1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
SaúdeTaiwan

Taiwan entre falta de vacinas e desconfiança da China

William Yang
27 de maio de 2021

Em meio a seu surto mais severo de covid-19, apenas 1,3% da população taiwanesa recebeu uma dose de imunizante. Ao mesmo tempo, pesquisa sugere que só 29% aceitariam um produto chinês. Especialista desaconselha pânico.

https://p.dw.com/p/3u4lR
Cena movimentada com pessoal médico e pacientes
Surto inesperado de covid-19 preocupa autoridades taiwanesasFoto: Daniel Ceng Shou-Yi/ZUMA Wire/picture alliance

Até meados de maio, o êxito do Taiwan em impedir uma grande onda de covid-19, em plena pandemia, recebia elogios de todo o mundo. Nas últimas duas semanas, porém, milhares de novos casos locais eclodiram em todo seu território, forçando o governo a expedir um alerta nacional, enquanto tentava assegurar os recursos médicos para lidar com o número crescente de pacientes.

Apesar de em 2020 ter conseguido evitar ondas de infecção em massa, através de controles de fronteiras rigorosos e de regulamentos estritos para o uso de máscaras e distanciamento nos locais públicos, o Taiwan tem tido dificuldade de obter suficientes doses de vacina para seus cerca de 24 milhões de habitantes.

O único produto de que o país asiático dispõe atualmente é o da Oxford/AstraZeneca, da qual recebeu, até o momento, por volta de 756 mil doses, sendo parte no esquema de partilha global Covax, parte da própria fabricante. No entanto, os efeitos colaterais do imunizante sueco-britânico, como a formação de coágulos sanguíneos, são citados entre as razões por que muitos taiwaneses hesitam em se deixar inocular.

Segundo uma enquete realizada em abril pela Fundação do Taiwan pela Democracia, apenas 29% dos consultados acima dos 20 anos de idade estavam dispostos a receber a vacina de Oxford, com 66% afirmando não querer se vacinar.

Devido ao número reduzido de doses disponíveis, o governo tem também tido dificuldade para acelerar seu ritmo de vacinação, em meio ao pior surto do novo coronavírus, desde o começo da pandemia. Até esta quarta-feira (26/05), somente 319.665 cidadãos (1,3% da população total) recebera a primeira dose.

Conflito com Pequim

A falta de vacinas reacendeu o debate sobre se o Taiwan deveria considerar permitir a importação do medicamento anti-covid da China. No momento, a transação está proibida, sob os Regulamentos Governando a Permissão de Comércio entre a Área do Taiwan e a Área Continental.

Recentemente, o Shanghai Fosun Pharmaceutical Group expressou disposição a suprir a ilha com doses da BioNTech-Pfizer, mas a proposta ainda aguarda o aval do governo taiwanês. A multinacional americana assinou com a BioNTech um contrato exclusivo para desenvolver e comercializar a droga na China, Hong Kong, Macau e Taiwan, usando a tecnologia mRNA da firma alemã.

Na quarta-feira, a presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, acusou Pequim de bloquear um acordo entre seu país e a BioNTech: "Estávamos prestes a concluir o contrato com a fábrica alemã original, mas devido à intervenção da China, até agora não houve modo de concluí-lo", declarou durante uma reunião do governista Partido Democrático Progressista (DPP).

Por sua vez, legendas de oposição questionam a falta de iniciativa de Taipei em reagir às ofertas de mais doses por firmas como a Shanghai Fosun. "Num momento em que todo o mundo está ativamente tentando adquirir mais vacinas anti-covid, o Comando Central de Epidemias do Taiwan não deveria estar esperando passivamente pelas candidaturas das empresas", comentou Ho Chih-Yung, porta-voz da principal sigla oposicionista, o Kuomintang.

Ajuda indesejada?

O governo chinês ofereceu ao Taiwan ajuda para enfrentar o atual surto, enviando-lhe mais vacinas contra o novo coronavírus. Na segunda-feira, o Departamento de Assuntos Taiwaneses da China afirmou ter repetidamente oferecido ajuda, e que certos grupos e indivíduos do país teriam se manifestado pela compra dos produtos chineses.

"Nossa atitude é bem clara: estamos dispostos a fazer acertos rapidamente, de modo que a vasta maioria dos compatriotas no Taiwan tenha vacinas do continente para utilizar tão logo possível. Se necessário, estamos também dispostos a considerar ativamente enviar ao Taiwan peritos em prevenção e controle de epidemias, a fim de partilhar experiência antiepidemia com os profissionais médicos e sanitários locais", declarou o departamento.

Por sua vez, autoridades taiwanesas criticaram Pequim por continuar a obstruir os esforços nacionais para a aquisição em âmbito global de vacinas contra a covid-19. "Toda vez que a epidemia interna do Taiwan se agrava, a China critica nosso governo por obstruir a importação de vacinas do continente", afirmou o Conselho de Assuntos Continentais à agência de notícias Reuters.

De qualquer modo, uma pesquisa de opinião conduzida em fevereiro pela revista Global Views Monthly sugeriu que apenas 1,3% dos taiwaneses optariam pelas vacinas chinesas contra a covid-19. Além disso, especialistas em saúde têm ressalvas quanto à eficácia e segurança dos produtos da China, citando a mau histórico do país em acatar as Boas Práticas de Fabricação (BPF).

"Normalmente, a aprovação de uma vacina asseguraria que o processo de fabricação e entrega respeita as exigências vigentes", explica o professor Ho Mei-Shang, do Instituto de Ciências Biomédicas da Academia Sinica do Taiwan. "Até agora, não pudemos monitorar nenhum desses processos, então não acho que a Administração de Alimentos Drogas do Taiwan vá fazer algo que considere arriscado demais."

"Sem pânico exagerado"

Enquanto praticamente descarta a possibilidade de importar os imunizantes chineses, Taipei tem se voltado para os Estados Unidos, esperando que Washington lhe destine parte dos 80 milhões de doses que planeja distribuir por todo o mundo.

Nesta quarta-feira, contudo, o chefe da diplomacia americana no Taiwan, Brent Christensen, declarou que as taxas de contágio do país continuam baixas, que confia que o país conseguirá controlar o pico de incidências, e que os EUA ainda estariam elaborando os critérios para distribuição das vacinas.

Segundo o diretor do Centro de Saúde Global da Universidade do Estado de Oregon, nos EUA, Chi Chunhuei, já que a escala do atual surto taiwanês é reduzida, em comparação com outros países, seria difícil o governo americano prometer-lhe um certo número de doses.

"A administração [Joe] Biden só pode fazer isso secretamente, pois de outra forma será criticada por favorecer o Taiwan, enquanto outros países estão tendo situações pandêmicas muito mais sérias e precisam desesperadamente de vacinas."

"Politicamente, o Taiwan não pode esperar que o governo americano se comprometa a lhe dar uma certa porção das vacinas, mas por debaixo dos panos o país deve fazer tudo o que pode para conseguir a promessa de Washington", aconselha Chi.

O Centro de Comando de Epidemias do Taiwan informa que a ilha pode contar com mais 2 milhões de doses em junho, e outros 10 milhões até o fim de agosto, incluindo algumas fabricadas pela indústria farmacêutica nacional. A professora Ho Mei-Shang observa que a taxa de vacinação precisa chegar a 50% ou 60% para aplainar a curva do atual surto, mas ressalva que o país "não precisa ter pânico demais", pois "a coisa certa é seguirmos os protocolos existentes".