebraico, o que era um absurdo do ponto de vista dos judeus tradicionalistas vindos do Leste. Essas especificidades também foram trazidas para a sinagoga que se criou aqui em São Paulo, que era uma sinagoga reformista.

E qual era a relação dos imigrantes judeus alemães e seus descendentes com a Alemanha do pós-guerra?

Isso é uma questão muito complexa. Até hoje não há solução para essa dissonância entre o amor e o respeito que eles tinham pela cultura alemã, por um lado, e o que aconteceu, por outro. São duas coisas que não se juntam. Não se achou solução para isso, pelo menos coletivamente não. Isso foi uma questão que cada um teve que resolver por si e que não se resolveu, pois para isso não há solução mesmo.

Afinal eles eram alemães e representavam em boa parte a elite cultural...

Sim. E este conflito acabou sendo passado para os descendentes. Como eles não foram capazes de resolver, isso foi passado adiante mesmo, para o filho, para o neto. Por que eu me interesso por literatura alemã, por que sei alemão, por que leio autores alemães?

Quando você vai para a Alemanha hoje, sente que no Brasil se cultiva muito mais a "alta cultura" alemã do que na própria Alemanha?

De certa forma sim, porque com a distância da terra de origem, quanto mais a volta para a Alemanha se tornava impossível, mais se idealizava este passado de harmonia e de paz deixado para trás. Como eu poderia saber aqui como eles viviam lá? Mas o que se contava quando eu era criança, as histórias que eu ouvia: "Drüben, drüben war es nicht so..." [Lá as coisas não eram assim...]. Era o além, era como o paraíso. A primeira vez que fui para a Europa, quando era menino, eu tinha certeza de que estava atravessando os portais do paraíso.

Como seus avós lidavam com este dilema?

Meu avô nunca quis voltar para a Áustria. Ele saiu de Viena na década de 20 e voltou para lá uma vez no fim dos anos 50. Então, essas projeções todas passaram a recair sobre a Suíça. Para ele, Zurique era o melhor lugar do mundo, lá era tudo maravilhoso e perfeito, "so wie es sich gehört" [assim como deve ser]. Muitos judeus desta origem criaram uma ligação artificial com a Suíça em função disso. A Suíça também era um país de língua alemã e, pelo menos naquela época, nos anos 60 e 70, ainda não tinham vindo à tona todos esses escândalos do dinheiro dos judeus mortos no holocausto, da colaboração da Suíça com os nazistas. Quando eles podiam, iam passar férias lá, e lá é que era maravilhoso.

Por um lado, houve essa idealização, a tendência de cultivar a própria tradição, mas isso certamente não se limitou ao escapismo. Afinal, os judeus alemães eram bastante atuantes e marcaram a cultura brasileira.

Sim, eles tiveram importância em todas as áreas da cultura. Vieram excelentes fotógrafos, literatos, artistas plásticos, arquitetos... Mas a integração desse pessoal no ambiente cultural aqui também sempre foi só até certo ponto, pois era subentendida esta idéia de que eles não eram brasileiros. Embora vivessem aqui, para eles o brasileiro sempre era um outro. Eles não pretendiam se tornar brasileiros. Aprenderam a língua, muitos deles fizeram sucesso como empresários, como funcionários de grandes empresas, como artistas, mas sempre se sentiram como estrangeiros até o fim. Ficaram estrangeiros no mundo, porque o mundo do qual vinham, no qual se sentiam em casa, não existia mais em lugar nenhum. Não existia pátria: nem de onde tinham saído, nem para onde vieram, muito menos em Israel, porque a maioria era anti-sionista. Então ficaram agarrados ao mundinho que trouxeram de lá, pois não havia outro. Tudo o que restou foi esta pátria metafísica.